Quando Wes Craven trouxe à vida o primeiro capítulo da icônica franquia Pânico, o mundo do cinema passou por uma grande transformação no tocante estético e narrativo pelo simples fator da metalinguagem. Obviamente, o teor autorreferenciativo já apareceu com brevidade em outras produções, como ‘Cantando na Chuva’ e ‘A Última Sessão’, mas nunca com peso dramático de tanta importância como aqui. Como bem apontou Roger Ebert em sua crítica sobre o longa-metragem, foi a partir do longa-metragem de Craven que os personagens começavam a discutir sobre o próprio processo fílmico em vez de apenas exaltar a existência do cinema.

A trama pode não ser original em seu âmago, visto que presta homenagem a outra clássica saga comandada pelo realizador, ‘A Hora do Pesadelo’, e a tantos filmes de sua carreira. Em Pânico, o gênero slasher ganha uma camada tragicômica que acompanha cada um dos protagonistas e coadjuvantes e que constrói um universo dentro de um universo, arquitetando um microcosmos que nos convida a participar da mentalidade que se esconde por trás do filme. O enredo é focado em um grupo de jovens que vira alvo de um assassino em série conhecido como Ghostface – e que aterroriza a pequena cidade de Woodsboro para provar um ponto bastante sórdido e para obter vingança que só se concretiza nas cenas finais.

No centro desse banho de sangue cinematográfico, está Sidney Prescott (Neve Campbell), uma jovem estudante que é idolatrada como a principal vítima do serial killer e que dialoga com um passado traumática envolvendo o homicídio da mãe. Observando impotente seus amigos e entes queridos morrerem um a um, Sidney é alimentada por uma vendeta pessoal que a faz querer por um fim nesse reino de caos e voltar a uma normalidade que talvez nem exista mais. Como se não bastasse, ela é acompanhada pelo delegado assistente Dewey Riley (David Arquette), pela melhor amiga Tatum Riley (Rose McGowan) e pelo namorado Billy Loomis (Skeet Ulrich) nessa empreitada – e enfrenta inúmeros obstáculos no caminho.



A grande beleza do filme é não perceber sua grandiosidade; dessa forma, Craven tem plena ciência do que está fazendo sem querer revolucionar o método de se contar histórias (e, dessa maneira, o fazendo com solenidade marcante). Ghostface é tradução materializada dos mais memoráveis antagonistas do cinema e não pensa duas vezes antes de citar suas motivações (Qual o seu filme de terror favorito? é um de seus vários bordões), pincelado com uma caracterização pungente que ficaria eternizada na cultura pop. Eventualmente, o público sabe que a identidade do antagonista será revelada mais cedo ou mais tarde – mas o caminho que ele trilha também é motivo de convencer os espectadores a embarcar nessa perigosa e mortal jornada.

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Campbell faz um trabalho incrível como Sidney, encarnando os atributos mais arquetípicos da final girl e, de certa maneira, premeditando que retornaria inúmeras vezes ao mesmo ciclo de angústia e de morte que lhe acompanhou desde jovem – ora, ela até mesmo pega referências performáticas de ‘Jovens Bruxas’, suspense teen que estrelara alguns meses antes. E, enquanto a atriz domina as cenas, ela divide a atenção da audiência com Arquette, que entra com um interessante apreço pelo escape cômico, com McGowan, infundida em uma irreverência dilacerante, e, num âmbito bem mais marcante, Matthew Lillard como o assustador Stu Macher e Courteney Cox em uma de suas melhores rendições como a ambiciosa jornalista Gale Weathers.

Além das incríveis performances, o longa conta com uma trama que usa e abusa de estereótipos e clichês do gênero – cortesia da surpreendente estreia de Kevin Williamson como roteirista. Williamson mostra que tem bagagem o suficiente para descontruir as fórmulas do terror e que não tem medo de ousar com fusões inesperadas de estilos. O slasher, os jumpscares e o suspense são os ingredientes de maior sabor nessa deliciosa miscelânea – mas a angústia de ver os personagens serem perseguidos por um homicida mascarado é interrompida por diálogos cômicos e quebras de expectativa muito bem-vindas, bem como pontuais incursões políticas que são resgatadas nas sequências. E, no topo de tudo isso, Marco Beltrami nos agracia com uma tétrica e sólida trilha sonora que remonta a Ennio Morricone e a lamentações melancólicas para contribuir para a complexidade dos personagens.



Pânico carrega um senso de discernimento que seria aproveitado e reutilizado ad nauseam nos anos que o seguiriam, motivo pelo qual boa parte das cenas são reproduzidas até hoje. Não é surpresa que a icônica cena de abertura, que imortalizou Drew Barrymore como Casey Becker, tenha servido de inspiração para tantas obras cinematográficas e televisivas.

Em suma, são poucos os filmes de terror que superam o legado de uma das grandes obras de Craven. Cada elemento de sua estrutura é pensado com cautela invejável, dosando metalinguagem, ficção em realidade numa balança regada a mortes chocantes – e a uma das reviravoltas mais sangrentas do cinema.

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