Desde ‘Tubarão’ e ‘Star Wars’, quando os verdadeiros blockbusters começaram a ser associados ao forte trabalho de marketing, Hollywood teve fases que foram bem definidas, os chamados filões. Ou, simplesmente, a onda do momento. Se a gente for um pouco mais afundo, algo parecido já havia acontecido décadas atrás com o grande número de superproduções bíblicas e épicas que lotavam os cinemas.

Os anos de 1980 foram repletos de grandes aventuras e filmes de guerra comandados por figurões como Steven Spielberg, Robert Zemeckis, Francis Ford Coppola, Martin Scorsese e outros. Já a década de 1990 produziu uma safra mais diversificada, desde produções milionárias, como ‘Jurassic Park’, ‘O Exterminador do Futuro 2’ e ‘Titanic’, a outras mais modestas e igualmente incríveis, como ‘O Silêncio dos Inocentes’, ‘O Sexto Sentido’ e ‘Pulp Fiction’.

Os thrillers e suspenses também marcaram época, mas tanto a ficção cientifica quanto os filmes de ação tiveram espaços bem maiores naquele momento, onde os cineastas mais populares eram James Cameron, Quentin Tarantino, Tim Burton e já no final da década M. Night Shyamalan e as Irmãs Wachowski.

Nos anos 2000, com a presença intensa da tecnologia, as continuações de ‘Matrix’ e muitas animações alcançavam bons números de bilheteria, assim como trilogias épicas, o cinema fantástico brilhou com ‘O Senhor dos Anéis’ e ‘Harry Potter’. As mega sagas da Warner dominavam completamente o mercado.



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Só que já a partir daí as franquias de super-heróis se intensificaram com ‘X-Men’, ‘Homem-Aranha’ e ‘Batman’. Com o lançamento de ‘Homem de Ferro’, ‘Hulk’ e o anuncio do universo compartilhado da Marvel, as produções que abordavam o tema ganharam ainda mais espaço, a ponto de os chamados filmes de super-heróis já serem considerados um subgênero. E não só isso, eles viraram o maior filão da indústria na última década e a Marvel Studios possui o posto de franquia mais lucrativa da história do cinema.

Só que, em meio a tantos justiceiros, outras histórias em quadrinhos tiveram a oportunidade de chegar aos cinemas. Muitas dessas adaptações, por sinal, nem dependiam disso, pois já faziam sucesso antes mesmo desse fenômeno explodir para o público. Algumas delas, inclusive, nem todo mundo sabe que são derivadas da nona arte. Filmes mais sérios, romances ou comédias declaradas.

Dessa vez vamos relembrar algumas delas por aqui. Muitos filmes legais que vieram dos quadrinhos, mas que não tratam exatamente de super-heróis ou figuras icônicas na cultura pop. A ideia aqui não é separar ou dizer que um é melhor que o outro, mas uma oportunidade de visitar e recordar esses bons filmes que muita gente nem sabe que vieram dos quadrinhos.


Sin City’, ‘300’, Robert Rodriguez e Frank Miller

Numa primeira categoria, a gente tem alguns títulos que hoje são bem conhecidos, que mesmo não dependendo de super-heróis fizeram nos quadrinhos tanto sucesso quanto os encapuzados. O caso de ‘Sin City’, dirigido por Robert Rodriguez, baseado na série original de Frank Miller.

Uma história repleta de personagens conflitantes, narrada através de vários contos que no final se interligam. Muita calcada nos filmes noir. Inclusive ganhou uma continuação que não é tão boa quanto, mas vale conferir. O próprio Miller teve outra obra sua adaptada com o Zack Snyder, o estrondoso sucesso ‘300‘, mas que se a gente olhar direitinho o Leônidas é um super-heróis, né.

MIB’, ‘Liga Extraordinária’ e o ódio de Alan Moore


Um pouco mais antiga, mas também vinda de uma famosa HQ é ‘A Liga Extraordinária‘, que nos cinemas não à toa é hoje completamente esquecida. A obra original assinada por Alan Moore é riquíssima historicamente e recheada de temas espinhentos em meio a uma aventura com muita exploração. O filme apostou basicamente na ação e esqueceu de dar profundidade a trama e os personagens.

Em contrapartida, uma franquia que só lembram devido a passagem nos cinemas é ‘MIBHomens de Preto‘. O quadrinho saiu 1991 pela Malibu Comic, sendo pouco comentado na época, mas quando Tommy Lee Jones e Will Smith ganharam as telas foi um sucesso absoluto. É sem dúvida um dos grandes blockbusters dos anos 90 e teve tanto folego que ganhou uma terceira parte em 2012.

Kick-Ass’, ‘Kingsman’ e o mundo de Mark Millar


O Procurado’, ‘Kick-Ass’ e ‘Kingsman’ são adaptações de hqs criadas pelo mesmo autor, Mark Millar. Muitos dizem que Millar não faz quadrinhos e sim roteiros de cinema ilustrados. Isso pelo dinamismo e contexto popular. Guerra Civil e Os Supremos, por exemplo, foram bases do universo Marvel Studios e ambas as histórias foram escritas por ele.

A Netflix já comprou os direitos para adaptar outras histórias de Mark Millar, como Superior, O Legado de Jupiter, Nemesis, Super Crock, Huck, Starlight e outros títulos da Millarworld. São filmes que mesmo tendo protagonistas bem definidos, não são exatamente de super-heróis.

RED’, ‘No Limite do Amanhã’ e Warren Ellis

Outro quadrinho que ganhou inusitadamente dois filmes foi ‘RED – Aposentados e Perigosos‘, e é curioso pois a história original escrita por Warren Ellis já não era grande coisa, em relação as várias outras obras fantásticas do próprio Ellis, como Planetary, por exemplo, mas no cinema a trama ganhou um frescor pelo baita elenco e pegada eletrizante. É divertido. Ellis é quem está por trás de ‘Castlevania‘, animação elogiada da Netflix.


De coisas mais recentes, ‘No Limite do Amanhã‘ estrelado por Tom Cruise é um action-sci-fi que deu muito certo e foi baseado no mangá All you need is kill. À primeira vista a trama parece batida, quando o personagem morre e volta no tempo revivendo diversas vezes, sem entender o que está acontecendo. Só que quando o conceito é melhor explorado entendemos que existem regras e ideias bem interessantes ainda não utilizadas em outras produções.

Scott Pilgrim’ e Edgar Wright

Scott Pilgrim Contra o Mundo’ é sem dúvidas uma das mais criativas e contagiantes adaptações que a cultura pop já produziu. O filme do Edgar Writgh transpõe com maestria os quadrinhos do canadense Bryan Lee O’malley. O visual é arrebatador, o ritmo é contagiante e a trilha sonora absolutamente animal. Eu colocaria até entre os grandes filmes do estilo.


Quadrinhos de Terror no Cinema

No lado do terror tivemos ‘30 Dias de Noite‘, uma série em quadrinhos enorme, com diversas fases, sendo a primeira delas dando margem para a adaptação do filme. A atmosfera criada de horror consegue superar os próprios acontecimentos. A história se passa na Antártica e todos começam a se preparar para ficarem alojados em suas casas durante 30 dias, já que nesse tempo a luz do sol não alcança o lugar. Aproveitando a chance, um grupo de vampiros vai a região para fazer a festa. Tanto o filme quanto as revistas são bem legais. Há também uma continuação.


Já ‘Do Inferno‘, mesmo sendo um interessante e trazendo uma história de detetive que prende o público, é algo bem aquém do quadrinho original de Alan Moore. Que por sua vez aborda acontecimentos clássicos por um viés extremamente visceral. Então se você curtiu o filme, precisa ler a obra de origem. É um dos textos mais incríveis do mago. E isso não é qualquer coisa.

‘Azul é Cor Mais Quente’, ‘Expresso do Amanhã’ e as HQ’s no Cinema

Numa abordagem mais séria, a gente começa com ‘Expresso do Amanhã‘, que marcou a estreia do sensacional Bong Joon-ho em Hollywood, e é também baseado num quadrinho chamado O Perfura Neve, dos anos 80. O filme assim como a revista tem um conceito muito original e fala sobre guerra de classes de maneira metaforicamente brilhante. Tá ali a altura da filmografia do Bong. Se vocês não conhecem, vão atrás de coisas como Mother, O Hospedeiro e Memórias de um Assassino.

Na Europa há vários exemplos como esses já citados, mas após faturar a Palma de Ouro, o francês ‘Azul é a Cor Mais Quente‘ ganhou o mundo e deixou o público maravilhado por evidenciar tanta intimidade entre o relacionamento de duas garotas de ideias progressistas e por também lidar de maneira muito genuína sobre um romance. Este também é baseado num quadrinho que apesar de mais simples inspirou grande parte das ideias do longa.

Marcas da Violência’, ‘Estrada para Danação’ e a Máfia nos Quadrinhos

E é claro que não podia faltar um filme sobre a máfia que tivesse saído da nona arte, o caso do excelente ‘Estrada para Perdição‘, do oscarizado Sam Mendes, estrelado pelo também oscarizado Tom Hanks. O quadrinho e o filme são passados na Grande Depressão e falam sobre como as pessoas daquela época tiveram seu caráter marcados pelo cotidiano violento daquele tempo. E o filme pega esses elementos e fala através da figura de um garoto que se torna um gangster da relação dele com o pai.

Pra fechar, gostaria de terminar com um dos filmes mais marcantes para mim baseados numa graphic novel, ‘Marcas da Violência‘, do mestre David Cronenberg. Que aparentemente parece falar especificamente sobre vingança e o que esse sentimento pode gerar. Mas também é um filme aborda um personagem extremamente misterioso vivido pelo Viggo Mortensen e com um tempo se revela tão perigoso quanto os que persegue. Uma obra incomoda, realmente, mas muito complexa nos temas que aborda.

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