Crítica | Regina King rumo a seu segundo Oscar na cinebiografia ‘Shirley para Presidente’

A história dos Estados Unidos é marcada por uma disparidade racial e de gênero. Não é nenhuma surpresa que não foi até os anos 1970 que a primeira mulher negra foi eleita para o congresso norte-americano, causando um grande alvoroço por parte da sociedade branca e tradicionalista que permanecia envolta em um segregacionismo inexplicável e que renegava a comunidade afrodescendente a um status de submissão mandatória. Logo, Shirley Chisholm abriu portas para que mais mulheres negras pudessem levantar a própria voz e descobrirem que podiam fazer a diferença através de um papel ativo na política nacional, transferindo foco para as minorias sociais que precisavam de amparo.

Agora, está na hora de revisitar a história de Chisholm através do longa-metragem biográfico Shirley para Presidente’, que chegou nos últimos dias ao catálogo da Netflix. A produção se afasta de uma estrutura convencional das obras do gênero e não mostra toda a vida da protagonista titular, e sim nos restringe ao curto período em que Shirley, pouco depois de ter sido eleita congressista, resolve concorrer à presidência dos Estados Unidos. Enfrentando uma série de problemas, desde a concorrência ferrenha dos políticos brancos até o descrédito promovido por membros de sua própria comunidade, ela acreditou ferozmente em grandes chances de mudar o panorama do governo estadunidense – ainda que seus esforços tenham sido em vão.

É notável como o título vem acompanhado de importância significativa para compreender como as engrenagens funcionavam mais de meio século atrás – e isso vem como cortesia das mais puras intenções do diretor e roteirista John Ridley (sim, o mesmo nome que levou para casa o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado por ‘12 Anos de Escravidão’). Ridley investe coração e alma por duas horas que passam em um piscar de olhos, mas que, como já podíamos imaginar, vêm acompanhadas de deslizes que se tornam difíceis de ignorar e que influenciam no resultado; de qualquer maneira, podemos deixar de lado as atribulações quando lidamos com uma performance arrebatadora de Regina King, trilhando seu caminho para uma possível segunda estatueta dos prêmios da Academia).

King é uma tour-de-force, assimilando todos os trejeitos de Shirley em uma amálgama perfeita de drama e superação – com algumas incursões quase cômicas que ajudam a quebrar um pouco a engessada atmosfera promovida por Ridley. Ela, inclusive, consegue superar clichês que aparecem em certas falas e na óbvia falta de profundidade ao analisar um dos momentos mais decisivos da história política dos Estados Unidos – chamando a atenção do público logo nos primeiros minutos. E, enquanto a atriz imbuí a figura de Chisholm, ela é acompanhada de outras rendições notáveis: Lance Reddick como Mac Holder, um de seus braços-direitos na campanha; Lucas Hedges como Robert Gittlieb, ex-aluno de Shirley que se torna pivô na conquista do eleitorado estudantil; Christina Jackson em uma presença solene como Barbara Lee (ainda que pudesse ter ganhado mais tempo de cena); e vários outros.

É perceptível como Ridley lança luz a certos momentos da vida de Shirley que, por vezes, são mantidos às escondidas do conhecimento geral. Partindo desse princípio, o cineasta une-se a Ramsey Nickell para arquitetar uma fotografia dupla: de um lado, vemos apostas na seriedade de uma paleta de cores fria e calculista para representar os esforços da congressista em deixar seu nome marcado na política; de outro, Shirley enfrenta os costumeiros problemas em sua vida particular, seja com a família ou com o marido, cujas sequências são adornadas com um espectro onírico e uma predileção pela luminosidade estourada para desassociá-la de sua posição como apenas figura pública. Em boa parte, essa estética funciona, mas torna-se previsível conforme nos aproximamos do ato de encerramento.

A estrutura desequilibra no tocante à estrutura técnica, especificamente quando mencionamos o trabalho de montagem assinado por JoAnne Yarrow. A edição parte de uma premissa parecida à vista em ‘A Grande Aposta’ ou ‘Não Olhe para Cima’, ambos dirigidos por Adam McKay, mas afastando-se do exagero cubista e fragmentado com que é tratado por este diretor; o problema é quando essas escolhas se estendem por mais tempo que deveriam, tirando preciosos minutos de tela para que possamos conhecer Shirley a fundo e culminando em um projeto que não parece finalizado por completo e que precisava de mais algum tempo para marinar e trazer algo de novo às biopics.

Shirley para Presidente’ cumpre com a mensagem que quer transmitir quando não tenta dar um passo maior que a perna – e, conforme deixa que King nos guie em uma de suas melhores performances, arranca momentos irretocáveis e memoráveis. Todavia, ficamos com um gostinho agridoce ao perceber a superficialidade com que tais temas são tratados, prezando mais pelo espetáculo visual e performático do que por aquilo que deveria prezar.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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