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Crítica | ‘Diga-me Baixinho’ – Drama adolescente do PRIME VIDEO escorrega em soluções convenientes

Um coração, dois amores. Mesclando o drama e o romance com toques de suspense, explorando fases da vida de alguns jovens entrelaçados por uma situação do passado, a nova série do PRIME VIDEO, Diga-me Baixinho, avança pelo melodramático para recortar o choque entre a culpa, a paixão e o perdão. O projeto, logo após sua estreia, alcançou o Top 1 da plataforma.

Baseado em uma obra da escritora argentina Mercedes Ron – o primeiro livro que faz parte de uma trilogia – o projeto se projeta em cima de uma premissa: não há soluções fáceis para o amor, avançando em uma fórmula desgastada para fisgar o público mais jovem, naquela linha de Elite, ou mesmo das antigas One Tree Hill e The O.C. Notem que encontrei o paralelo com séries que tiveram longas temporadas para se desenvolver, mas a receita é a mesma – até porque uma trilogia provavelmente nos aguarda.

Kami (Alícia Falcó) é uma jovem popular do ensino médio em uma escola de elite. Sempre rodeada pelas amigas mais próximas, vê seu castelo de cartas da perfeição ruir quando os irmãos Di Bianco – Taylor (Diego Vidales) e Thiago (Fernando Lindez) – retornam à cidade após um acontecimento trágico ocorrido há pouco menos de uma década. Antes muito ligada a eles e agora sem saber o que acontecerá, Kami embarca em uma jornada de escolhas e paixões, buscando se desprender dos traumas do passado.

O roteiro empurra suas revelações para um ‘gran finale’, ficando à mercê de uma narrativa dosada e com clima de tensão, que por vezes escorrega em soluções convenientes. Um fato que ajuda é a utilização do flashback para ajudar a construção dramática e desenvolvimento dos personagens, revelando algumas camadas – ligando o passado ao presente. Nesse princípio narrativo de causa e efeito, uma atmosfera com sensação constante de tensão busca explorar temas como sexualidade, a traição, o luto e a tragédia.

Com filmagens realizadas em Barcelona, Santiago de Compostela e em outras localidades da Espanha, Diga-me Baixinho é mais uma história de drama adolescente que não foge do comum e que ainda possui um final aberto, dando margem a interpretações. Ainda se completará e, torcemos, explorará as consequências das ações de seus pouco carismáticos personagens com mais eficiência.

Crítica | Paddington 2 – Muito mais do que um filme bonitinho para crianças

Um Sonho de Liberdade

Lembro como se fosse ontem da forma como fui arrebatado no final de 2014, ao comparecer numa exibição para a imprensa e conferir As Aventuras de Paddington. A surpresa veio ao saber que a campanha de marketing do filme (quem poderia esquecer o creepy Paddington) que andava dando tiros no pé e quase reverteu a imagem fofa e aconchegante do ursinho, não conseguiu manchar o filme. E melhor ainda, o longa de Paul King sobressaiu, se mostrando incrivelmente bom – daquele tipo de filme tão recomendado para os adultos quanto para as crianças. Caso queiram conferir, aqui estão meus pensamentos sobre o filme original.

E como é bom ser surpreendido por um filme do qual não esperamos nada. Quando se trata de uma produção mirada aos pequenos, melhor ainda. Então, volto aqui três anos depois e repito a dose. Paddington 2, continuação de As Aventuras de Paddington, é tão bom, ou ainda melhor, que seu antecessor.

Novamente escrito e dirigido por Paul King (em time que está ganhando não se mexe), a sequência inesperada – ninguém imaginou que veríamos uma nova aventura do ursinho (bem, talvez os produtores, já que o filme deu lucro) – se beneficia de ter seu universo já estabelecido e bem explorado. Novamente apostando no forte teor “inglês” do filme, Paddington não é como os filmes do gênero Hollywoodianos, e aí está sua força e verdadeira alma.

Os filmes de Paddington representam bem a educação, o sentimento de civilidade e os valores britânicos. Até mesmo o tipo de humor aqui é bem único. Realmente este que vos fala não esperava perceber como é gostoso revisitar o universo do ursinho amado pela vizinhança. Imagine o Mr. Bean em forma de um urso falante, adorável, porém, incrivelmente desastrado e inocente.

Atores como Hugh Bonneville e Sally Hawkins (que será indicada ao Oscar este ano por A Forma da Água) novamente são bem utilizados e recebem chance de protagonizar momentos curiosos e engraçados – o humor é simples, inocente, mas sofisticado, remetendo a clássicos comediantes do segmento, vide Charles Chaplin e Buster Keaton, que misturavam doçura e dramaticidade às suas comédias.

Um dos grandes destaques do segundo filme é o veterano Hugh Grant, substituindo Nicole Kidman como o vilão da vez, na pele do ator egocêntrico e em decadência Phoenix Buchanan. Grant está simplesmente impagável, e chegou até mesmo a ser indicado como ator coadjuvante no BAFTA, o Oscar britânico. Sim, não poderiam deixar de fora da premiação um produto tipicamente e incrivelmente inglês. Além de Grant, o longa foi indicado nas categorias de roteiro adaptado (Paul King), já que os filmes são baseados nos livros infantis da década de 1950, escritos por Michael Bond; e na categoria de melhor filme igualmente.

O que surpreende nesta sequência, fato que faz a indicação do filme nestas categorias citadas acima não serem um ultraje, é que Paddington 2 é um eficiente filme de prisão. Sim! Você leu certo! O filme do ursinho otimista e adorável é uma comédia infantil passado no lugar mais inusitado que se poderia imaginar. Depois de ser acusado de um crime que não cometeu – e você já deve imaginar quem o fez – Paddington (que segue com a voz de Ben Whishaw do original – mas que teve Danilo Gentilli substituído por Bruno Gagliasso em nosso país) é condenado e enviado a um presídio.

Do lado de fora, sua família faz de tudo para provar sua inocência e encontrar o verdadeiro culpado. Enquanto isso, encarcerado, Paddington usa suas qualidades amigáveis e puro carisma para cativar seus companheiros de cela, em especial o linha dura Knucles McGinty (Brendan Gleeson), o cozinheiro dos detentos, com quem forma uma parceria para criar altos pratos (em especial doces). E como todo filme de prisão, em determinado momento, uma fuga é planejada.

Com todos estes elogios, e um final verdadeiramente emocionante, visto em poucos filmes do gênero, ou até mesmo na maioria dos filmes adultos, Paddington 2 é a prova que os filmes mirados aos pequenos não precisam trata-los de forma depreciativa, entregando o mais baixo denominador comum e tripudiando de sua inteligência. Paddington 2, que não por menos é o filme mais bem avaliado deste início de ano no agregador Rotten Tomatoes, é simples, mas transborda de elementos edificantes, se tornando praticamente uma obrigação para os pais apresentarem aos pequenos. Longe de qualquer violência ou qualquer outra baboseira, o filme parece disposto apenas a criar seres humanos melhores – e quem não quer isso.

Margot Robbie é SUCESSO como a ‘Barbie’! Saiba quais Papeis a Atriz QUASE Estrelou no Cinema

Margot Robbie é hoje um dos maiores nomes de Hollywood. Quiçá o maior! Tudo o que bastou para isso foi dizer sim para uma “pequena” obra chamada ‘Barbie’. Acho que você já deve ter ouvido falar. A australiana de 33 anos conseguiu seu primeiro trabalho nas telas em 2008, no ano em que entrou para o elenco da novela/série australiana ‘Neighbours’.

No programa, Robbie permaneceu por 327 episódios, até se despedir em 2011, disposta a alçar voos mais altos nos EUA – tentando a sorte em Hollywood. No mesmo ano em que saía da novela australiana, Robbie aparecia em ‘Pan Am’, série sobre aeromoças da famosa companhia aérea extinta que dá título, da rede americana ABC. O seriado muito promissor, viveria por apenas uma temporada antes de ser cancelado.

Robbie pode ter achado que sua sorte havia se esgotado na época, mas não poderia estar mais equivocada. Isso porque dois anos depois, passaria no teste para viver Naomi Lapaglia em um dos maiores sucessos de dez anos atrás: ‘O Lobo de Wall Street’, de Martin Scorsese, com Leonardo DiCaprio. É curioso pensar que em apenas dez anos de estrada em Hollywood, Margot Robbie tenha atingido o nível de estrelato a que chegou. De lá para cá, foram nada menos do que 24 longas-metragens em que participou, seja estrelando, dublando ou em pontas, até o fenômeno ‘Barbie’ este ano.

Se a Barbie fosse real, ela seria Margot Robbie.

Para termos uma ideia da escalada da loira na maior indústria de cinema do mundo, para ‘O Lobo de Wall Street’, ela recebeu um cachê de US$347 mil e com parte desse valor quitou a hipoteca da casa da mãe. Pulando para 2020, quando já era uma estrela indicada ao Oscar duas vezes (por ‘Eu, Tonya’ e ‘O Escândalo’), ao viver Arlequina (então seu papel mais famoso) pela segunda vez em ‘Aves de Rapina’, a atriz recebeu um salário de US$9.5 milhões.

É claro que esse valor varia em relação ao tipo de filme. Por exemplo, para ‘Amsterdam‘ (2022), um filme de maior prestígio, que visava prêmios (apesar de não ter conseguido indicações), mas que não é um blockbuster, seu salário foi de US$5 milhões. E quando falamos do fenômeno ‘Barbie’, Robbie conseguiu para si um acordo do nível do de Jack Nicholson em ‘Batman’ (1989), com a diminuição do cachê em prol de uma porcentagem da bilheteria (um risco, mas que demonstra a confiança de um ator em um projeto). Nessa brincadeira, a atriz embolsou simplesmente US$50 milhões por ‘Barbie’, metade do orçamento do filme – levando em conta que o longa já ultrapassou a marca de US$1 bilhão em bilheteria e somando.

Em homenagem a esta estrela suprema de Hollywood e ao sucesso de ‘Barbie’, resolvemos trazer um pouco dos bastidores da carreira de Margot Robbie, mostrando que todos tem seus dias de luta e de glória. Aqui, traremos os papeis que a atriz quase interpretou. Ela disputou, fez teste, mas terminou não conseguindo. Confira abaixo.

Quarteto Fantástico (2015)

Curiosamente, vem sendo muito noticiado que a Marvel tentou negociar ou de fato ainda está negociando com Margot Robbie para o papel de Sue Storm, a Mulher-Invisível, no blockbuster ‘Quarteto Fantástico’, que o estúdio pretende lançar em 2025. Outras fontes garantem que a britânica Vanessa Kirby já está contratada para a vaga. Seja como for, a primeira Mulher-Invisível dos cinemas foi a californiana Jessica Alba na produção da FOX de 2005. Dez anos depois disso, o mesmo estúdio investia em um reboot da ideia, e foi nessa época que Margot Robbie, então saída do sucesso de ‘O Lobo de Wall Street’, foi considerada para viver a principal personagem feminina da produção.

Estamos falando de ‘Quarteto Fantástico’ de Josh Trank, de 2015. Margot Robbie fez teste para o papel e era a primeira escolha do diretor para viver a personagem nas telonas. No entanto, os executivos do estúdio preferiram apostar em Kate Mara para o papel, e deram a personagem Sue Storm para ela. Levando em conta que o filme viveu para se tornar um fiasco de crítica e bilheteria, ainda hoje um dos filmes mais detonados pelos fãs quando falamos em produções baseadas em quadrinhos de heróis, talvez o ditado “há males que vem para o bem” se encaixe perfeitamente aqui.

Por outro lado, logo em seguida, Margot Robbie descolaria o papel de Arlequina em ‘Esquadrão Suicida’ (2016), após Emma Roberts desistir da personagem. Embora ‘Esquadrão Suicida’ igualmente não seja um filme adorado, foi sucesso de bilheteria, e serviu para consolidar Robbie na que se tornou sua personagem mais badalada no cinema (até ‘Barbie’). O filme pode não ter sido sucesso, mas Robbie e Arlequina foram.

Birdman (2014)

Um ano antes de perder o papel de Sue Storm para Kate Mara, Margot Robbie foi oferecida uma personagem que muito bem poderia tê-la levado ao Oscar pela primeira vez, três antes de sua indicação por ‘Eu, Tonya’. Acontece que sua atuação em ‘O Lobo de Wall Street’ chamou atenção de Hollywood inteira, e começaram a chover ofertas para a loira australiana. Uma destas ofertas foi como Sam em ‘Birdman’, produção do mexicano Alejandro G. Iñárritu que se tornou um grande sucesso no Oscar, e um dos filmes mais badalados da década passada.

Talvez Robbie, ou seus agentes, não tenham visto muito potencial no filme sobre um ator tentando dar a volta por cima após ter abandonado o papel num blockbuster de herói, para isso tentando montar um grande espetáculo de prestígio na Broadway, ao mesmo tempo em que tenta fazer as pazes com sua filha – com quem não tem o melhor dos relacionamentos. Iñárritu já era um nome prestigiado na indústria, tendo dirigido ‘Amores Brutos’, ’21 Gramas’ e, principalmente, ‘Babel’. Mas, por alguma razão, Margot Robbie se deu ao luxo de recusar o papel de Sam, a filha do protagonista, e saiu para estrelar ‘Golpe Duplo’, com Will Smith.

O papel terminou nas mãos de Emma Stone, que conquistou sua primeira indicação ao Oscar pelo filme. Stone, é claro, viria a levar a estatueta de melhor atriz dois anos depois por ‘La La Land’.

Cinderela (2015)

O ano de 2015 não foi fácil para Margot Robbie. Mas a vida é assim mesmo, feita de altos e baixos. E em um mercado competitivo como o de Hollywood, muitas vezes não importa seu nível de estrelato, e sim se você se encaixa para o papel na visão do diretor ou dos executivos do estúdio. Quando surge um personagem importante em um projeto que promete sacudir o mundo, todo e qualquer ator dentro dos parâmetros visam o trabalho, concorrendo entre si e testando para o papel. Depois de ter perdido a vaga de Sue Storm em ‘Quarteto Fantástico’ para Kate Mara, a atriz australiana perderia ainda outro papel badalado na época.

Estamos falando de ‘Cinderela’ (2015), um dos primeiros live-action da Disney baseado em uma de suas animações clássicas. Filão que se tornou um subgênero para o estúdio atualmente. ‘Cinderela’ é um clássico conto de fadas originalmente escrito pelo francês Charles Perrault em 1697. Mas se tornaria pop de verdade ao ganhar a forma de uma animação da Disney em 1950, que ajudou a erguer o estúdio. Em 2015, era lançada a versão da história com atores reais, comandada por Kenneth Branagh. E Margot Robbie queria o papel principal. Porém, os realizadores terminaram optando pela britânica Lily James – que ganharia o mundo com o papel.

Um Mergulho no Passado (2015)

Completando a trifeta dos filmes de 2015 que Margot Robbie por muito pouco não estrelou, temos o menos conhecido do lote. Não que a australiana tenha do que reclamar, porque, como dito, logo em seguida a atriz viria a descolar o papel que marcaria sua carreira, a transformando numa estrela internacional: Arlequina, nos filmes da DC. O mais curioso disso é que o carisma de Robbie no papel é tão imensurável, que conseguiu transcender até mesmo o fato de que nenhum dos filmes em que aparece como a personagem conseguiu somar sucesso de crítica e público. Ou eles tinham boas bilheterias, mas eram execrados pelos críticos (e fãs); ou até recebiam elogios, mas fracassavam financeiramente.

Aqui temos um caso diferente na carreira de Margot Robbie, no entanto. Ela havia sido escalada para viver Penelope Lanier no drama ‘Um Mergulho no Passado’ (A Bigger Splash, 2015), dois anos antes do mesmo diretor Lucca Guadagnino explodir com o filme ‘Me Chame Pelo Seu Nome’ (2017) – indicado ao Oscar. Acontece que na mesma época, surgiu a oferta da Warner para que Robbie protagonizasse como a icônica Jane Clayton em mais uma reimaginação do clássico em ‘A Lenda de Tarzan’. Assim, Robbie se bandeou para o novo projeto e abriu espaço para que Dakota Johnson estrelasse o filme de Guadagnino.

As Panteras (2011)

Terminando a lista das principais produções que Margot Robbie quase estrelou, agora iremos falar em uma obra das telinhas e não das telonas. Voltando para o início de carreira da atriz, onde ela deixava o programa australiano ‘Neighbours’ para tentar a sorte nos EUA, e para a época em que estrelou ‘Pan Am’. Como dito, assim que saiu de seu país de origem, Robbie embarcou no programa da rede ABC, mas este não era o plano original da atriz. Acontece que ela havia feito teste para ser uma das Panteras, no reboot que a série clássica da década de 1970 ganharia no mesmo ano de 2011.

Depois de ter sido um seriado de muito sucesso nos anos 70, ‘As Panteras’ ganhou as telonas numa produção com Drew Barrymore, Cameron Diaz e Lucy Liu. Foram dois filmes até 2003, mas depois disso, a intenção era voltar às telinhas. Foi nessa época que Margot Robbie fez teste para o novo programa, mas terminou sendo escalada para outro programa do mesmo canal ABC, o citado ‘Pan Am’. O reboot de ‘As Panteras’ estrearia com Racheal Taylor, Minka Kelly e Annie Ilonzeh como o novo trio, mas teria o mesmo destino de ‘Pan Am’ sendo cancelada após uma temporada de 8 episódios.

10 Filmes para Você que Gosta de Psicologia – Parte 2

Amores platônicos, obsessões, amizade entre um inusitado ser vivo e um homem em caos emocional, uma jovem em busca de justiça contra o abuso masculino, um caótico restaurante que vira palco de sangrentos diálogos, uma jovem e seu estudo sobre o suicídio, um homem em meio a suas memórias e perdendo a noção da realidade, uma mulher que encontra o seu lugar pleno de felicidade roubando bancos e muitas outras histórias nos chegam nessa parte dois do nosso especial contínuo 10 Filmes para você que gosta de Psicologia para analisar o ser humano e seus caminhos rumo a um entendimento (ou não) sobre o viver.

Abaixo a lista dessa segunda parte, com filmes da França, EUA, África do Sul, Alemanha, Brasil, Espanha.

 

Professor Polvo (2021)

Tudo na vida tem começo, meio e fim. Um homem e seus conflitos em certa etapa da vida, consumido pelo stress de um cotidiano caótico em não encontrar um oásis dentro das obrigações que se amontoam em sua vida. Durante mais de 200 dias na África do Sul, resolve interagir todo esse tempo com um polvo e assim acaba embarcando em uma série de descobertas sobre como vive esse molusco de oito tentáculos e que possui uma série de ventanas. Uma narrativa detalhista, emocionante, que mexe com nossos campos reflexivos nos paralelos que encontramos entre as leis da vida de um polvo e nós que estamos fora da água. Professor Polvo, produzido pela Netflix, foi o vencedor do Oscar de Melhor Documentário em 2021.

Hipnotizante, inspirador. Uma história que pode parecer quando a gente lê a sinopse meio sem sentido, começa a mostrar porque é tão profunda quando começamos a entender as mudanças na maneira de pensar do mergulhador que se sente outro planeta debaixo da água. Acaba criando uma inusitada amizade com o polvo, esse que possui uma capacidade surpreendente e criativa de enganar seus inúmeros predadores. Ricas imagens preenchem a tela a todo instante, é como se estivéssemos dentro daquele pedacinho do oceano acompanhando de perto toda essa saga sem objetivo específico mas sempre surpreendente.

A parte onde descobrimos a força de vontade de se reconstruir é um clássico exemplo da vida, onde milhões espalhados pelo mundo precisam diariamente buscar suas chances de uma confortável trajetória em uma concorrência muitas vezes desleal mas mesmo assim, a maioria de nós, consegue de alguma forma (ou faz de tudo) sobreviver. Há mais paralelos: o sacrifício, a felicidade, as dificuldades, os obstáculos, nada de novo mas sempre com o olhar do inacreditável pelas intensas imagens que conseguimos acompanhar.

História de amizade, leis da vida, paralelos com os cotidianos espalhados por aí. Um dos grandes documentários dos últimos anos, despretensioso mas que consegue emocionar até os corações mais distantes de emoções.

 

Meu Pai (2021)

Como superar o que para você mesmo é insuperável? Indicado a seis Oscars em 2021, Meu Pai, é uma espécie de um jogo de suposições dentro de um labirinto de situações. Um vai e vem emocional constante, do êxtase à amargura. Um engenheiro aposentado cheio de manias, apreciador de ópera, dentro de um apartamento em Londres com um quebra-cabeça para resolver, um jogo de um jogador apenas, mesmo com personagens surgindo a todo instante, passa seus dias, de alguma forma, bastante solitário. Nossos olhos são Anthony, vamos descobrindo onde cada peça se encaixa junto com ele. Um roteiro primoroso onde não conseguimos tirar os olhos da tela. Magistral atuação de Anthony Hopkins (que lhe valeu o Oscar de Melhor Ator). Roteiro e direção assinados pelo cineasta francês Florian Zeller, seu primeiro longa-metragem como diretor.

Na trama, conhecemos Anthony (Anthony Hopkins), um homem já no terço final de sua vida, perto dos 80 anos, que vive seus dias em um apartamento confortável em Londres onde recebe a visita constante de sua filha Anne (Olivia Colman). Quando essa última conta para ele que está indo morar em Paris, situações diferentes começam a aparecer nos seus dias, até mesmo personagens diferentes mas que significam algo ao redor da vida dele, e assim conflitos familiares são trazidos à tona. Alucinações? Lembranças? Quais peças não estão lugar?

Guiado por uma trilha sonora bastante incisiva (assinada pelo compositor e pianista italiano Ludovico Einaudi), o filme é a constatação do tempo em poucos momentos no sofrido acesso às memórias de um homem que nunca conseguiu se desvencilhar dos traumas de sua vida, principalmente uma tragédia com uma de suas filhas. Lutando contra a própria mente, buscando ao equilíbrio entre a razão e emoção para entender tudo que projeta com vida nesse momento, Anthony embarca em uma viagem com objetivo de desatar algumas amarras de consternação das lembranças de sua alma detalhista.

Paranoico? Medo de ficar sozinho? Aos poucos, junto com o inesquecível personagem, vamos percebendo que algumas coisas não fazem um certo sentido, há muitas coisas estranhas acontecendo ao seu redor, o que faz a passos largos caminhá-lo para um ato final angustiante. Vale novamente destacar a maestria de um ator que possui um domínio impressionante de seu espaço cênico, o inesquecível Anthony Hopkins em uma de suas melhores performances na carreira.

 

Palm Springs (2020)

Uma grande e ilimitada sessão de terapia. Indicado a dois globos de ouro nesse ano, Palm Springs, dirigido pelo cineasta Max Barbakow e com roteiro assinado por Andy Siara, é uma comédia disfarçada, há um abalo emocional reflexivo para os personagens em constante loop. Melancólico até certo ponto, caminha nessa linha que flerta com o desesperante só que de maneira inteligente, com questões da ciência envolvida pela física, e com carismáticos personagens. A dupla Andy Samberg e Cristin Milioti mostra grande sintonia em cena. Grata surpresa.

Na trama, conhecemos Nyles (Andy Samberg) um convidado distante de uma festa de casamento em um lugar isolado que após entrar em uma caverna misteriosa, durante o casamento, acaba acordando no mesmo dia do casamento infinitamente. O filme começa já com ele desiludido e meio que desistindo de tentar algo pra mudar isso, mas tudo muda quando num desses cenários repetitivos ele acaba puxando Sarah (Cristin Milioti), a irmã da noiva, para o mesmo loop.

Aceitar o fato? Procurar sentido nas coisas? Há um choque entre os sentimentos dos dois personagens, muito porque Nyles já está acomodado naquela situação faz bastante tempo e Sarah, por conta de uma situação que vendo o filme vocês saberão, quer correr desse loop o mais rápido possível, lutando bravamente contra esse ‘poder’ inusitado. O interessante é que o ponto de interseção acaba sendo dois, dependendo do ponto de vista: a eterna arte de fugir da solidão e um intenso amor que surge entre os dois. Acompanhando o filme de qualquer uma dessas óticas, você vai se divertir.

O que você faria se pudesse fazer o que quiser sem consequências, pois, o dia seguinte seria o mesmo que hoje? Uma premissa maravilhosa para mentes criativas e Siara consegue com suas linhas de roteiro nos fazer rir, refletir sobre a vida e torcer constantemente para os personagens encontrem uma saída mas sem esquecer de um duelo quase vital nesse jogo do loop que se torna a batalha da ética interpessoal misturada com a índole, isso, contra a inconsequência.

 

Banklady (2013)

Quando a adrenalina e o prazer acionam um gatilho em forma de transtorno de personalidade. Dirigido pelo cineasta alemão Christian Alvart, em Banklady voltamos para meados da década de 60, em Hamburgo na Alemanha onde uma mulher trabalhadora dentro de uma rotina monótona vira a primeira mulher assaltante de banco da Alemanha. O filme tem vários caminhos interessantes, desde a conturbada linha do bandido carismático, o foco da mídia, até uma psicologia complicada, desiludida no amor. A protagonista, interpretada pela ótima atriz Nadeshda Brennicke, parece viver em outro compasso do que a realidade que a cerca. Interessantíssimo filme alemão.

Na trama, conhecemos Gisela Werler (Nadeshda Brennicke), uma batalhadora que trabalha em uma fábrica de impressão e vive, além de sustentar, os pais já bem idosos. Sem propósitos na vida, vivendo uma solidão evidente desencontrada com seus sonhos de ser popular, ou mesmo, ter a mesma vida das modelos de revistas que sempre observa, a protagonista conhece Hermann (Charly Hübner), um ladrão de bancos que após algumas situações resolve desafiar Gisela para um assalto a banco. A partir desse ponto, a vida de Gisela muda e ela se torna impulsiva e imprevisível. Dentro de um universo machista, acaba sendo elemento surpresa durante um bom tempo.

Quando se impor as inconsequências que chegam em nossos caminhos? A transformação da personagem principal é algo bem notório. Quando vira uma assumida ladra de bancos, divide seu tempo em manter um emprego que já não precisa mais, entrar em conflito com os sentimentos que nutre quase obsessivamente por Hermann e planos cada vez mais audaciosos no seu rentável trabalho criminoso. Além disso, muda a atitude, ganha ares de preocupação com a vaidade principalmente quando percebemos que seus troféus são capas das revistas, quando vira quase uma figura carismática na mídia fervorosa da época.

O filme é dividido em arcos explosivos, tensos com um quê de insensatez psicológica. A chegada da investigação policial quando os crimes se tornam assuntos nacionais fazem o confuso e inexperiente Kommissar Fischer (Ken Duken), responsável pela investigação dos bancos roubados, um grande achado para o roteiro.

Quais os limites da razão e da emoção? Passando por cima dessa pergunta, a protagonista tem sonhos simples com obsessões sendo nutridas dentro dos seus diários choques com o perigoso jogo que sustenta seu ego.

 

Loucura de Amor (2021)

A difícil ponte entre os clichês e as inúmeras formas de emocionar o espectador. Simples, objetivo, dinâmico, aventureiro, curioso, amoroso, emocionante. Uma série de adjetivos saltam em nossas mentes logo na abre alas eletrizante, antes mesmo dos créditos, dessa pequena joia divertida espanhola, disponível no catálogo da maior dos streamings, Loucura de Amor. Contando a saga de um homem em busca das descobertas, às vezes hipócritas e desencontradas, para definir o amor acaba se vendo em uma jornada rumo às profundidades desse sentimento, aliado a isso noções quase que educativas sobre a arte de nunca pré julgar a ‘loucura’ alheia. Dirigido por Dani de la Orden com roteiro assinado por Natalia Durán e Eric Navarro.

Na trama, conhecemos Adri (Álvaro Cervantes), um jornalista que trabalha em uma revista badalada escreve sobre os mais diversos e muitas vezes polêmicos temas. Certa noite, saindo com dois inseparáveis amigos e acaba conhecendo Carla (Susana Abaitua) da maneira mais inusitada possível e ambos resolvem curtir aquela noite sem compromisso e depois não se verem mais. A questão é que a tal noite é intensa e inesquecível, deixando Adri desesperado nos dias seguintes atrás daquela mulher que acabara de mudar sua maneira de enxergar o mundo. Ele acaba a achando, e descobre que Carla é paciente em uma clínica psiquiátrica. Assim, o protagonista precisará bolar um plano bem fora do comum para tentar passar mais alguns dias perto do amor de sua vida.

No fundo dos meus olhos, pra dentro da memória te levei. O amor é um dos pilares desse despretensioso filme, lançado sem alarde. Pisando sem medo em diversos clichês, o longa-metragem consegue se enrolar (no bom sentido) em uma fórmula carismática de nos convencer no seu arco principal e nos encher com quebras de paradigmas sociais (dentro de discursos super simples), principalmente a questão sobre a ‘loucura’. Há tempo também para lindos arcos sobre amizade e carinho ao próximo. As emoções e sentimentos são tratados de forma leve e que nos da muita vontade de assistir cada vez mais o desenrolar dessa fábula sobre os incompreensíveis caminho para se chegar ao tão sonhado estado de amor.

 

O Animal Cordial (2017)

O recorte impactante do psicológico em contraponto à normalidade. Um cenário, personagens intrigantes, violência e doses consideradas de descontrole comandam o clima de O Animal Cordial, longa-metragem lançado anos atrás no circuito brasileiro que consegue impactar e nos chocar através das linhas de seu poderoso roteiro. Escrito e dirigido pela cineasta Gabriela Amaral Almeida, o filme, bastante sangrento, é uma caixinha de surpresas que flerta com um efeito parecido que um plot twist pode conseguir.

Na trama, conhecemos Inácio (Murilo Benício), o dono de um restaurante que está prestes a encerrar mais um dia de trabalho ao lado de seus funcionários, principalmente o cozinheiro chefe Djair (Irandhir Santos) e a faz tudo Sara (Luciana Paes), além de um cliente jantando sozinho, o ex-policial Amadeu (Ernani Moraes) e em seguida chega o casal Veronica (Camila Morgado) e Bruno (Jiddu Pinheiro). Em certo momento da noite, uma dupla de assaltantes invade o local fazendo todos os personagens citados acima de refém. Só que a noite reserva muitas surpresas e somos testemunhas de algumas inversões sobre quem está realmente no comando das ações.

Uma equação sobre as hipocrisias da vida passada a limpo caminhando na linha do controle sobre o descontrole transforma o longa em uma imprevisível sequência onde ninguém é herói de nada mas há vilões por todas as partes. O roteiro é muito inteligente, transforma o espectador em testemunha, como se estivéssemos sentados em uma das mesas observando o desenrolar dos fatos. Não é moldada uma teia de mentiras para serem decifradas e sim um espinhoso caminho rumo à psiquê humana com traços de guerras entre classes. Gabriela Amaral Almeida é um nome para anotarmos em nossas agendas e sempre assistirmos aos próximos filmes dela.

 

Eu me Importo (2021)

A linha reta e obsessiva do inescrupuloso egoísmo em uma sociedade cheia de brechas. Caminhando na tênue linha do non-sense, Eu me Importo é profundo em uma crítica social constante sobre os valores do ser humano e as brechas da lei dentro das ações de uma sociopatia escancarada de uma mulher malévola. Acoplado a isso, subtramas desinteressantes e personagens distantes deixam na superfície os porquês, fatores importantes para entendermos fatos e ações. Em seu terceiro longa-metragem como diretor, o cineasta J Blakeson (que também assina o roteiro) busca na sua forte personagem o pilar para contar sua história. O filme, disponível na Netflix, foi indicado ao Globo de Ouro 2021 na categoria Melhor Atriz em filme Musical ou Comédia pela interpretação da ótima atriz britânica Rosamund Pike.

Na trama, conhecemos Marla Grayson (Rosamund Pike), uma mulher de forte personalidade que achou uma mina de ouro em um negócio (nada ético) bastante rentável de guardiã de legal de pessoas idosas que não conseguem mais tomar atitudes. Com esquemas com uma médica, casas de saúde para idosos e enrolando juízes, ao lado de sua parceira de vida e sócia Fran (Eiza González) estão sempre planejando o próximo golpe. Um dia aparece a ficha de Jennifer Peterson (Dianne Wiest) e assim Marla rapidamente vira sua guardiã legal. Só que dessa vez, o alvo tem muito mais segredos do que aparenta e trará graves problemas para Marla e seus integrantes do esquema.

Podemos dividir o projeto em duas avenidas: a das críticas em relação a tudo que envolve esse esquema desleal e a da vida pessoal e com pouca relevância de alguns dos personagens. O longa-metragem tem ritmo por mais que pareça sempre como faltando alguma peça do quebra-cabeça. A inversão dos valores sociais (ou algo parecido com isso) é um contraponto interessante e faz refletir, nessa terra sem lei onde tudo é egoísmo, Marla é mais vilã do que um gângster que mexe com tráfico de pessoas?

A sociopatia da personagem é muito bem definida e constante, fruto de um bom trabalho da ótima Rosamund Pike. Pena que o relacionamento com Fran é pouco explorado, a coadjuvante vira uma peça inconstante dentro de um roteiro que possui falhas mas busca na sua protagonista o brilhantismo do todo. Dianne Wiest, por exemplo, passa quase desapercebida, uma pena. Mas é você leitor quem precisa tirar suas próprias conclusões, o filme está disponível no mais famoso serviço de streaming disponível no Brasil.

 

Bela Vingança (2021)

Os traumas que nunca saem de nossas mentes e mudam radicalmente uma trajetória. Selecionado para dezenas de festivais e beliscando algumas categorias do Oscar 2021, escrito e dirigido pela cineasta e atriz britânica Emerald Fennell (em seu primeiro longa-metragem atrás das câmeras), Promising Young Woman é pulsante, intenso, usa do impactante, do sarcasmo, para criar um raio-x profundo para quem ainda tem dúvidas sobre o assédio, o machismo que acontece muito por aí. Mostrando o caminhar de alguns em cima da linha tênue do ‘benefício da dúvida ou acreditar em quem diz ser vítima?’ O projeto conta com uma atuação marcante da excelente atriz britânica Carey Mulligan.

Na trama, conhecemos a ex-estudante de medicina Cassie (Carey Mulligan) que mora com os pais em uma confortável casa. Ela trabalha em um café da cidade e passa suas noites indo a boates e points de pegação onde se finge de bêbada para dar lições em homens que dão em cima dela nesse estado. Há algum trauma, um gatilho para fazer o que faz e vamos entendendo melhor os seus porquês principalmente quando sabemos do suicídio de uma grande amiga nos tempos de faculdade. Mas tudo muda com a chegada novamente em sua vida de Ryan (Bo Burnham), um cirurgião pediatra que estou tempos atrás com ela.

Promising Young Woman é o caminho conturbado de uma protagonista, brilhante nos tempos de faculdade, que após o assédio e exposição de uma grande amiga resolve abandonar tudo e viver uma vida em busca de vingança contra o machismo descarado mesmo que isso a faça viver situações constrangedoras e perigosas. Sua única saída é a vingança e ela chega de maneira como se estivesse em um túnel onde é impossível enxergar o fim dele. O projeto não deixa de ser uma análise profunda sobre a sociedade que vivemos. As conturbações psicológicas da protagonista, na verdade, podemos enxergar também como uma série de gritos de indignação com as ‘absolvições’ de quem merece a punição.

Nos tempos atuais onde a luta contra o assédio se torna cada vez mais importante e dominante em diversos segmentos empresariais e da sociedade como um todo, o papel da arte em mostrar espelhos da sociedade é fundamental para consolidar esse pilar. Ótimo filme.

 

O Porco Espinho (2009)

Toda família feliz é igual mas toda família infeliz é única. Escrito e dirigido pela cineasta francesa Mona Achache, com roteiro baseado na obra A Elegância do Ouriço de Muriel BarberyO Porco Espinho, lançado no ano de 2009, é um belíssimo filme que usa de diversos contrapontos para nos fazer enxergar todo um contexto sob a ótica de duas solitárias (cada uma à sua maneira): uma jovem super esperta que está decidida a se matar e uma solitária zeladora leitora assídua. Diálogos sobre livros, questões existenciais, cotidiano estressante, impossível não abrir um sorriso e também não ficar com o coração apertado após assistir a esse belo trabalho que diz muito sobre amizade e esperança.

Na trama, conhecemos Paloma (Garance Le Guillermic), uma jovem inteligente, muito à frente do seu tempo, que está decidida a se matar por não mais conseguir aturar sua vida e se sentir deslocada em uma família egoísta, rica e distantes entre si. Mas no prédio que ela mora, não é a única que se sente solitária. Reneé (Josiane Balasko) é a zeladora do prédio e precisa aturar todo tipo de situação no seu dia a dia. Amante dos livros, conversa com os poucos amigos que tem. A chegada de um novo vizinho, Sr. Ozu (Togo Igawa), acaba mexendo com a vida não só de Paloma mas também com a de Reneé, criando inclusive uma amizade entre as duas.

Uma rigidez no pensar e a infelicidade no contraponto. Há duas protagonistas nessa história, o que torna essa jornada ainda mais interessante. Paloma é inteligente, estuda japonês e ama cinema. Com sua câmera portátil, filme situações ao seu redor e toda sua família, além dos moradores do prédio onde mora. Está envolvida de alguma forma no pensar da parábola do aquário, onde se sente limitada, sem saída em muitos momentos. Os desabafos dela são feitos virados para sua câmera, uma espécie de consulta a um psicólogo. Já Reneé impõe no seu lindo pensar limitações por conta de sua classe social e medos, principalmente com a chegada do novo vizinho que mexe muito com sua vida. Quando Paloma e Reneé se aproximam, conseguimos sentir a força da solidão das duas mas também que quando estão conversando a alegria e riso fácil as acompanham. Uma faz a outra ver algum lado bom da vida.

A vida e a morte, a eterna desconfiança sobre o destino. Há uma solidão evidente por trás do conhecimento mas quando esses se aproximam, tudo começa a fazer mais sentido. O Porco Espinho, filme que deveria ser visto por psicólogos e estudantes, é um fábula urbana muito interessante sobre a roda gigante de emoções que é viver.

 

Undine (2020)

O enigmático mundo entre o que pensamos e como sentimos. Exibido no Festival de Berlim, onde inclusive ganhou o prêmio da crítica (FIPRESCI) e ainda levou o concorrido Urso de Prata de Melhor Atriz, Undine possui um engenhoso roteiro que nos leva a um profundo drama, obsessões, palavras ao vento, perda, como o ser humano reage em momentos difíceis. Escrito e dirigido pelo cineasta Christian Petzold (um dos bons nomes na direção quando pensamos em cinema europeu, com ótimos trabalhos recentes) o projeto nos leva a uma jornada de conhecimento de uma personagem forte e muito complexa que possui um modo de pensar confuso, altera realidade com imaginação como se estivesse perdida dentro das interseções dos seus intensos relacionamentos e sentimentos. Cheio de simbolismos, o roteiro brinca com o espectador a todo instante.

Na trama, conhecemos Undine (Paula Beer), uma historiadora, que está à beira de uma certa loucura, discutindo sobre o iminente término de relacionamento com o namorado Johannes (Jacob Matschenz) que a traiu recentemente. Mas, por coincidência do destino, no mesmo dia que termina o relacionamento, encontra com o mergulhador industrial Christoph (Franz Rogowski) e logo surge uma paixão intensa entre os dois. Com o passar do tempo, idas e vindas de trem (a distância que separam os dois pombinhos), Undine encontra Johannes certo dia e esse momento poderá mudar pra sempre o provável final feliz dessa história.

Nos guiamos pelas ações de Undine a todo instante. Historiadora, obsessiva, uma solidão com a estranheza de não entender muito bem certas situações ao seu redor, muitas vezes introspectiva, vivendo uma fuga atrás da outra dentro de uma lógica fora da realidade. Uma alma carente que não sabe se definir fora de um relacionamento. Personagem extremamente complexa, um grande desafio para a competente atriz alemã Paula Beer.

O interessante e porque não dizer bastante original roteiro não fala somente sobre a complexidade psicologia por trás da sua protagonista, há espaço também para recebemos uma grande aula sobre Berlim e parte da história alemã através dos estudados momentos de palestras que a personagem ministra a muitos visitantes de um ponto turístico de Berlim. Há um vão entre a relação desses momentos com a maneira de pensar de Undine mas nada que atrapalhe o bom filme que se apresenta.

10 filmes pra assistir pelos streamings comendo tudo que sobrou da Ceia de Natal!

Entre o natal e o ano novo, há aquele período onde cozinhamos pouco e vivemos de requentar as deliciosas comidas que sempre sobram da ceia natalina. Para acompanhar esse menu – que muitas vezes fica ainda mais gostoso dias depois – nada melhor que um bom filme! Para ajudar vocês nessa escolha, sugerimos abaixo alguns filmes:

 

Corra que a Polícia Vem Aí (Paramount +)

Frank Drebin Jr. (Liam Neeson) é um detetive atrapalhado, porém bem respeitado, do esquadrão de polícia de sua cidade. Filho de uma lenda das forças policiais, ele precisará enfrentar o maior desafio de sua profissão.

 

A Virada Errada (Prime Video)

Tudo ia muito bem na vida da musicista Kiia que está prestes a ter o primeiro filho com o marido, o pastor Lauri. No dia em que entra em trabalho de parto, a caminho do hospital, o carro em que estão bate em alguma coisa na estrada. Tempos depois, uma verdade é revelada quando Kiia conhece Hanna, uma mulher que enfrenta a iminente perda do marido.

 

Deu Match: A Rainha de Apps de Namoro (Disney Plus)

https://youtu.be/CKo3zfYWOdY?si=ZibTCm5JrSAzIa9f

Whitney (Lily James) é uma jovem recém-formada que busca uma oportunidade no mundo tecnológico em uma cidade da Califórnia. Ao conhecer Sean (Ben Schnetzer), sócio de uma incubadora de startups, ganha a chance que desejava. Nesse lugar, participa ativamente da criação do Tinder, uma plataforma de namoro que rapidamente ganha a atenção do planeta. Mas o sonho desse sucesso logo vira um pesadelo quando ela inicia um relacionamento com um dos sócios e, tempos depois, passa a enfrentar situações de assédio e percebe as problemáticas diretrizes dessa empresa. Abalada, se reinventa e monta a Bumble, uma plataforma online que vira um enorme sucesso.

 

A Garota Ideal (Prime Video)

Lars é um introspectivo homem. Quando ele avisa que conheceu alguém pela internet, sua família fica feliz. Só que logo descobrem que ela é uma boneca inflável, desencadeando uma série de situações.

 

Uma Vida Melhor (Lionsgate +)

O filme aborda a questão dos imigrantes ilegais de forma comovente, a partir do olhar de Carlos Galindo (Demián Bichir, indicado ao Oscar por essa atuação), um mexicano que vive com seu filho adolescente, Luis Galindo (José Julián), em uma cidade americana. O medo de ser deportado e os sonhos de uma vida melhor tomam conta da trama, cujo roteiro roteiro é assinado por Eric Eason, baseado na história de Roger L. Simon.

 

Drop: Ameaça Anônima (Prime Video)

Na trama, conhecemos uma viúva que decide se encontrar com uma pessoa que conheceu por um aplicativo. Chegando lá, é surpreendida por uma série de mensagens aterrorizantes, que transformam seu encontro em um enorme pesadelo. Buscando soluções, ela viverá uma noite repleta de tensão e surpresas.

 

Karaoke (Reserva Imovision)

Meir (Sasson Gabay), um professor aposentado, vive um casamento morno com Tova (Rita Shukrun), em Tel Aviv. Sua vida ganha um novo impulso com a chegada de Itzik (Lior Ashkenazi), um carismático agente de artistas que agita o prédio com festas animadas. Fascinado pelo novo vizinho, Meir embarca em uma jornada de autodescoberta em busca de sentido e renovação.

 

A Pior Pessoa do Mundo (Prime Video)

Dirigido por Joachim Trier, esse filmaço nos leva até a história de uma jovem perto dos 30 anos que se encontra em diversas dúvidas na sua vida, passando por momentos importantes e amadurecendo conforme reflete sobre o que passou.

 

Vida Selvagem (Sony One)

Jerry (Jake Gyllenhaal) e sua esposa Jeanette (Carey Mulligan) são um casal de classe média baixa que moram em uma cidadezinha, em meados dos anos 1960. O casal possui um único filho, Joe (Ed Oxenbould), e é muito pela ótica desse personagem que vamos acompanhando o casamento dos pais ir do céu ao inferno, culminando em uma separação dolorosa marcando a vida de todos os envolvidos.

 

Manga (Netflix)

Lærke (Josephine Park) é uma mulher que busca os próximos passos no ramo hoteleiro. Mãe da jovem Agnes (Josephine Højbjerg), ela nunca consegue arrumar tempo para a filha. Focada em uma nova missão determinada pela chefe, Joan (Paprika Steen), ela parte para Málaga com o objetivo de convencer o viúvo Alex (Dar Salim) a vender suas valiosas terras, que abrigam uma enorme plantação de mangas. Tudo que ela não esperava era se apaixonar por ele.

Meryl Streep entra para a 2ª Temporada de ‘Big Little Lies’

O monstro sagrado Meryl Streep entrou para o elenco da segunda temporada do sucesso esmagador Big Little Lies, da HBO, é o que informa a Variety.

A notícia chega pouquíssimo tempo depois de uma nova indicação ao Oscar para a atriz ser divulgada, a sua 21ª, pelo filme The Post – A Guerra Secreta, de Steven Spielberg.

Streep irá interpretar Mary Louise Wright, mãe de Perry Wright (Alexander Skarsgard, o grande papa prêmios da temporada). Depois da morte de seu filho, ela chega à Monterey procurando respostas.

Segundo fontes da Variety, Streep vai embolsar US$800 mil por episódio. A atriz possui três estatuetas do Oscar.

Nicole Kidman e Reese Witherspoon serão novamente as produtoras da nova temporada, e também retornarão às suas respectivas personagens. Liane Moriarty, autora do livro no qual a primeira temporada é baseada, volta assinando parte da nova história para a segunda temporada. A diretora Andrea Arnold irá comandar os sete novos episódios, com Jean-Marc Vallée, diretor original, servindo como produtor.

Dicas de Filmes que Você Precisa Conhecer na Programação do Telecine!

Hoje vivemos uma verdadeira guerra dos streamings – que de certa forma substituiu a guerra dos grandes estúdios nas salas de cinema. A Disney e a Warner, por exemplo, dois dos maiores estúdios de Hollywood, possuem suas próprias plataformas de streaming com a Disney+ e a HBO Max (em breve, apenas Max).

A extinta Fox, comprada pela Disney, e se tornando 20th Century Studios, migrou suas produções para a Star+, uma segunda plataforma da Toda-Poderosa casa do rato Mickey. O curioso é que as líderes de mercado, Netflix e a Amazon possuem também suas produções originais, que raramente vão aos cinemas, e começaram sua batalha por audiência nas telinhas mesmo. A Amazon foi além e comprou a MGM, e com o estúdio todo o seu acervo, é claro – o que inclui franquias como 007 e Rocky Balboa.

Algumas chegam atrasadas a esta corrida, como a Paramount, que lançou sua plataforma nos 45 do segundo tempo. E outras, sequer possuem uma plataforma própria, como a Columbia (Sony), e nem planejam ter. O que o estúdio faz é “emprestar” suas produções para quem oferecer mais – no momento elas estão indo justamente para a HBO Max. Já a Universal até possui uma plataforma nos EUA, o Peacock, mas no Brasil quem conseguiu um acordo de ouro com o estúdio foi o Telecine, uma plataforma de streaming cem por cento brasileira, pertencente ao grupo Globo. O Telecine possui não apenas o acervo mais recente de produções da Universal, como também da Paramount e até produções independentes. São justamente essas produções mais alternativas o foco desta nova matéria. Aqui, iremos apresentar alguns filmes bem interessantes disponíveis no catálogo do Telecine, que talvez nem todos conheçam, mas que devem descobrir. Conheça abaixo.

Marte Um

Um dos maiores sucessos de crítica do cinema nacional nos últimos anos, ‘Marte Um’ foi o escolhido para representar o Brasil no Oscar 2023 – mas terminou não passando pela pré-seleção. Escrito e dirigido pelo mineiro Gabriel Martins, o longa usa como cenário a pequena cidade do cineasta, Contagem, para o retrato de uma típica família negra de classe baixa de nosso país. O pai, Wellington (Carlos Francisco), é um porteiro que tem grandes planos para o filho mais novo, Deivinho (Cícero Lucas), se tornar jogador de futebol, mas o menino tem outra ideia sobre seu futuro e quer se dedicar à ciência.

Marte Um’ funciona como grande analogia social e critica a transição de governo pela qual o Brasil passou – com o sufocamento da cultura, da ciência e planos sociais em prol do militarismo. Fora isso, mas ainda no mesmo tópico, temos representado através da personagem Eunice (Camilla Damião) um apelo à causa LGBTQI+. A filha mais velha inicia um relacionamento com uma mulher e está tentando a aceitação da “família tradicional” sem causar muito choque. ‘Marte Um’ é um filme poético, sensível e repleto de nuances.

Emily – A Criminosa

Nos últimos anos, o público tem testemunhado a ascensão de Aubrey Plaza, oriunda do cinema independente norte-americano, mais voltada às comédias. Plaza já está na estrada há muito tempo, e desde 2009 vem aparecendo em filmes famosos. Há mais ou menos 10 anos, teve a oportunidade de protagonizar algumas obras, como ‘Sem Segurança Nenhuma’ e ‘Diário de uma Virgem’. Mas é inegável que sua popularidade aumentou muito de uns anos para cá, graças ao cult ‘Ingrid Vai para o Oeste’ (que diz muito sobre a geração “Instagram”) e em especial a série ‘White Lotus’, na qual Plaza brilhou na segunda temporada.

Recentemente, Aubrey Plaza pôde receber mais alguns elogios em uma performance dramática no filme ‘Emily – A Criminosa’, onde interpreta uma mulher cheia de dívidas e com dificuldade financeira, que termina envolvida em um esquema de golpes de cartão de crédito, desesperada, descendo até o submundo do crime.

Alice

Quem estrela este drama / thriller é Keke Palmer, vista recentemente em ‘Não! Não Olhe!‘, de Jordan Peele, também contido na grade de programação do streaming do Telecine. Aqui ela faz um papel bem diferente, como uma jovem escrava vivendo numa plantação, sofrendo nas mãos de seu senhor de engenho. É quando ela reúne forças e finalmente consegue escapar. No entanto, no melhor estilo ‘A Vila’ (2004), de M. Night Shyamalan, ela irá se deparar com uma realidade muito diferente do que imaginava, uma vez que ultrapasse a linha que divide a propriedade e as árvores. Bom, se você não quer saber mais nada do filme, pule o parágrafo abaixo para o próximo item – mesmo que o fato esteja no trailer.

O que acontece é que ela descobre que não estava vivendo no passado, e sim na década de 1970. E seu “senhor” é apenas um racista sádico, tentando emular uma época onde seus antepassados viviam como reis. Diante de tamanha atrocidade cometida contra ela, a protagonista decide retornar para se vingar. No mínimo curioso e bastante criativo.

As Vigilantes

Mesmo que os filmes nesta lista não agradem todos, a intenção é trazer longas com ideias criativas e fora da caixinha, que não são do conhecimento de todos. Agora temos outra produção bastante provocativa, cujo título original é “Asking for It”, o famoso “você pediu” ou “você estava pedindo”. Uma frase proferida no passado principalmente por machistas que acreditam que as mulheres sempre estavam provocando os homens. Bem, quem dera isso tivesse ficado no passado, pois muitos imbecis pensam assim até hoje.

Com um elenco de rostos conhecidos, vide Vanessa Hudgens, Kiersey Clemons, Alexandra Shipp e Gabourey Sidibe, todas interpretam mulheres parte de um grupo feminista de justiceiras, que atacam e se vingam de homens abusadores, espancadores e estupradores de mulheres. E adivinha quem interpreta o vilão? O vilão da vida real Ezra Miller, também conhecido como ‘Flash’, que no filme vive o líder de um grupo de machistas radicais, cuja intenção é “colocar as mulheres em seu lugar”. Isso resultará num confronto explosivo.

Benedetta

Exibido no prestigiado Festival de Cannes, esse é o novo trabalho do diretor holandês Paul Verhoeven, o mesmo responsável por sucessos como ‘Robocop – O Policial do Futuro’ e ‘Instinto Selvagem’. Em sua nova obra polêmica, o cineasta usa como cenário um convento de freiras na Itália do Século XVII. No local, se encontra a protagonista, a jovem freira que dá título ao filme, papel da belga Virginie Efira, que já havia trabalhado com Verhoeven em seu longa anterior, o igualmente polêmico ‘Elle’, com Isabelle Huppert. O diretor está desde 2000 sem filmar em Hollywood, quando entregou ‘O Homem sem Sombra’ – filme que na época não fez o sucesso imaginado, mas ressurgiu como obra cult subestimada.

Desta época para cá, Paul Verhoeven voltou para a Europa para filmar em países como a França, Alemanha, os Países Baixos e sua terra natal, a Holanda – foi de onde saíram filmes como ‘A Espiã’, ‘Traição’, ‘Elle’ e este ‘Benedetta’. Na trama de seu mais recente trabalho, a freira Benedetta começa a ter visões perturbadoras, que misturam religião e eroticismo. Ou seja, já deu para perceber que Verhoeven enfia novamente o dedo na ferida. Não bastasse isso, a chegada de uma outra jovem ao convento começa a despertar em Benedetta a vontade pelo pecado e a tentação de desejos libertinos – o fruto proibido do primeiro pecado.

E aí, querido cinéfilo?! – Nossa Coluna de Entrevista | Parte 29: Marcelo Ikeda

A beleza do cinema é conseguir enxergar além do que os olhos conseguem captar. Falar de cinema é uma grande prova de amor ao sentimento das curiosidades que afligem esse imenso mundão que vivemos. Todo tipo de filme, de qualquer gênero, busca o importante elo em apresentar emoções ao espectador, seja ele quem for. Pensando em entender melhor as razões do porquê o cinema ser uma coisa tão rica para nossa existência como ser humano, esse eterno jovem cinéfilo que vos escreve buscou cinéfilos espalhados pelo Brasil (alguns até pelo mundo) para contar um pouquinho da trajetória cinéfila deles para vocês.

Nosso entrevistado de hoje é um grande estudioso sobre essa arte que tanto amamos. Mestre formado pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e economista de formação, Marcelo Ikeda trabalhou na Agência Nacional do Cinema (ANCINE) entre 2002 e 2010, ocupando diversas funções. Como crítico de cinema, escreveu para vários veículos, organizou mostras e escreveu um livro. Com tanta experiência no audiovisual brasileiro, é uma grande honra ter Ikeda em nosso especial cinéfilo.

 

1)  Na sua cidade, qual sua sala de cinema preferida em relação a programação? Detalhe o porquê da escolha.

Em Fortaleza, onde atualmente moro, o Cinema do Dragão, mantido pelo Governo do Estado do Ceará. No Rio de Janeiro, uma sala pela qual sempre tive muito carinho, muito importante para minha formação, é a Cinemateca do MAM.

 

2)  Qual o primeiro filme que você lembra de ter visto e pensado: cinema é um lugar diferente.

NÃO AMARÁS, do Kieslowski. Quando vi esse filme, tinha uns 12 anos de idade, e foi como uma anunciação. Logo ao final desse filme, percebi imediatamente que o cinema passava a fazer parte da minha vida, como uma sombra, de modo que, sem ele, eu não existiria.

 

3)  Qual seu diretor favorito e seu filme favorito dele?

São tantos rs. Vou citar dois. Jonas Mekas (Walden). Chantal Akerman (Jeanne Dielman ou News From Home).

 

4)  Qual seu filme nacional favorito e porquê?

Aopção, do Ozualdo Candeias. O porquê está aqui rs. http://www.cinecasulofilia.com/2008/04/ave-candeias-vi-aopo.html

 

5)  O que é ser cinéfilo para você?

Ser cinéfilo é se dedicar profundamente a realmente querer compreender o que de fato é um filme.

 

 

 

6)  Você acredita que a maior parte dos cinemas que você conhece possuem programação feitas por pessoas que entendem de cinema?

Infelizmente não. Me parece que a maior parte das pessoas que programam atualmente as salas de cinema entende de comércio, e não de cinema.

 

7)  Algum dia as salas de cinema vão acabar?

Não. Elas já não têm e não terão a importância que já tiveram um dia, pois hoje há outras formas de ver cinema para além das salas de cinema, o que têm aspectos positivos e negativos. Mas a sala de cinema nunca vai acabar.

 

8)  Indique um filme que você acha que muitos não viram mas é ótimo.

Nossa, são tantos rs. Vou citar O SOL DO MARMELEIRO, do Victor Erice. Um filme luminoso sobre a relação entre criação e vida. Quero citar também um filme brasileiro: O QUE SE MOVE, de Caetano Gotardo, um filme sombrio e delicado sobre como tudo pode estar prestes a ruir, mesmo sem nenhuma explicação plausível.

 

9)  Você acha que as salas de cinema deveriam reabrir antes de termos uma vacina contra a covid-19?

Não cabe a mim dizer, pois essa decisão deve ser feita por especialistas em políticas sanitárias, especialmente médicos. No entanto, aqui na Europa, vejo muito mais riscos em aglomerações em ambientes como bares e aviões do que em salas de cinema.

 

10) Como você enxerga a qualidade do cinema brasileiro atualmente?

O cinema brasileiro vive um momento de grande pluralidade, de muitas coisas diferentes sendo feitas, algumas delas de muita qualidade. Mas os principais filmes brasileiros do seu tempo não são vistos, são vistos por muito poucos, apenas em festivais de cinema. E vivemos um momento de desmonte, de uma tentativa de reduzir o impacto da arte e da cultura brasileira, o que é muito grave.

 

11) Diga o artista brasileiro que você não perde um filme.

André Novais OliveiraPetrus Cariry.

 

12) Defina cinema com uma frase.

Inspirado pelo movimento do mundo, o cinema é uma forma de criar outros possíveis, outros modos de ser, ativando nossa experiência sensível diante do mundo.

 

13) Conte uma história inusitada que você presenciou numa sala de cinema.

Uma vez eu fechei os olhos numa sala de cinema e, quando os abri, estava em outro mundo.

 

14) Defina ‘Cinderela Baiana’ em poucas palavras…

O fim (e o fracasso) de um modelo de produção do cinema brasileiro.

 

15) Muitos diretores de cinema não são cinéfilos. Você acha que para dirigir um filme um cineasta precisa ser cinéfilo?

Não necessariamente. Adoro diretores cinéfilos, mas, mais que unicamente pelo cinema, os cineastas devem ser tocados não só por outras formas artísticas mas especialmente pelo movimento do mundo. Como diziam os neorrealistas italianos: não estamos interessados propriamente no cinema, mas sobretudo no homem e na natureza.

O algoritmo até sugere, mas não conversa: SAUDADES do balcão da locadora!

Desde a primeira vez em que entrei em uma locadora de filmes, ainda na adolescência, nos anos 1990, senti que aquele lugar era um verdadeiro templo cinéfilo, onde poderia conversar com outras pessoas que compartilhavam a mesma paixão que eu: o cinema. Além disso, e sem a divulgação gigantesca dos dias atuais, descobria filmografias fantásticas de países de todas as partes do mundo. Assim, conheci obras de Bergman, Kubrick, Sokurov e outros tantos cineastas que até hoje levo nas minhas memórias.

Eu e Sandra, uma grande cinéfila e funcionária da Locadora Cavideo

Eu ia para a escola já pensando em cinema e, enquanto meus amigos mais próximos só queriam saber de jogar Counter-Strike nas famosas lan houses, assim que tocava a sirene do colégio, indicando o término do dia, eu pegava as moedinhas da mesada que juntava em um cofrinho e partia para um tour pelas locadoras do bairro onde morava.

Era um tempo delicioso, e eu queria descobrir os filmes do passado! As fitas – sim, sou do tempo do VHS – que chegavam logo ganhavam classificações, geralmente por bolinhas coloridas, que se juntavam a tantas outras, com variação de preço. Mas o que me deixava ansioso eram as promoções: pegar um ‘numero x’ de filmes e só devolvê-los na segunda-feira! Sexta-feira era meu dia preferido de ir até as locadoras, por causa disso.

Eu e Luiz, um grande cinéfilo e dono da Locadora mais charmosa do Brasil, a Paradise
Eu e Luiz, um grande cinéfilo e dono da Locadora mais charmosa do Brasil, a Paradise

Nesses lugares, hoje esquecidos pelo tempo, eu adorava papear com os funcionários. Sentia-me em uma enorme sala de aula, onde dicas e mais dicas me levavam para descobrir histórias marcantes, despertando em mim um senso crítico com reflexões por todos os lados. Com as outras pessoas que frequentavam – cinéfilos como eu – também conversava aos montes, trocando dicas e entendendo a respeitar os outros pontos de vistas. No início, eu ficava irritado se alguém jogava pedras em um filme que eu amava (rs), mas, aos poucos, fui aprendendo a cada vez mais respeitar os olhares sobre uma mesma obra.

Ah, lembro bem também que inauguraram uma locadora de filmes perto da minha casa, onde você alugava filmes pelo telefone. Quando eu não conseguia ir até essa locadora, por apenas 50 centavos você recebia as fitas em casa – depois os dvds – e, pela mesma quantia, iam buscá-las. E ai se eu esquecesse de rebobinar! Era multa na certa! O catálogo atualizado era colocado na minha caixinha de correio semanalmente, com sinopses e os artistas que faziam parte das obras.

Mídia Física de um filme que adorava alugar! Foto: Reprodução Internet

Pouco tempo depois, veio o tempo da Blockbuster, um lugar que eu não curtia muito, pois o contato com as pessoas que trabalhavam lá já era distante. Pra devolver o filme, havia uma gaveta virada para o lado de fora da loja, fato que perdia toda aquela magia que sentia ao frequentar esses estabelecimentos cinéfilos.

Aí chegaram os streamings, a tecnologia, e as facilidades para se chegar até um filme ficou à beira de um mero clique. Indicações por algoritmos hoje são uma tendência, encurtando a distancia até uma obra audiovisual, mas criando uma distância na conversa presencial entre as pessoas apaixonadas por cinema. Tudo ficou mais fácil, porém bate uma tristeza daqueles tempos que não voltarão.

Eu, na Paradise! Uma das locadoras que mais amava!
Eu, na Paradise! Uma das locadoras que mais amava!

O meu amor pelo cinema continua, mas nunca deixarei de lembrar a sensação de abrir a porta de uma locadora e meus olhos brilharem com tantas possibilidades de descobrir histórias pelas mídias físicas, de encontrar outras pessoas apaixonadas por sétima arte e refletir sobre a sociedade através de bons debates nesses lugares.

Eu, no paraíso de todo cinéfilo!
Eu, no paraíso de todo cinéfilo!

E você, lembra desses tempos? Viveu esses momentos? Divida com a gente suas histórias!

Crítica | Altered Carbon – Ficção Científica futurística da Netflix é complexa o suficiente

Admirável Novo Mundo

Antes de começar este texto analisando todos os dez episódios da primeira temporada de Altered Carbon, nova série da Netflix, que o CinePOP teve a oportunidade de conferir de antemão, gostaria de dizer que você pode ler nossas primeiras impressões (dos três primeiros episódios) neste link. É seguro dizer também, como previsto, que os primeiros episódios apenas arranharam a superfície da complexidade do que de fato é o seriado. E para ter uma ideia, comparar a Blade Runner seria até injusto – apesar de universos visualmente similares. Pois aqui, o buraco é (muito) mais embaixo – como dizem.

A complexidade do roteiro de Altered Carbon é admirável, ao mesmo tempo se tornando seu calcanhar de Aquiles. A ficção científica é um gênero muito específico, que até hoje cria enorme barreira com grande parte do público. E este programa é o que podemos definir como ficção científica de raiz. Novos conceitos são apresentados em nome do futuro a cada episódio e cada nova guinada, fazendo da série um produto não acessível para quem está acostumado a um consumo rápido e descartável, de ideias recicladas, das quais sabemos exatamente para onde o roteiro irá nos levar.

Altered Carbon não é a reinvenção da roda, e sim, igualmente está preso a uma narrativa estrutural conhecida. O que chama atenção na série, e constitui sua maior vantagem, é a força com que cria novos conceitos e se apoia na tecnologia de pensamentos do futuro. A base deste novo mundo é a vida eterna. Ou quase. Aqui, os humanos descobriram um jeito de passar suas consciências para dentro de uma máquina, um artefato do tamanho de um disco de hóquei, que pode ser transferido para outro corpo – conhecidos aqui como “capas” (nossa carroceria), mantendo-nos vivos por centenas de anos. O corpo cansa, fica velho e morre, mas não nossas mentes. Desta forma, temos seres humanos vivendo até 200 anos – ou mais.

No meio desta nova realidade, temos uma trama de investigação, que remete direto aos clássicos de detetives do cinema noir. Um homem é contratado por um magnata, para descobrir seu assassino. Sim, você leu certo. Como apenas o corpo morre, após ser assassinado, o ricaço, papel de James Purefoy, transfere sua consciência para uma cópia de seu corpo, e segue com sua vida como se nada tivesse acontecido. O whodunit é apenas uma das subtramas, no entanto, dentro de um verdadeiro emaranhado ao longo dos dez episódios da primeira temporada.

Temos também conspirações, organizações revolucionárias que visam derrubar o poder, dramas familiares, tramoias dentro da força policial, traições, alianças e todos os elementos que formam um bom suspense dramático.

Não existem grandes nomes na frente das telas, e o seriado segura-se em algum carisma do protagonista Joel Kinnaman. O ator sueco, que ainda não deu sorte ao estrelar uma superprodução (RoboCop de José Padilha – injustiçado – e Esquadrão Suicida que o digam), e aqui interpreta Takeshi Kovacs, dividindo o mesmo personagem com dois outros atores. Na verdade, Kinnaman é a nova “capa”. Originalmente, Kovacs é Will Yun Lee, e Byron Mann na fase mais velha. O asiático é um sobrevivente dos abusos do pai ainda na infância. O menino é forçado a matar o pai abusivo, que havia assassinado a mãe, e a fugir com a irmã mais nova. Na fase adulta, já trabalhando com a polícia, ele reencontra Reileen, a irmã, trabalhando com os rebeldes. Os dois se veem em lados opostos da lei, mas o elo de sangue fala mais alto, e logo a dupla está trabalhando junta novamente.

Altered Carbon aposta num roteiro intrincado, ao mesmo tempo dando espaço para o desenvolvimento dos personagens, de uma forma que não vemos muito atualmente. Fora isso, o visual é incrível e o futuro detalhado. Dá para perceber a cada cenário, a cada vislumbre amplo da fotografia na composição da cidade, a cada efeito especial que enche os olhos – mesmo para uma série – que esta foi uma produção caríssima, talvez um dos orçamentos mais largos da empresa até o momento. E igualmente uma aposta bem arriscada, coisa que a Netflix está cansada de fazer para sair do lugar comum e entregar ao público obras fora da caixinha. É louvável, e Altered Carbon já nasce cult. O problema é que produções assim raramente se tornam fenômenos, aceitos por todos.

No terceiro ato da série é quando a coisa pega fogo verdadeiramente. E aí somos apresentados a Reileen na fase adulta, a irmã do protagonista, interpretada pela belíssima e exótica Dichen Lachman. Esta lembrança dolorida do passado do herói retorna e possui um grande significado para todo o mistério em torno da trama principal. Lachman possui grande presença de cena e dá novo gás à série em sua reta final, ligando todos os pontos deixados soltos.

Altered Carbon capricha na violência, com muito sangue, mortes terríveis, chacinas, desmembramentos, e continua a aumentar a censura com níveis intensos de sexualidade. O programa esquenta a temperatura com cenas ardentes entre o protagonista e a pequena Martha Higareda, que vive a policial Ortega (o corpo que o protagonista “veste” agora, de Kinnaman, é o do parceiro da agente, morto em serviço), com a dondoca Miriam (Kristin Lehman), e trata de confeccionar a cena de luta mais sensual entre duas mulheres da história, com Lachman nua em pelo se digladiando com Higareda.

Mesmo com todos os atrativos e a qualidade técnica tão minuciosa, vista poucas vezes nas telinhas, Altered Carbon utiliza momentos que poderiam ser aparados sem prejudicar o todo. O defeito talvez não seja tanto do programa e sim do formato. Em dez episódios, difícil é achar uma série que não encha o tempo com trechos dispensáveis. Elas até existem e para isso a solução tem sido programas menores. Ou seja, os desvios por estradas secundárias talvez não levem a nada aqui, mas não deixam de ser encantadores de se  embrenhar sem destino.

Os 40 anos de ‘Grizzly 2’ – Conheça o filme de TERROR com George Clooney e Laura Dern que demorou 37 anos para estrear!

Laura Dern e George Clooney são dois astros veteranos donos de grande prestígio em Hollywood na atualidade. Dern, filha de atores de sucesso (Bruce Dern e Diane Ladd), começou bem novinha na carreira e já soma quase 50 anos de estrada como atriz, dona de 90 créditos no currículo. Mais bela do que nunca na maturidade, a estrela soma sucessos como a franquia Jurassic Park na filmografia, tem 3 indicações ao Oscar e a justiça feita com a vitória por História de um Casamento. Clooney, filho de um famoso jornalista e âncora de telejornal, tem 43 anos de carreira, 94 créditos profissionais como ator, viu seu currículo decolar com a participação na série de sucesso Plantão Médico (E.R.), se tornou diretor de mão cheia e tem 8 indicações ao Oscar (somando as capacidades como ator, roteiro, direção e produtor) – com duas estatuetas vencidas (ator coadjuvante por Syriana e produtor em Argo).

Voltando para 1983, ambos eram ilustríssimos desconhecidos para o grande público. Foi quando – Clooney aos 22 anos e Dern aos 16 aninhos -, ao lado de Charlie Sheen (18 anos), participaram do terror Grizzly II, anteriormente subtitulado The Concert. O filme sobre um urso gigante e assassino ficou engavetado por assombrosos 37 anos, criando uma aura de lenda urbana ao redor dele, com os fãs de produções cult se perguntando se ele realmente existia. Uma cópia bruta do longa “vazou” na internet em 2007, o que gerou comoção. Agora, qual não deve ter sido a surpresa dos astros estabelecidos ao verem finalmente lançada após quase 40 anos esta produção B que provavelmente já haviam esquecido de ter feito.

Laura Dern e George Clooney também já fizeram parte do clichê dos filmes de terror (sexo = morte).

Antes de falar sobre este problema em forma de filme, um pouco de contexto. Com o lançamento de Tubarão (1975), que veio a se tornar um fenômeno e o primeiro blockbuster da história, produtores de todos os cantos viram o potencial de filmes de terror/suspense com o tema de animais assassinos, criando assim uma tendência na época. Em pouco tempo surgiam filmes como Orca – A Baleia Assassina (1977), Piranha (1978), Barracuda (1978) e Alligator (1980). Mas o subgênero não se ateve a criaturas marinhas, e logo realizadores fizeram surgir itens como Grizzly – A Fera Assassina (1976), sobre um urso pardo de mais de 5 metros de altura aterrorizando um parque estadual. Fazendo sucesso como obra cult, a produtora Suzanne C. Nagy resolveu espremer uma continuação da história, sem saber que passaria por uma verdadeira epopeia que custaria metade de sua vida.

Carlos Estevez, vulgo Charlie Sheen, e sua notória cara de “bobo” na juventude.

Para a sequência, Nagy escalou o mesmo roteirista do original, David Sheldon, que com o boom dos filmes de terror adolescente que dominavam os cinemas na década de 80, resolveu criar um filme mais jovem, onde o urso desta vez aterrorizaria num concerto de rock num parque. O ano era 1983. Em papeis secundários foram escalados os hoje três astros citados. É reportado inclusive que Charlie Sheen teria recusado o papel protagonista em Karatê Kid – A Hora da Verdade (1984) para estrelar esta continuação. Além do trio, fazem parte do elenco a veterana Louise Fletcher (que já tinha um Oscar no currículo por Um Estranho no Ninho), John Rhys-Davies (que ficaria conhecido pelas franquias Indiana Jones e O Senhor dos Anéis), a gracinha Deborah Foreman (atriz que marcou os anos 80 com filmes como Valley Girl – Sonhos Rebeldes, Academia de Gênios e A Noite das Brincadeiras Mortais) e Timothy Spall numa ponta não creditada.

Louise Fletcher, vencedora do Oscar por ‘Um Estranho no Ninho’, é quem paga o maior mico da produção.

Na direção, quem assumia era o húngaro André Szöts (produtor de Cyrano, 1990), falecido em 2006. O drama da produção começou assim que os atores chegaram à Budapeste, Hungria, para o início das filmagens. Foi quando o produtor Joe Proctor avisou para Suzanne Nagy que não havia dinheiro para rodar o longa, e simplesmente foi embora deixando 300 pessoas no set de filmagem. Demonstrando enorme força, Nagy não contou o tremendo problema para ninguém, e buscou desesperadamente novos investidores. Terminou encontrando um empresário do Japão para preencher o orçamento e dar continuidade ao filme, ao menos de forma momentânea.

Deborah Foreman foi um dos nomes dos anos 80 (com os filmes A Noite das Brincadeiras Mortais, Valley Girl e Academia de Gênios).

Apesar disso, o problema não havia terminado. O governo húngaro confiscou o equipamento da equipe devido ao não pagamento das contas pelo uso das locações. Dessa forma a pós-produção nunca chegou a ser finalizada. Em 1987, a rainha da picaretagem, a Cannon Films (não seria uma boa história sem o envolvimento dela) comprou o filme e planejava completar a pós-produção e lançar o longa nos cinemas (afinal o estilo da obra tem tudo a ver com eles). Infelizmente, já mal das pernas, a companhia estava se encaminhando para a falência em 1988 e, sem dinheiro, o filme foi engavetado e esquecido.

Após “singelos” 37 anos, em 2020 a produtora Suzanne Nagy finalmente anunciou a finalização de Grizzly II, agora subtitulado Revenge (ou Predator como diz o cartaz). Talvez aproveitando a vitória de Laura Dern no Oscar, ou quem sabe a primeira parceria entre Clooney e a Netflix com O Céu da Meia Noite, Grizzly II ganhou seu trailer e estreou em Los Angeles em fevereiro de 2020 antes da pandemia. Passando pelo festival internacional de terror de Lisboa, em Portugal, o filme finalmente foi lançado online em VOD nos EUA em janeiro de 2021, e no dia 17 de fevereiro de 2021, em meio à pandemia, chegou a poucas salas abertas pelos EUA. Imagine a felicidade de Clooney, Dern e os atores envolvidos. Ou quem sabe eles tenham simplesmente entrado na brincadeira, já que ao menos Clooney é conhecido por tirar sarro de suas participações, digamos, menos memoráveis nas telas.

Crítica | Em Busca de Sheela – Culpada ou inocente?

Uma figura polêmica da história contemporânea indiana. Um Guru. Uma Seita? Culpada ou inocente? Dirigido pelo indiano Shakun Batra, o média-metragem, de pouco menos de uma hora de duração, Em Busca de Sheela traz à luz mais pontos de vistas sobre a história de Ma Anand Sheela ex-porta-voz do movimento Rajneesh (também conhecido como Osho) que fora acusada pelo governo norte-americano de alguns crimes no período que esteve com esse movimento em uma cidade por lá. Tentando decifrar diversos enigmas sobre essa personalidade complicada de se ler, o filme navega pelo faro investigativo mas sem deixar qualquer conclusão evidente.

O filme tem sua trajetória marcada no recorte do retorno de Ma Anand Sheela, agora com 70 anos, à Índia, terra que nasceu. Agora é uma espécie de celebridade local, amada por muitos e odiadas por outros, inclusive a questão da segurança é várias vezes debatidas no enredo da história. Sem deixar de traçar paralelos com o passado complicado de entender da protagonista e na atualidade sua chegada para uma série de entrevistas com jornalistas indianos de prestígio, o projeto busca levantar argumentos, pontos de vistas de muitos sobre essa figura polêmica, controversa que se refugiou na Suíça no início da década de 90 logo após sair da prisão nos Estados Unidos.

Em busca de uma certa cronologia da percepção, Batra atravessa os campos de reflexão focando mais no embate entre a mídia e Ma Anand Sheela, um duelo entre o sensacionalismo e a figura indecifrável, paralelos que caminham durante toda essa jornada. Ma Anand Sheela em julho de 1983 fora condenada nos Estados Unidos a cumprir vários anos de prisão acusada de envenenamento, escuta ilegal e agressão. Ela rebate a todo instante as acusações. Mas qual a verdade? Tente tirar suas próprias conclusões. Disponível na Netflix.

Entre SÉRIES, REALITY SHOWS E FILMES: 10 plays que valem o clique!

Vivemos em uma época onde as possibilidades de assistir a um conteúdo audiovisual de qualidade estão ao alcance de um simples clique. Espalhados pelos streamings disponíveis no Brasil, séries, reality shows e filmes não faltam, fazendo com que estejamos sempre atentos a boas dicas. Para você que está à procura do que assistir, segue abaixo um monte de opções interessantes e bem variadas:

 

Sonhos de Trem (Netflix)

Nesse belíssimo filme, acompanhamos a trajetória de vida de um humilde lenhador marcada por acontecimentos impactantes, entre a felicidade e as perdas.

 

Na Mira do Júri (Prime Video)

Abordando muitos detalhes de um julgamento – onde todos são atores exceto um dos jurados -, acompanhamos uma ideia inusitada, que mistura reality show e pegadinha, se tornando um dos projetos mais criativos do universo dos streamings em 2023.

 

De Férias com Você (Netflix)

Dois amigos de longa data, que se encontram anualmente para férias em lugares que nunca visitaram, começam a se questionar sobre a relação que vivem.

 

The Traitors (Universal+)

Disponível no streaming Universal+ – um daqueles que tem dentro das parcerias do Prime Video – o intrigante The Traitors nos leva para uma instigante caça às mentiras, quase um jogo de tabuleiro, ao melhor estilo ‘Detetive’, da vida real. Tem de tudo! Traições, assassinatos de mentirinha, lavagem de roupa suja, reviravoltas inacreditáveis, discussões, dilemas, jogando numa linha tênue o espírito competitivo – de entender por completo que é um jogo – e as emoções ligadas às questões morais que pulsam em emoções intensas.

 

Uma Vida de Esperança (Prime Video)

Ed (Alan Ritchson) é um pai e marido amado. Quando a esposa parte precocemente, o tempo passa e uma de suas filhas é diagnosticada com uma doença que exige um transplante urgente. Com as conta hospitalares e custos diários aumentando, entra em sua vida Sharon (Hilary Swank), uma cabelereira com marcas no passado e por seus problemas com o alcoolismo. Sensibilizada pela situação da família de Ed, Sharon vai atrás de soluções, se tornado peça-chave de alguns milagres.

 

Beast Games (Prime Video)

Baseado em um vídeo viral e também na série de ficção Round 6, chegou ano passado na Prime Video um reality show empolgante que leva competidores vindos de todos os lugares dos Estados Unidos na busca por um prêmio milionário. Mas a tarefa não é nada fácil! Provas em grupo, elos e confianças sendo quebrados, sorte, inteligência emocional são algumas das variáveis que encontramos em Beast Games. A segunda temporada já começou a chegar, nesse início de 2026.

 

The Circle (Netfix)

Um fenômeno global que ganhou segmentos em muitos país, o reality show The Circle coloca jogadores e suas estratégias para criar alianças e usar (ou não) perfis falsos, se apoiando em ações totalmente virtuais, para chegar ao prêmio.

 

All Her Fault (Prime Video)

Marissa (Sarah Snook) é uma empresária bem-sucedida que leva uma vida confortável ao lado do marido, o investidor Peter (Jake Lacy), na cidade de Chicago. No entanto, toda a aparente perfeição e sucesso da família é colocado em xeque quando o filho do casal é sequestrado por uma mulher misteriosa. A partir desse ponto, pessoas próximas ao casal passam a se tornar suspeitas, nos guiando para desenrolares bombásticos que afetam a vida de todos os personagens.

 

Entourage (HBO MAX)

Ao longo de oito temporadas, conhecemos Vince, um jovem ator que se torna um badalado artista em Hollywood. Vivendo fases de altos e baixos na carreira, está sempre cercado dos amigos de infância e do indecifrável Ari Gold (seu agente).

 

Uma Boa Pessoa (Prime Video)

Allison (Florence Pugh) é uma mulher de 26 anos que está em um momento muito feliz, prestes a se casar com o grande amor de sua vida. Só que um dia, uma tragédia acontece. Tentando seguir em frente, meses após o ocorrido, seu destino novamente se cruza com o do seu ex-sogro, Daniel (Morgan Freeman), um ex-policial e também ex-alcoólatra. Ambos vão buscar curar feridas do passado.

Os 20 Filmes mais “Girl Power” de 2018

Estas são as grandes produções mais Girl Power do ano. Anote e aguarde.

1 | Oito Mulheres e um Segredo

Se os homens podem, porque as mulheres não? A subversão do masculino está em pauta em Hollywood. Primeiro foram Os Caça-Fantasmas, que em 2016 ganharam uma roupagem totalmente protagonizada por mulheres. Agora, é a vez da franquia Onze Homens e um Segredo (2001), que ganhou duas sequências (2004 e 2007), e por sua vez já era refilmagem de um clássico homônimo de 1960. Este não é um reboot, no entanto, mas uma continuação.

Aqui é a estrela Sandra Bullock quem comanda o show e um timaço de mulheres, na pele da irmã do personagem de George Clooney – grande amigo seu na vida real. Veja só este elenco e diga se não é um dos melhores do ano: Cate Blanchett, Anne Hathaway, Sarah Paulson, Rihanna, Helena Bonham Carter, Dakota Fanning, Olivia Munn, Mindy Kaling e Katie Holmes. A trama seguirá de perto o molde dos anteriores, e mostrará Bullock reunindo sua equipe para um grande roubo. Matt Damon fará uma participação na pele de Linus Caldwell.

Estreia: 8 de junho nos EUA.

2 | Operação Red Sparrow

Que a musa Jennifer Lawrence é uma das estrelas mais empoderadas de Hollywood todo mundo sabe. E isso com seus 27 aninhos. Desde que apareceu nos radares em 2010 com Inverno da Alma, a atriz mostra a que veio, e não por acaso, saía daquele ano com sua primeira indicação ao Oscar, e o resto é história. Lawrence é uma das profissionais mais bem pagas do ramo, e mescla muito bem prestígio e boas bilheterias. Aqui é justamente seu nome que impulsiona esta trama de espionagem, na qual interpreta uma agente russa treinada desde cedo. A direção é de Francis Lawrence, que não é seu parente, mas a catapultou ao estrelato na franquia Jogos Vorazes.

Estreia: 1º de março.

3 | Tomb Raider: A Origem

Tudo bem, este filme nos traz dúvidas e pode ser um flop. Mas o fato é que Lara Croft se tornou uma personagem feminina tão marcante que transcendeu os games e virou fenômeno pop – além da musa de adolescentes e adultos babões. No cinema ela já teve as formas de Angelina Jolie, uma das maiores estrelas da atualidade. E agora chega nas formas mais mignon de outra estrela vencedora do Oscar, a sueca Alicia Vikander. Se a atriz vai funcionar como a personagem ninguém sabe, mas as primeiras imagens deixam bem claras as semelhanças com a nova versão de Croft nos jogos. Vikander é talentosa, tem no currículo filmes como Ex-Machina (2015), e merce que o filme dê certo.

Estreia: 15 de março.

4 | X-Men: Fênix Negra

Os X-Men sempre foram um grupo de heróis cujos membros mulheres são alguns dos personagens mais poderosos e de grande destaque, vide Tempestade, Jean Grey e Vampira – só para citar as principais. No cinema, infelizmente, nenhuma delas ganhou a devida importância e ficamos sempre com Wolverine, Xavier e Magneto (nos novos filmes). A única mulher que conseguiu destaque foi a mulher errada, a vilã Mística transformada em heroína, e porque era Jennifer Lawrence. Bom, mais uma vez a Fox tentará fazer certo, e esperamos sinceramente que desta vez consigam – nunca perdemos a esperança. Tudo porque na segunda adaptação do arco da Fênix Negra (a primeira foi e A Batalha Final, de 2006), a personagem Jean Grey será novamente interpretada por Sophie Turner, sensação em Game of Thrones, que garante um filme de personagens femininas em destaque. Além dela, teremos uma das maiores estrelas da atualidade, Jessica Chastain, no papel de uma vilã que ainda não foi revelada. Ah sim, precisamos levar a Mística de J-Law de brinde mais uma vez.

Estreia: 2 de novembro nos EUA.

5 | Lady Bird – A Hora de Voar

Com este filme a jovem Saoirse Ronan pode conquistar sua terceira indicação ao Oscar (já quase certa). Aqui é empoderamento feminino dentro e fora das telas, para contar a história semi biográfica de uma adolescente sonhando em voar e se libertar da vida ordinária ao lado da mãe. Fora das telas, temos a estreia da atriz Greta Gerwig na direção, que igualmente pode sair com uma nomeação ao Oscar.

Estreia: 15 de fevereiro.

6 | A Garota na Teia de Aranha

Já tivemos muitas personagens femininas empoderadas na lista. Espiãs, mutantes superpoderosas, aventureiras exploradoras, ladras de luxo e até mesmo uma adolescente teimosa, mas nenhuma delas é igual a Lisbeth Salander, uma das melhores personagens femininas já postas em tela – saída de uma série literária de sucesso. A personagem é quase uma James Bond feminina (e quem precisa de 007 quando temos Lisbeth), no sentido de que troca de intérprete quase a cada filme. Depois de Noomi Rapace e Rooney Mara, agora é a vez de Claire Foy (The Crown) dar vida à badass hacker antissocial de estilo único mais amada da sétima arte. Esta é a adaptação do quarto livro da série, nunca levado ao cinema antes.

Estreia: 19 de outubro nos EUA.

7 | A Volta de Mary Poppins

Um dos filmes mais aguardados dos últimos anos é esta continuação do musical clássico da Disney, protagonizado por Julie Andrews. A babá mágica está de volta, e seu guarda-chuva voador também, 54 anos depois de sua primeira aparição. No entanto, está um pouco mudada, agora nas formas de Emily Blunt. A verdade é que nós brasileiros teremos que esperar um pouco mais, pois o filme só estreia mesmo por aqui no início de 2019, no dia 3 de janeiro. A não ser que role alguma pré-estreia. Os sortudos que estiverem fora do país, como nos EUA, poderão conferi-lo a partir de dezembro. Quem dirige é Rob Marshall, de Chicago (2002), e no elenco temos Meryl Streep e Angela Lansbury – precisa dizer mais?

Estreia: EUA -25 de dezembro / Brasil – 3 de janeiro.

8 | Eu, Tonya

A musa Margot Robbie (que tem a mesma idade da menina Jennifer Lawrence) já foi a Arlequina, uma forte personagem feminina. Bem, amigos, estou aqui para dizer para vocês que Arlequina é pinto perto do que Robbie alcança na pele da patinadora controversa Tonya Harding. Além do filme ser incrível, a personagem é um presentão para qualquer atriz e Robbie tira de letra, mostrando pela primeira vez em sua carreira que não é apenas um rostinho bonito (eu diria lindo). Que venham todas as indicações possíveis e imagináveis, pois queremos ver Robbie no Oscar!

Estreia: 15 de fevereiro.

9 | A Grande Jogada

Jessica Chastain já apareceu nesta lista, mas para uma musa do porte dela, uma vez é pouco. No item 4 da lista, Chastain será a vilã platinada dos heróis de quadrinhos, em X-Men: Fênix Negra. Mas aqui ela é a protagonista, e assim como Margot Robbie acima, interpreta uma personalidade real, a contraventora Molly Bloom. De fato, Bloom e Tonya Harding têm muito em comum, já que ambas participaram de esportes no gelo – Bloom era esquiadora olímpica – e aderiram ao crime. A poderosa personagem de Chastain se torna rainha do submundo da jogatina ilegal de Los Angeles e passa a ser conhecida como A Princesa do Poker.  Chastain foi indicada no Globo de Ouro e pode figurar no Oscar também. O filme marca a estreia do roteirista sensação Aaron Sorkin na direção.

Estreia: 22 de fevereiro.

[adiado] 10 | X-Men: Novos Mutantes

Nota: Quando escrevemos a lista, Os Novos Mutantes ainda não havia sido adiado – agora sua estreia está programada para o início de 2019.

Outro filme dos X-Men na lista? Sim. A Fox abriu os olhos para a possibilidade de filmes de censura alta dentro de seu universo de herói dos mutantes, com Deadpool e Logan. Novos Mutantes será uma novidade também, já que se trata do primeiro filme do gênero a misturar em sua narrativa elementos fortes de terror. Fora isso, o que a Fox promete para 2018 são filmes guiados por presenças femininas marcantes. Fênix Negra traz a saga trágica de Jean Grey (Sophie Turner), transformada em genocida devido à possessão de uma entidade; e Novos Mutantes apresenta cinco jovens, dos quais se destacam as mulheres, em especial a personagem de Anya Taylor-Joy. Além disso teremos a nossa Alice Braga no papel de uma médica pra lá de suspeita. Ah, e por falar em Deadpool, o segundo, que também será lançado este ano, trará uma favorita dos fãs, a mutante Dominó (Zazie Beetz).

Estreia: 12 de abril /  22 de fevereiro de 2019 nos EUA.

11 | Alita: Anjo de Combate

Tudo bem que a Alita do título é uma robô. Mas mesmo assim, é uma robô mulher. Sim, o futuro nos mostrará que robôs terão sexo – como vimos em Ex-Machina, por exemplo. Baseado num manga de sucesso, Alita tem roteiro e produção de James Cameron, e direção de Robert Rodriguez. A jovem Rosa Salazar é quem dá vida para a criatura artificial, tentando encontrar seu lugar no mundo. Prontos para conhecerem uma das personagens que tem tudo para cravar seu nome em 2018, e quem sabe na história do cinema?

Estreia: 19 de julho.

12 | Três Anúncios para um Crime

Um dos filmes de maior prestígio nesta temporada de prêmios, Três Anúncios para um Crime levou algumas estatuetas importantes no último Globo de Ouro, como melhor atriz para Frances McDormand, coadjuvante para Sam Rockwell, e melhor filme drama. O fato aumenta consideravelmente suas chances de vitória no Oscar, deixando a indicação do filme como uma certeza. Na trama, uma mulher dura e decidida, resolve pressionar a polícia de sua cidadezinha de um jeito incomum, para que procurem com mais afinco o criminoso que estuprou e matou sua filha. Justiça é o que toda mulher pede, ainda mais uma mãe. Frances McDormand sendo esta mãe só aumenta nossa baba em relação ao longa. Quero para ontem!

Estreia: 15 de fevereiro.

13 | Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo

Se Jessica Chastain pode aparecer duas vezes na lista, é claro que Meryl Streep, a mulher mais poderosa de Hollywood, também pode. Aqui, ela reprisa Donna – ou quase isso. Bem, sem querer dar spoiler, quem já viu o trailer percebeu algo no ar. Creio que a personagem de Streep estará morta. Sua filha, por outro lado, está grávida e sem a mãe para ajuda-la neste momento tão difícil. É então que as duas melhores amigas da matriarca (vividas por Christine Baranski e Julie Walters) relembram a juventude de Donna, que precisou encarar a gravide sozinha. Nestes flashbacks, a personagem será interpretada pela gracinha Lily James. Streep, no entanto, está no elenco. Quem aparece também é Cher, no papel de avó da personagem de Amanda Seyfried. Ou seja, é mulher poderosa até não poder mais.

Estreia: 19 de julho.

14 | Aniquilação

Protagonizado por Natalie Portman, atriz vencedora do Oscar por Cisne Negro (2010), e indicada por Closer – Perto Demais (2004) e Jackie (2016), também conhecida como a apresentadora do Globo de Ouro que deixou cineastas do porte de Spielberg, Ridley Scott e Guillermo del Toro desconfortáveis com sua afirmação da presença exclusiva masculina na categoria de diretor. Além disso, Aniquilação é dirigido por Alex Garland, cineasta que depois de sua estreia com Ex-Machina, seria impossível não ficarmos de olho. Ah, quer mais girl power no longa? Então toma, Tessa Thompson, Jennifer Jason Leigh e Gina Rodriguez completam o elenco – que tem Oscar Isaac também. A notícia triste: a Paramount cancelou o lançamento do filme nos cinemas brasileiros, e Aniquilação irá aportar diretamente no mercado de home vídeo. Isso que é banho de água fria.

Estreia: 22 de fevereiro.

15 | On the Basis of Sex

Superproduções com mulheres protagonizando são uma conquista e queremos ver cada vez mais sendo lançadas. Mas também existem os filmes mais sérios que ajudam a causa, e abordam justamente o tema – geralmente em produções voltadas a prêmios. Em 2017 tivemos o lançamento de A Guerra dos Sexos – o filme feminista do ano passado, que trazia Emma Stone (recém-saída da vitória no Oscar) na pele de Billie Jean King, jogadora de tênis profissional que buscava igualdade de salário para as mulheres em relação aos tenistas homens. De quebra, ainda mostrou que uma mulher pode derrotar um homem no jogo. Este ano teremos esta obra, dirigida por Mimi Leder, grande cineasta que andava sumida, e mostra a luta de uma juíza para se tornar a primeira mulher na Suprema Corte dos EUA. Como protagonista temos uma jovem atriz empoderada, que não é estranha a premiações ou a superproduções, Felicity Jones (A Teoria de Tudo, Inferno e Rogue One). Armie Hammer e Kathy Bates completam o elenco.

Estreia: ainda não divulgada.

16 | Máquinas Mortais

Este é mais um item que traz uma mulher como protagonista de uma superprodução, em uma história grandiosa de ficção e aventura. Em 2015, a Furiosa de Charlize Theron já havia roubado o filme do protagonista em Mad Max: Estrada da Fúria. Agora, uma nova mulher ganha seu próprio Mad Max para comandar, elevado à decima potência. Baseado no livro de Philip Reeve, e com roteiro e produção de Peter ‘Senhor dos Anéis’ Jackson, a história apresenta um mundo devastado onde cidades motorizadas sobre rodas (sim, você leu certo) precisam estar sempre se movendo para não serem assimiladas por outras maiores. O trailer é simplesmente insano. Ah sim, quem protagoniza é a novata Hera Hilmar.

Estreia: 13 de dezembro.

17 | A Escolha Perfeita 3

Ano passado quando fizemos uma lista igual a esta, tratamos de incluir esta terceira parte das aventuras musicais das Bellas, nossas cantoras a capela mais amadas do cinema. Mas o que acontece é que o filme foi lançado no final de 2017, em dezembro, e só chega ao Brasil este ano. Desta forma, aqui estão as Bellas novamente, em sua despedida após três filmes. Anna Kendrick, Rebel Wilson, Brittany Snow, Anna Camp e a adicionada Hailee Steinfeld estão de volta. E dessa vez precisarão cantar contra Ruby Rose e seu grupo country, entre outros desafios. Quem dirige Trish Sie, outra cineasta mulher, depois de Elizabeth Banks (que é anunciada para o reboot das Panteras em 2019) no segundo filme.

Estreia: 8 de março.

18 | Maria Madalena

O que pode ser mais empoderado e girl power do que a personagem bíblica Maria Madalena? Descrita como pecadora em trechos da bíblia, por ter vivido uma vida de luxúria, Madalena foi uma das maiores discípulas de Cristo, e por ele perdoada e amada. Tanto que diversos teólogos e suas teorias afirmam que Madalena foi uma apóstola de Jesus, omitida da história, e inclusive casada com o Messias, com quem teve filhos. Seja como for, não deve ser exatamente esta versão que veremos neste novo filme (ou será?), no qual Madalena é interpretada pela talentosíssima Rooney Mara (duas vezes indicada ao Oscar). Esta é a história de Maria Madalena, onde Jesus Cristo, vivido por Joaquin Phoenix, é o coadjuvante. Completando o time principal, Chiwetel Ejiofor vive Pedro. A direção é de Garth Davis, que comandou Mara em Lion: Uma Jornada para Casa.

Estreia: 15 de março.

19 | Proud Mary

Este filme é representatividade em dose dupla, e consegue ainda resgatar o espírito dos filmes blaxploitation da década de 1970, que geralmente traziam personagens femininas empoderadas, descendo o cacete nos homens, vide os filmes protagonizados por Pam Grier. Aqui é Taraji P. Henson (indicada ao Oscar por O Curioso Caso de Benjamin Button) quem comanda o show na pele de Mary, uma assassina de aluguel trabalhando para a máfia em Boston. Tudo muda para a matadora quando seu caminho cruza com o de um menino, após um de seus contratos dar errado. Quem dirige é o iraniano Babak Najafi (Invasão a Londres).

Estreia: 12 de janeiro nos EUA.

20 | Colette

Com estreia marcada para o Festival de Sundance deste ano, a casa do cinema independente nos EUA, esta biografia traz Keira Knightley na pele da icônica personagem título, Sidonie Gabrielle Colette, conhecida como Colette, escritora francesa vivendo no século XIX, que consegue se libertar de um casamento abusivo, emergindo como uma das principais autoras de seu país e candidata ao prêmio Nobel de literatura. Se isso não é empoderamento feminino, não sei o que é. Também vale mencionar que do Festival de Sundance costumam surgir alguns dos candidatos ao Oscar, e nos últimos anos tivemos filmes como Manchester à Beira Mar, Capitão Fantástico, Brooklyn e Indomável Sonhadora.

Estreia: 20 de janeiro nos EUA (festival de Sundance).

Bônus:

Uma Dobra no Tempo

Superprodução de fantasia da Disney, baseado numa série de livros de sucesso, traz um grupo de mulheres bem especiais impulsionando. Primeiro, a autora Madeleine L´Engle, responsável pelos livros adaptados. Segundo, pela roteirista Jennifer Lee, que adapta o texto. Terceiro, pela diretora da obra, Ava DuVernay, cineasta renomada responsável pelo ótimo Selma  – Uma Luta Pela Igualdade (2014). E quarto, pelo elenco fantástico, que traz Oprah Winfrey, a mulher mais poderosa dos EUA, Reese Witherspoon, Mindy Kaling e Gugu Mbatha-Raw. A história mostra três jovens em busca do pai cientista (papel de Chris Pine) desaparecido, recebendo ajuda de três seres peculiares (Winfrey, Witherspoon e Kaling) em sua jornada.

Estreia: 29 de março.

Menções Honrosas:

Bumblebee – protagonista: Hailee Steinfeld.
Halloween – protagonistas: Jamie Lee Curtis, Judy Greer e Andi Matichak.
A Simple Favor – protagonistas: Anna Kendrick e Blake Lively.
O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos – protagonistas: Mackenzie Foy e Keira Knightley.
Ophelia – protagonistas: Daisy Ridley e Naomi Watts. Diretora: Claire McCarthy.
A Maldição da Casa Winchester – protagonista: Helen Mirren e Sarah Snook.
Tully – protagonista: Charlize Theron. Roteirista: Diablo Cody.
Suspiria – protagonistas: Chlöe Grace Moretz, Dakota Johnson e Tilda Swinton.
Lizzie – protagonista: Kristen Stewart.
The Women of Marwen – protagonistas: Diane Kruger, Gwendoline Christie, Janelle Monáe, Leslie Mann e Eiza Gonzáles. Roteiro: Caroline Thompson.

Cannon Films | Relembre o estúdio mais “picareta” de Hollywood – que foi um ícone dos anos 80

Somos a Cannon Films e nossos filmes explodem como dinamite”. Esse era o slogan da saudosa Cannon Films, produtora e distribuidora de Hollywood que marcou a década de 1980 com filmes de ação, terror, suspense, drama e pseudo-blockbusters. Considerado também um dos estúdios mais “picaretas” que já passaram pela maior indústria de cinema do mundo, a Cannon Films fez a alegria de toda uma geração com seus títulos de relativo baixo orçamento, mas que ofereciam tudo o que, principalmente os meninos e homens, gostavam de consumir nas telonas e telinhas. Quem cresceu na época certamente lembra do logo da empresa.

Como dito, a Cannon Films era um estúdio novo, e chegava em cena com muita ambição – prometendo tudo, mas entregando só o que estava dentro de seu orçamento. De filmes de dança, musicais, passando pela febre dos ninjas nos anos 80, a Cannon também teve seus “meninos de ouro” nas formas de Charles Bronson e Chuck Norris, além de bancar a carreira de Jean-Claude Van Damme; e até flertar com Sylvester Stallone (um dos maiores astros da década de 80) em duas produções. A passagem da Cannon foi meteórica e foi puro suco dos anos 80, já que esta foi a melhor fase do estúdio. Assim como os anos 80, a Cannon Films ficaria presa no período, em com o fim de tal década encerraria suas atividades, pedindo falência.

Sempre que víamos o símbolo do C e da seta se juntando era sinal de que ao menos a diversão estava garantida.

A Cannon Films surgiu ainda em 1967, quando a companhia foi fundada por Chris Dewey e Dennis Friedland. A dupla de jovens estava com vinte e poucos anos quando a empresa foi inaugurada, e produzia apenas versões americanas de soft porn (os chamados filmes eróticos) suecos. Ou seja, era uma produtora de segundo escalão. Mas com a chegada dos anos 1970, Dewey e Friedland começaram a alçar voos maiores e decidiram investir em filmes legítimos. Foi quando realizaram seu maior sucesso, ‘Joe – Das Drogas à Morte’ (1970), filme polêmico no qual Peter Boyle interpreta um justiceiro, que contou com a presença de uma jovem Susan Sarandon e direção de John G. Alvidsen antes de ‘Rocky’ e ‘Karatê Kid’. O filme foi indicado ao Oscar de melhor roteiro.

O segredo da Cannon sempre foi investir com sabedoria em seus filmes, e cortar todos os gastos que podiam. Com ‘Joe’, Dewey e Friedland descobriram que deveriam investir apenas US$300 mil em cada filme, e seguiram à risca essa regra. No entanto, com o passar dos anos 1970, uma série de fracassos se amontoaram para a Cannon, somando seus prejuízos e fazendo suas ações no mercado caírem vertiginosamente. Era a hora de fechar as portas pela primeira vez, com Dewey e Friedland dizendo adeus à companhia. Entram em cena os rostos mais conhecidos da Cannon Films, os primos israelenses Menahem Golan e Yoram Globus, empresários que compraram a companhia dos antigos donos por US$500 mil. E assim começava uma nova era para a Cannon Films, a era dos anos 80, na qual o estúdio ficaria para sempre imortalizado no coração dos fãs.

Donos da P%$#a Toda! Os primos israelenses Menahem Golan (à direita) e Yoram Globus (à esquerda) dominaram os anos 80 com a Cannon Films.

Esse grande afeto que a geração dos anos 80 possui pela Cannon Films se deve muito pelo que Golan e Globus fizeram durante sua administração. Em partes, deram continuidade à filosofia dos proprietários anteriores, ou seja, gastar pouco para faturar muito. Assim, a dupla começou a comprar roteiros do tipo B e a transformar lama em ouro. Ou ao menos em prata. Durante a década de 80, a Cannon se especializaria em cinema de gênero, em especial filmes de ação.

O grande segredo da Cannon, todos afirmavam, era a mistura de talentos da dupla. Enquanto Globus era o lado prático e tinha um excelente tino para os negócios, sendo um vendedor talentoso; Golan era o showman, dono de uma lábia invejável, se tornando famoso por seu jeito espalhafatoso na hora de anunciar seus projetos, os promovendo de maneira que nem sempre (ou quase nunca) igualavam a realidade. Ou em alguns casos, sequer saíam do papel.

Desejo de Matar 2’ foi o primeiro grande sucesso da Cannon na era Golan-Globus e transformou Charles Bronson no primeiro “garoto propaganda” do estúdio.

O primeiro grande sucesso da Cannon na era Golan-Globus foi a sequência de um thriller de ação famoso, a qual os primos transformaram numa franquia. A dupla comprou os direitos de ‘Desejo de Matar’ (1974), e achavam que a sede de sangue de Paul Kersey ainda não havia acabado. Assim, tiravam uma continuação do papel em 1982, trazendo de volta o próprio Charles Bronson para o papel. O longa se mostrou um sucesso, já que com orçamento de US$8 milhões, obteve uma bilheteria de US$40 milhões. Assim, era dada a largada para a nova era da Cannon. E sem perder tempo, os primos ainda trariam Bronson no papel mais outras duas vezes, em ‘Desejo de Matar 3’ (1985) e ‘Desejo de Matar 4’ (1987).

Leia também: Conheça a Franquia Desejo de Matar – Um dos primeiros e mais famosos justiceiros do cinema

Aliás, Charles Bronson se tornaria um dos astros da Cannon Films, protagonizando nada menos do que 8 filmes com o estúdio: ‘Dez Minutos para Morrer’ (1983), ‘O Vingador’ (1986), ‘Assassinato nos Estados Unidos’ (1987), ‘Mensageiro da Morte’ (1988) e ‘Kinjite – Desejos Proibidos’ (1989).

Já imaginou como seria um filme de artes marciais misturado com ‘O Exorcista’ e ‘Flashdance’? A Cannon Films sim! Rendendo um dos filmes mais loucos dos anos 80!

Além da parceria garantida com Bronson durante seus tempos áureos, a Cannon Films foi responsável por introduzir a febre dos ninjas que tomou os EUA e o mundo de assalto nos anos 80. Sim, os guerreiros japoneses mascarados e silenciosos dominaram a década, fosse em desenhos animados, videogames, brinquedos, quadrinhos, os ninjas estavam em todo lugar. A Cannon pode se gabar por ter sido uma das responsáveis, já que logo em 1981 tirava da cartola ‘Ninja – A Máquina Assassina’ com o italiano Franco Nero protagonizando. O sucesso de tal filme o transformou numa trilogia para a Cannon, seguindo com ‘A Vingança do Ninja’ (1983) e a conclusão muito louca ‘Ninja 3 – A Dominação’ (1984), que mistura filmes de luta e ‘Flashdance‘ com terror a la ‘O Exorcista’.

A febre dos ninjas na cultura pop que o estúdio ajudou a fomentar ainda seria lucrativa para a Cannon em outra franquia: ‘American Ninja’, que no Brasil ficou conhecido como ‘Guerreiro Americano’. O filme apresentava o “dublê” de ator e lutador Michael Dudikoff em 1985, como Joe, um militar americano treinado por um mestre japonês na arte marcial dos ninja – conhecimento que ele usa para impedir planos terroristas. Não existe sequer um homem que foi garoto nos anos 80 e não lembre de tais filmes. O longa original custou US$1 milhão e rendeu US$10.5 milhões. Tamanho sucesso faria qualquer estúdio investir mais grana na sequência, certo? Não a Cannon, que resolvia investir menos ainda (afinal, já tinham um sucesso em mãos e isso bastava para atrair o público). Assim, o segundo ‘Guerreiro Americano’ contou com orçamento de US$350 mil e arrecadou mais de onze vezes seu valor.

Um clássico das exibições da Globo (que quase gastou a fita com tantas reprises), ‘Guerreiro Americano’ foi um dos baluartes dos anos 80.

Michael Dudikoff também seria um dos “meninos de ouro” da Cannon e nos anos 80 protagonizaria cinco filmes do estúdio. Além dos dois ‘Guerreiro Americano’, também ‘A Vingança de um Predador’ (1986), ‘A Guerra Cruel’ (1988) e ‘O Rio da Morte’ (1989).

Além, de Bronson e Dudikoff, outra lenda da ação e dos anos 80 também viraria “garoto propaganda” da Cannon na época. É claro que falamos do ícone Chuck Norris! Tudo começou, é claro, com ‘Braddock – O Super Comando’ em 1984. Mas a estreia de Norris na Cannon viria envolta em certa polêmica. Acontece que o roteiro do filme foi muito comparado ao de ‘Rambo 2 – A Missão’ (1985). O longa de Stallone foi um fenômeno, e deu início à chamada ‘Rambo-mania’. Acontece que o roteiro escrito por ninguém menos que James Cameron para ‘Rambo 2’ já circulava por Hollywood desde 1983. Assim, ficou provado por um mais um que os picaretas da Cannon “copiaram, mas não fizeram diferente” e correram para lançar seu filme antes.

O brabo Chuck Norris estreava na Cannon com ‘Braddock’, com roteiro copiado de ‘Rambo 2’ na maior cara de pau e tudo!

A cópia de ‘Rambo’ não passaria em branco, com todo mundo percebendo o “plágio”. Assim, além de admitirem a “inspiração”, ainda resolveram dar crédito para James Cameron. Chuck Norris ainda retornaria como Braddock em duas sequências, em 1985 e 1988, fazendo desta uma das franquias mais bem-sucedidas da Cannon. Além destes, o ator / lutador ainda estrelaria outros quatro “blockbusters” de ação para o estúdio nos anos 80: ‘Invasão U.S.A.’ (1985), ‘Comando Delta’ (1986), ‘Os Aventureiros de Fogo’ (1986) e ‘O Herói e o Terror’ (1988).

Outras franquias de relativo sucesso do estúdio incluem a cópia de Indiana Jones utilizando o personagem Allan Quatermain em ‘As Minas do Rei Salomão’ (1985) e ‘A Cidade do Ouro Perdido’ (1986) – com Richard Chamberlain e Sharon Stone -, ‘Hércules’ (1983) e ‘As Aventuras de Hércules’ (1985) – com Lou ‘Incrível Hulk’ Ferrigno -, e os filmes de dança ‘Brekin’’ e ‘Breakin’ 2 – Electric Boogaloo’, ambos lançados em 1984. Aliás, esse segundo filme dá título ao maravilhoso documentário sobre a Cannon Films que todos os fãs precisam assistir: ‘Electric Boogaloo – The Wild, Untold Story of Cannon Films’, de 2014. No mesmo ano sairia ainda outro documentário sobre o estúdio, igualmente imprescindível para compreender o que foi o fenômeno Cannon – ‘The Go-Go Boys – The Inside Story of Cannon Films’.

‘Electric Boogaloo’ é um documentário essencial para todos os fãs de cinema e dos anos 80!

A especialidade da Cannon eram os filmes de ação no estilo “tiro, porrada e bomba”, mas o estúdio mirava também em outros gêneros em sua dominação mundial, como o terror. Assim, apostava alto e assinava contrato com Tobe Hooper, diretor de ‘O Massacre da Serra Elétrica’ (1974), que acabara de sair do sucesso ‘Poltergeist – O Fenômeno’ (1982). No acordo, Hooper faria três filmes com a Cannon, o primeiro deles sendo uma ficção científica espacial que deveria ser o evento cinematográfico de 1985 – com ‘Força Sinistra’. Logo no ano seguinte, o diretor continuava com o remake de ‘Invasores de Marte’ e finalizava com a sequência ‘O Massacre da Serra Elétrica 2’ (1986) – que Hooper tratou quase como paródia do filme original. Nenhum destes filmes se tornou sucesso, desapontando os primos israelenses.

Mas a Cannon também tinha seu lado sofisticado e de prestígio. Por exemplo, na década de 1980, o estúdio batia ponto todo ano no Festival de Cannes, onde arrumava investidores de seus projetos graças ao poder de venda que Globus possuía. Em seu acervo, o estúdio também produzia filmes elogiados pela crítica, e até obras que rendiam indicações ao Oscar – acredite. Esse foi o caso com ‘Expresso para o Inferno’ (1985), indicado a melhor ator (Jon Voight), coadjuvante (Eric Roberts) e edição; ‘Malandros de Rua’ (1987), indicado a melhor coadjuvante (Morgan Freeman); e ‘Um Grito no Escuro’ (1988), indicado para melhor atriz (Meryl Streep) – coproduzido com a Warner. No mesmo ano deste último, ‘Barfly – Condenados pelo Vício’ também rendeu elogios ao estúdio. A Cannon ainda produziria obras de John Cassavetes (‘Amantes’), Franco Zeffirelli (‘Otello’), Roman Polanski (‘Piratas’) e Jean-Luc Godard (‘Rei Lear’).

Expresso para o Inferno’ é constantemente considerado o melhor filme da Cannon – e obteve 3 indicações ao Oscar.

Nos anos 80, a Cannon Films parecia dominar o mundo, fechando inclusive parcerias com grandes estúdios como a Warner, a MGM e até estúdios na Europa. Golan e Globus sem dúvida eram ambiciosos. Foi nesta época que eles decidiram captar um dos maiores astros de Hollywood e bancar dois projetos com ele. Sylvester Stallone também brincaria na caixinha de areia da Cannon em filmes como ‘Cobra’ (1986) e ‘Falcão – O Campeão dos Campeões’ (1987). Aliás, ‘Cobra’, com coprodução da Warner, se tornou o maior sucesso da Cannon, arrecadando US$160 milhões. Mas o investimento em tais filmes também era pesado, já que ter Stallone em suas produções custava caro.

O declínio para o estúdio começaria na segunda metade dos anos 80. Foi quando a Cannon dava um grande passo, bem maior do que suas pernas suportariam. O epicentro da falência da companhia foi o ano de 1987 – quando a Cannon anunciou três grandes “blockbusters”, apostando todas as suas fichas no sucesso deles. Primeiro, como citado, investia mundos e fundos para ter Stallone em ‘Falcão’. Segundo o próprio intérprete de Rocky e Rambo, o motivo que o levou a fazer o filme foi que Menahem Golan (que também é o diretor do longa) “não parava de oferecer dinheiro” a ele, até que o astro concordou por achar que ninguém veria o filme de qualquer forma (já que não havia gostado nem um pouco do roteiro). Assim, metade dos US$25 milhões do orçamento para o longa foi parar no bolso de Stallone. O retorno de bilheteira foi US$16 milhões apenas.

Na época, ter Stallone como protagonista custava caro, e ‘Falcão’ foi um dos responsáveis por falir a Cannon.

No mesmo ano a Cannon investia na adaptação de dois super-heróis muito populares com os fãs. Primeiro, compraria os direitos do maior super-herói de todos, o Superman. Isso mesmo! E junto com a Warner produziria ‘Superman IV – Em Busca da Paz’ – que contou com roteiro do próprio Christopher Reeve (parte do acordo para o ator retornar ao papel). Porém, o maior deslize para o longa foi o orçamento apertado de apenas US$17 milhões – o que pode ser sentido na tela com efeitos especiais mambembes. Por comparação, os dois primeiros filmes ficaram na faixa de US$55 milhões, e o terceiro custou US$40 milhões. Foi uma queda brusca em qualidade. A bilheteria do quarto filme foi de US$15 milhões, com o pretenso blockbuster sequer se pagando.

O prego no caixão viria com a primeira e única adaptação de ‘He-Man’, com ‘Mestres do Universo’ – versão com atores de carne e osso para um dos maiores fenômenos midiáticos dos anos 80. Como sempre, Golan e Globus anunciaram o filme de ‘Mestres do Universo’ como o “Star Wars dos anos 80”. O resultado, porém, não foi nem de perto o mesmo como sabemos. Com orçamento de US$22 milhões, onde a maior parte do filme precisou se passar na Terra, para diminuir os gastos, o filme também não se pagou, arrecadando US$17 milhões.

A tríade da falência! ‘Falcão’, ‘Mestres do Universo’ e ‘Superman 4’ foram responsáveis por fazer a Cannon fechar as portas.

Na mesma época, o saudoso crítico Roger Ebert (um dos mais respeitados de todos os tempos) disse sobre a Cannon: “nenhuma outra produtora no mundo hoje, certamente nenhum dos sete grandes estúdios de Hollywood, se arrisca mais com filmes sérios ou filmes de gênero do que a Cannon”. E foram justamente esses riscos que levaram o estúdio a abrir falência no fim dos anos 80. Muitos creditam ao fatídico ano de 1987, e às grandes apostas que a Cannon fez com esses três longas citados.

Antes de fechar as portas, ou ao menos da era Golan-Globus, a Cannon ainda introduziria um astro das artes marciais vindo de Bruxelas. Jean-Claude Van Damme pode ter sido o último grande produto vendido pela Cannon para o mundo. Mesmo depois do baque de 1987, a Cannon ainda lançaria Van Damme em ‘O Grande Dragão Branco’ (1988), ‘Kickboxer – O Desafio do Dragão’ (1989) – o qual não produziu, mas distribuiu nos EUA – e ‘Cyborg – O Dragão do Futuro’ (1989), que era para ter sido a continuação de ‘Mestres do Universo’, mas foi reaproveitado e remodelado.

Antes de apagar as luzes da era Golan-Globus, a Cannon ainda lançaria Jean-Claude Van Damme em ‘O Grande Dragão Branco’.

Dentre as produções que a Cannon prometeu, mas nunca cumpriu, estavam uma adaptação em live-action de ‘Barbie’ (já que o estúdio havia comprado os direitos de ‘He-Man’ da mesma Mattel), cuja história giraria em torno da boneca mostrando para sua dona que seus sonhos poderiam se realizar – em partes o que vimos em tela no recente blockbuster com Margot Robbie. Outro que por pouco não viu a luz do dia na Cannon foi o filme do ‘Homem-Aranha’. O estúdio adquiriu os direitos do herói da Marvel e chegou a veicular um teaser anunciando seu blockbuster, que teria na direção o mesmo Joseph Zito de ‘Braddock – O Super Comando’. Já imaginou? Por sorte, o estúdio não conseguiu tirar o projeto do papel e os direitos reverteram para a Marvel, que os vendeu para a Sony realizar o filme com Tobey Maguire e Sam Raimi.

O medo é real! A Cannon por pouco não produziu um filme do Homem-Aranha – e chegou até a criar artes promocionais e um teaser.

No fim dos anos 80, ocorreu uma ruptura entre os primos, e Menahem Golan deixava a Cannon para formar uma nova companhia, intitulada 21st Century Film Corporation. Yoram Globus seguiu com a Cannon na década seguinte, aceitando parcerias com empresas Europeias. Mas a era da Cannon em toda a sua glória havia chegado ao fim. O estúdio desligaria todas as operações oficialmente em 1994. Menahem Golan faleceria em 2014 (mesmo ano que a Cannon seria homenageada com os dois documentários) aos 85 anos. Yoram Globus está com 77 anos, e havia retornado para Israel após o fim da Cannon.

Eventualmente através de uma fusão com a MGM, toda a filmoteca do estúdio foi anexada, hoje parte do acervo da Amazon Prime Video – que adquiriu a MGM em um negócio bilionário. Justamente por isso podemos encontrar filmes como ‘Falcão’ e ‘O Grande Dragão Branco’ no acervo do streaming – e em breve outros virão. Uma grande jogada da Amazon para os nostálgicos dos anos 80 e da era da Cannon Films seria disponibilizar em sua plataforma, uma seção dedicada aos filmes inesquecíveis do estúdio, já que a filmografia da empresa é bastante extensa e repleta de longas memoráveis, ou pelo menos divertidos.

Crítica | Monstro – O retrato de uma sociedade que acusa sem pensar

O que você vê quando olha pra mim? Baseado no livro homônimo do escritor Walter Dean Myers, lançado no final da década de 90, Monstro é o retrato de uma sociedade que acusa sem pensar, que julga pela cor, acaba com sonhos, definindo destinos de maneira cruel. Um filme de tribunal com um protagonista (interpretado pelo excelente Kelvin Harrison Jr, que inclusive fará B.B King no novo filme de Baz Luhrmann ainda sem título) em grande destaque que busca em sua narrativa impactante, sensível, refletir toda a emoção, sentimentos que transbordam dentro de seu drama. Primeiro longa-metragem de Anthony Mandler.

Na trama, conhecemos Steve Harmon (Kelvin Harrison Jr.), um jovem e sonhador de 17 anos que está prestes a completar o último ano de escola e ir para a faculdade. Cinéfilo, sonha em ser diretor de cinema e estuda em uma das melhores escolas públicas dos Estados Unidos. Mas toda sua vida futura fica com um ponto de interrogação quando é acusado de ter participado de um assalto a uma mercearia onde uma pessoa foi assassinada. Assim, vamos vendo a narrativa sob a ótica de Steve sobre tudo que aconteceu até o dia de seu julgamento.

O estilo da narrativa chama bastante a atenção, em formato de crônica pessoal para o protagonista, uma declamação de todo um recorte de vida, sua trajetória até chegar ao banco dos réus, somos testemunhas de opiniões, olhares, julgamentos, por meio de fotos também, todo o universo que cerca esse jovem acusado de participar de um crime que não cometeu. O seu criativo expressar artístico é a veia unificadora de toda a narrativa muito bem filmada pelas lentes de Mandler. Sua relação com a família é bastante intensa, principalmente com o pai (interpretado por Jeffrey Wright) talvez pelo seu ponto de vista ser tão enigmático, não dá pra saber se ele acha o filho culpado ou inocente. A mãe católica (a ganhadora do Oscar Jennifer Hudson) não aparece muito. Outra relação importante pra trama é com a advogada (interpretada pela ótima Jennifer Ehle), talvez a única que acredita no réu logo de primeira se tornando peça chave para o desfecho.

Será que nossa sociedade está finalmente preparada para conseguir refletir sobre um filme importante como esse? Abordando muito mais do que os tremores e arrepios vividos por um jovem negro acusado de maneira desleal, o projeto expõe toda a ótica que muitos possuem sobre o tribunal, as regras da lei e seus personagens. Profundo em seus diálogos, impactantes em seus exemplos, lançado em 2018 no Festival de Sundance, Monster, no original, chegou à Netflix nessa semana.

10 filmes mais tensos do que noite de paredão!

O Big Brother Brasil começou e, a cada noite de paredão, a tensão tomará conta da casa mais vigiada do país. Esse sentimento, que encosta bastante na ansiedade, também é visto em algumas produções que nos conduzem a um clima de tensão constante em histórias que trazem reviravoltas. Para você que curte se jogar num bom suspense, não perca as dicas abaixo:    

 

Batem à Porta (Universal +) 

O jogo de argumentações que gira em torno do fim do mundo. Trabalho do cineasta indiano M. Night Shyamalan, Batem à Porta envolve o espectador em uma longa batalha de argumentos, tendo como plano de fundo um sinistro clima de tensão, aos olhos de uma família que se vê presa por um grupo de pessoas que dizem saber como terminar com o fim do mundo. 

 

Green Room (Tem para aluguel em algumas plataformas) 

Na trama, conhecemos uma banda de punk rock formada por jovens liderados por Pat (Anton Yelchin) que, entre um show e outro, acaba parando em um bar barra pesada. Após o show, quase indo embora, parte da banda presencia um assassinato e eles acabam ficando presos dentro de um quarto, onde precisarão manter a calma e tomar as melhores decisões caso queiram sair com vida deste tenebroso lugar.  

 

Fale Comigo (HBO MAX) 

Na trama, conhecemos um grupo de amigos que resolve se reunir para uma sessão de possessão através de um artefato macabro que chega até um deles. No início, já se deparam com terríveis situações e, não percebendo o perigo que podem estar correndo, resolvem continuar se encontrando e realizando as sessões. Até que um deles, a protagonista Mia (Sophie Wilde), acaba sendo atingida em cheio pela obsessão à situação, abrindo assim uma conexão constante com os seres do outro lado. 

 

No Fim do Túnel (Tem para aluguel em algumas plataformas) 

Na trama, conhecemos o recluso Joaquín (Leonardo Sbaraglia), um homem que vive uma total depressão. Certo dia, bate em sua porta Berta (Clara Lago) e sua filha buscando moradia em uma das partes da casa que o protagonista colocou para alugar. Pouco tempo depois da chegada dessa misteriosa mulher em sua vida, Joaquín descobre que criminosos estão cavando um túnel na casa ao lado e que passará por baixo de sua casa. Em um ato desafiador e perigoso, o personagem principal resolve gravar as ações dos criminosos que antecedem o crime: invadir um banco que fica próximo ao lugar onde estão. Assim, após descobrir um grande segredo, resolve fazer de tudo para atrapalhar o plano dos bandidos. 

 

Presente Maldito (Paramount Plus) 

Polly (Dakota Fanning) é uma jovem buscando se encontrar na vida e vive sozinha na casa que aluga da irmã. Em uma noite, abre a porta da casa para uma senhora que lhe entrega uma caixa misteriosa. A partir desse momento, suas próximas horas serão de total medo e tensão, precisando executar algumas tarefas ingratas. 

 

Uma Família Feliz (Telecine) 

Na trama, conhecemos Eva (Grazi Massafera), uma artesã de bonecos de bebês à espera do terceiro filho, o primeiro menino, que vive seus dias ao lado do marido, o advogado Vicente (Reynaldo Gianecchini), e das duas filhas gêmeas, em um condomínio de alto padrão numa grande cidade brasileira. Certo dia, já após o nascimento do novo filho, e em meio a uma depressão pós-parto, suas filhas aparecem machucadas e Eva acaba sendo acusada de ter cometido tal ato. Assim, sua vida muda completamente, desencadeando uma série de conflitos que rebatem em acontecimentos estranhos e duvidosos. 

 

Um Fantasma na Batalha (Netflix) 

Ambientado em meados da década de 1990, acompanhamos a história de Amaia (Susana Abaitua), uma jovem oficial da guarda civil espanhola que se infiltra em uma célula do grupo separatista ETA, com o objetivo de localizar alvos e prevenir futuros atos terroristas praticados pelo grupo. Durante quase uma década, ela se vê em vários dilemas, descartando a vida pessoal e se jogando numa estrada marcada por tensão e violência. 

 

Frio nos Ossos (HBO MAX) 

Na trama, conhecemos uma mãe super ativa (Joely Richardson), ex-anestesista, que vive com sua filha Maisy (Sadie Soverall) e o marido (Roger Ajogbe) em uma enorme fazenda numa área rural da Inglaterra. Certo dia, em uma noite de tempo horroroso, dois irmãos batem na porta da família, que mesmo em dúvidas, resolve ajudá-los. O que acontece dali pra frente é um jogo psicológico proposto através das ações e consequências, onde, aos pouco, vamos através de atitudes drásticas, conhecendo as verdades de cada um daqueles personagens.  

 

Os Escolhidos (Prime Video) 

No suspense, somos apresentados a família Barret: os apaixonados Daniel (Josh Hamilton) e Lacey (Keri RusseIl) levam uma vida pacata numa cidadezinha do interior dos Estados Unidos. A paz e a calmaria terminam quando seu filho Jesse (Dakota Goyo) passa a agir de maneira esquisita.  A partir daí, resolvem investigar e uma série de misteriosos eventos passam a fazer parte de sua rotina. 

 

Un Actor Malo (Prime Video) 

Na trama, durante um dia cheio de reviravoltas, conhecemos Daniel (Alfonso Dosal) e Sandra (Fiona Palomo), dois artistas com bom relacionamento fora das câmeras que estão rodando um filme. Numa das cenas, Sandra acusa Daniel de má conduta, desencadeando uma série de situações. Ela vai em busca de apoio jurídico para uma denúncia, enquanto a produção do filme tenta contornar a situação. Ao longo dessa jornada, as consequências são mostradas de várias formas, chegando até mesmo ao circo midiático que logo se mostra presente. 

 

Crítica | Cartas para um Ladrão de Livros – Documentário brasileiro sobre um nobre Gatuno

Prenda-me se For Capaz

Uma das melhores qualidades da sétima arte é nos apresentar um universo fora de nossa redoma, ao qual não estamos acostumados e, muitas vezes, sequer ciente de sua existência. Até mais do que filmes ficcionais, os documentários trabalham de maneira informativa, detalhando através de uma série de entrevistas e depoimentos, algum fato. No entanto, por se tratar ainda de um filme, muitas vezes encontramos certa parcialidade inserida nos temas retratados.

Um exemplo claro disso é no documentário A 13ª Emenda, da quase sempre ótima Ava DuVernay, no qual a diretora diz com todas as letras que por ela, todos os afro-americanos seriam soltos das prisões e colocados de volta nas ruas. Bem, talvez seja fácil falar isso do conforto de sua mansão em Beverly Hills, onde o risco de ser atingida pela violência é quase nenhum, mas não estamos aqui para falar de Ava ou da realidade nos EUA, e sim de crimes cometidos por aqui mesmo, no Brasil.

Em nosso país, estamos acostumados com crimes diários, e todo e qualquer tipo de violência. Seja nos crimes de colarinho branco, nos quais empresários e principalmente políticos nos privam de nossos direitos básicos, como educação e saúde, para encherem os bolsos de dinheiro mais um pouco, nos dando falsas esmolas, e muita distração para que olhemos para o outro lado. É o típico dar o peixe ao invés de ensinar a pescar. Aqui, é dar sardinhas miúdas mesmo. O resultado é uma insatisfação geral, o aumento da pobreza e consequentemente da criminalidade.

Seguindo pelo outro lado deste espectro, mas motivado por muito do que foi dito no parágrafo acima, se encontra Laéssio Rodrigues de Oliveira, o tema deste documentário. Sim, provavelmente você, assim como eu, nunca havia ouvido falar de tal personagem. Pois fique sabendo que se trata de um dos mais sofisticados gatunos que este país tupiniquim já teve conhecimento.

Encontramos o protagonista saindo de uma de suas muitas estadias encarcerado na prisão. Homossexual assumido, Laéssio vai cativando aos poucos o espectador, com sua fala fácil e esbanjando o conhecimento inegável que possui não apenas de arte e cultura, como de problemas sócio econômicos de nosso país. Laéssio é também um exímio criminoso, um ladrão, mas não do tipo ao qual estamos acostumados em nosso país. Ele não é um traficante, um bandido armado, ou sequer um trambiqueiro do alto escalão. Laéssio é um ladrão de obras de arte antigas, mais precisamente livros e documentos históricos.

Em A Menina que Roubava Livros (2013), uma pequena garota alemã cria esperança na desolação da Segunda Guerra Mundial roubando livros que seriam queimados por Hitler e os nazistas, e dividindo esta cultura com outras pessoas, para que estas obras não fiquem extintas. O protagonista de Cartas para um Ladrão de Livros talvez tenha uma intenção próxima, mas incrivelmente deturpada. Em sua ideologia, o governo não merece tais obras em seu poder, devido ao pouco caso que é feito em relação a seus cuidados, e investimentos no setor cultural. Assim, ele singelamente retirou algumas das peças mais valiosas de diferentes instituições, e as vendeu para compradores particulares – criminosos iguais, ou até mesmo piores do que ele. Mas que, obviamente, se recusaram a aparecer no documentário, alguns ainda ameaçando de processo qualquer menção de seus nomes. O próprio protagonista é cuidadoso quanto a isso e mantém seus nomes bem longe da divulgação – não é como se ele já não tivesse problemas suficientes.

Pense em quem financia o crime ao comprar produtos de procedência duvidosa, mas algo realizado em escala muito maior. Existe certa lógica no discurso de Laéssio, e uma visão romântica por trás de tudo, com devaneios de fama e riqueza. O famoso deixar sua marca no mundo a qualquer custo. O interessante é que Laéssio é coerente, educado, bem instruído e muito conhecedor acima de tudo, algo que inclusive seus detratores precisam dar o braço a torcer. Ao menos na frente das câmeras, já que precisamos compreender que esta é a imagem que Laéssio quer propagar, e ele é inteligente o suficiente para revelar seu melhor lado para o filme que o retrata, mas não o homenageia.

Este é justamente o maior êxito de Cartas para um Ladrão de Livros, dirigido por Calos Juliano Barros e Caio Cavechini. O filme relata sem enaltecer, a todo momento mostrando o contraponto da visão romantizada e hiper-realista que Laéssio possui de si mesmo, através de figuras como o policial federal responsável pelas investigações do caso, ou da diretora de uma das instituições que tiveram o azar de ver no caminho o infrator larápio. Tais impressões são acertadas e necessárias para o estabelecimento de quem é esta figura. Herói ou vilão. Criminoso imperdoável ou vítima do sistema. O documentário precisou constantemente sofrer hiatos durante as inúmeras prisões de Laéssio, o irremediável Robin Hood de nossos tempos.

Um documentário só é válido se o tema apresentado for interessante, se valer a pena a perda de tempo não apenas para ser assistido pelo público, mas pelo tempo que os envolvidos irão perder de vida para confeccioná-lo. E principalmente, o que os realizadores têm a dizer sobre este tema. E aqui, bastante tempo foi gasto – quase como um Boyhood (2014) documental. O resultado rende uma obra de fácil acesso, interessantíssima e muito emocional. Mesmo sem concordarmos com o tipo de vida que Laéssio decidiu trilhar para si, é impossível não se conectar e perceber em muitos momentos a alma totalmente despida de um ser humano perdido.

Assim como nos tentadores e glamourizados filmes de assalto e crime – que já renderam alguns dos grandes trabalhos do cinema, vide a trilogia O Poderoso Chefão, Os Bons Companheiros, Onze Homens e um Segredo, entre outros, o perigo de uma vida fora dos trilhos não deixa de fascinar o espectador, pelo risco que gera adrenalina e nos mantém constantemente próximos. O teor quase inacreditável, ao ponto de soar como a mais fantasiosa ficção, apenas demonstra que o ser humano segue sendo um mistério que talvez nunca seja desvendado, tampouco nunca deixará de gerar encantamento.

Desprezados! 6 Filmes de 2023 que Ninguém Deu Muita Bola

O mundo do cinema e suas engrenagens são muito interessantes para serem observadas simplesmente através do formulaico “gostei” ou “não gostei” de determinado filme. Para os profissionais que trabalham analisando todos os pormenores das peças que formam o todo, ou os que os estudam, existem diversas variações e oscilações a serem minuciosamente examinadas. Dentro deste aspecto, uma das variantes mais curiosas é tentar entender o que faz um filme de fato “acontecer”. Ou seja, o que gera e principalmente mantém o hype para determinados projetos.

Em resumo, em primeiro caso temos a expectativa que determinada obra gera com seu público – servido pela campanha de marketing e exponencialmente aumentado pelas redes sociais. Uma vez essa venda do “preciso ver esse filme” vendida, foca-se na manutenção desta boa reputação, que pode acabar rapidamente após a estreia do filme devido a uma recepção, digamos, fria por parte da crítica ou, pior ainda, dos fãs. Essa é outra variante, já que os críticos (e hoje os influenciadores) exercem domínio do que é bom ou não com o público até certo ponto. A prova disso são os filmes elogiados pela crítica que não se tornam sucesso com o público.

Ou seja, o mais prático talvez seja afirmar que o fracasso de um filme se deve ao somatório de uma campanha de marketing sem muito investimento e críticas extremamente negativas. Em muitos casos sim, mas isso também não é uma regra imutável. Caso contrário não teríamos filmes cult de baixo orçamento que se tornam sucesso no “submundo” e depois migram para o mainstream. A verdade é que só se torna sucesso o que o público quer. E isso é algo imprevisível, que não pode ser previsto e nem confeccionado. Filmes programados para serem sucesso podem falhar miseravelmente, e outros que ninguém esperava tornam-se subitamente a última bolacha do pacote. Tudo depende do clamor popular.

Aqui, no entanto, em nossa nova matéria, iremos adereçar justamente o exato oposto disso. Ou seja, os filmes que embora contem com um elenco famoso, diretores respeitados, grandes estúdios por trás e até um orçamento folgado, simplesmente passaram em branco por grande parte das pessoas – que não deram a mínima para tais lançamentos, seja pelo motivo que for. Confira abaixo.

Os Cavaleiros do Zodíaco

Revitalizar uma marca antiga nos tempos atuais é uma tarefa difícil, mas não impossível. Veja o caso com os recentes filmes do ‘Sonic’ e ‘Super Mario Bros’ – dois grandes sucessos. Mas quando falamos dos chamados animes – animações japonesas transformadas em filmes com atores reais, a trajetória de tais obras não é das melhores. Veja o caso com ‘Dragonball Evolution’ (2009), ’O Último Mestre do Ar’ (2010) e ‘Ghost in the Shell’ (2017). Agora, ‘Cavaleiros do Zodíaco’ faz companhia a este seleto grupo. Não adianta, para produções deste nível, nomes famosos ainda são o principal atrativo – e quando seu filme conta com Sean Bean e Famke Janssen como os nomes mais estelares, sabemos que a produção não será de um alto nível de qualidade.

Magic Mike – A Última Dança

‘Magic Mike’ (2012) foi a resposta para filmes como ‘Showgirls’ (1995) e ‘Striptease’ (1996), agora pensando no público oposto. Em tela, fortões sem roupa em um universo de go-go boys. No entanto, o filme se mostrou um pouco mais profundo do que aparentava. Mas não significa que deveria abusar de sua sorte como fez. Três anos depois era lançada uma sequência totalmente desnecessária. No entanto, o astro de tal “franquia”, Channing Tatum, acreditava que tinha algo mais a contar, e resolveu lançar ainda um terceiro filme esse ano. Para o feito trouxe de volta também o diretor original Steven Soderbergh. O resultado foi que quase ninguém notou que o filme havia de fato sido lançado.

Peter Pan e Wendy

A trajetória dos filmes em live-action baseados em clássicos da animação Disney até que é boa – com quatro deles passando da ridícula marca de US$1 bilhão em bilheteria (‘O Rei Leão’, ‘A Bela e a Fera’, ‘Aladdin’ e ‘Alice no País das Maravilhas’). Por outro lado, temos também a decisão não muito sábia do estúdio de lançar tais longas do tipo direto no Disney+ (como forma de vender o streaming para os fãs). E depois de ‘A Dama e o Vagabundo’, ‘Mulan’ e ‘Pinóquio’, três filmes que ninguém deu muita bola, se junta à lista a versão do estúdio para ‘Peter Pan’ de carne e osso. Aqui, a falta de interesse ainda se soma ao fato de que o personagem já foi exaustivamente adaptado às telonas.

Bird Box – Barcelona

O primeiro ‘Bird Box’ (2018), baseado em um livro de sucesso, com a estrela Sandra Bullock, saiu no mesmo ano de ‘Um Lugar Silencioso’ e terminou sendo muito comparado a tal sucesso dos cinemas por trazer uma trama muito parecida. Lá, monstros se guiam através dos sons, então é preciso manter este mundo pós-apocalíptico extremamente silencioso. Aqui, as criaturas não podem ser vistas, senão causam suas vítimas a se matarem. Para evitar o contato visual, vendas nos olhos. Apesar de muitas críticas, o filme se mostrou um sucesso. Assim, a ideia foi expandir o universo por um segundo filme passado em Barcelona. Porém, sem um nome famoso para ser o chamariz no elenco, este segundo longa passou sem ser visto, com o perdão do trocadilho.

Homens Brancos Não Sabem Enterrar

Aqui temos um exemplo de refilmagem extremamente desnecessária. Sim, você pode até argumentar que toda refilmagem é desnecessária. Mas elas ficam mais aceitáveis quando temos o remake de uma obra muito antiga, que poucos conhecem, ou quando existe um investimento ambicioso em revitalizar uma marca, como Spielberg fez com ‘Guerra dos Mundos’, por exemplo. Aqui, no entanto, temos um dos filmes mais divertidos e criativos dos anos 90, também considerado um dos melhores longas de esporte do cinema. Assim, uma refilmagem já começaria em desvantagem. Pior ainda quando não traz nomes que criem identificação com o público protagonizando. Você já ouviu alguém falando sobre esse remake? Pois é, eu também não.

Projeto Extração

O chinês Jackie Chan é uma verdadeira lenda das artes marciais no cinema, e tesouro mundial da sétima arte. Não é à toa, o ator fez filme até com Bruce Lee em seu início de carreira. O astro da ação chinês possui uma incrível bagagem com nada menos que 142 participações em filmes. No entanto, convenhamos que atualmente a carreira de Chan já passou de sua melhor fase, e que agora seus filmes recaem no território B, sem um grande sucesso para chamar de seu nesta fase. Esse aqui ainda teve um pouco mais de notoriedade pela parceria com o ator de ação John Cena, cuja carreira está decolando. Evitando que o longa caísse totalmente no anonimato, ele foi jogado na Netflix – onde até fez sucesso com o espectador que só quer saber de “tiro, porrada e bomba”, já todo o resto…

E aí, querido cinéfilo?! – Nossa Coluna de Entrevista | Parte 33: Celso Sabadin

Nessa vida temos encontros e desencontros. A internet veio para bagunçar isso tudo e para quem é esperto conseguir se aproximar de ídolos ou apaixonados por cinema que nunca teria a chance de conhecer os pensamentos se a distância entre os dois pontos não existisse, como é agora no planeta internet. Dividir curiosidades sobre o gosto cinéfilo é um grande exercício que todos nós cinéfilos adoramos descobrir. Esse especial chega exatamente para apresentar universos diferentes do seu mas sempre com um grande amor ao cinema como o seu.

Cineasta, escritor, mestre em Comunicações, publicitário, jornalista e foi crítico de cinema diversos veículo badalados. Nosso convidado de hoje é uma verdadeira enciclopédia cinéfila. Maior especialista vivo em MazzaropiCelso Sabadin, a quem eu carinhosamente chamo de Mestre Cinéfilo, está sempre pelas redes sociais comentando sobre uma variedade enorme de filmes e sobre o Corinthians. Querido cinéfilo, que eu nunca pude conversar pessoalmente mas tenho certeza que esse dia chegará. Com vocês, meu amigo, Celso Sabadin.

1) Na sua cidade, qual sua sala de cinema preferida em relação a programação? Detalhe o porquê da escolha.

É o Reserva Cultural, que exibe grandes filmes (em sua maioria, europeus) contemporâneos que quase nunca decepcionam. É o tipo do cinema que nem precisa consultar a programação antes: é só chegar e escolher qualquer filme em exibição nas suas quatro salas. Quase nunca dá errado. Fora o café, o croissant de chocolate, a livraria e um “detalhe” que a maioria dos cinemas não leva em conta: o conforto da sala de espera.

 

2) Qual o primeiro filme que você lembra de ter visto e pensado: cinema é um lugar diferente.

Rapaz, eu vou ao cinema desde tão pequeno que eu não lembro. Mas me lembro de um filme especial que eu vi no finado Cine Rivieira, perto aqui de casa, que me impressionou muito: foi Pinochio, da Disney, Principalmente na cena em que os meninos se transformam em burros. Fiquei semanas apavorado com aquilo, e com certeza eu não teria a mesma sensação se tivesse visto numa tela pequena.

 

3) Qual seu diretor favorito e seu filme favorito dele?

Muitas vezes me perguntam sobre isso, mas para mim é simplesmente impossível determinar um único diretor ou um único filme favorito. Não consigo. É muita gente boa, é muito filme bom, não tenho a capacidade de escolher um só. E se eu citar dez vou ser injusto com outros dez, e assim por diante. Desculpa, mas não sei responder… e isso vale para a próxima pergunta também (Qual seu filme nacional favorito e porquê?)… rsrs..  Aliás, tenho a maior dificuldade de fazer lista dos melhores filmes do ano, do dia, da década, do universo, sei lá. Tenho muita dificuldade com esta questão “competitiva” do cinema. Não consigo quantificar se uma obra de arte é “melhor” que a outra. Todas têm seu valor, cada uma a seu tempo, com seu estilo.

4) Qual seu filme nacional favorito e porquê?

Respondida na pergunta anterior.

 

5) O que é ser cinéfilo para você?

É se deixar levar com prazer e arte por outros mundos, outros realidades, outras dimensões.

6) Você acredita que a maior parte dos cinemas que você conhece possuem programação feitas por pessoas que entendem de cinema?

Nããããããõ. A maior parte dos cinemas do mundo tem programação definida por quem entende de pipoca.

7)  Algum dia as salas de cinema vão acabar?

Nunca. Já “mataram” o cinema nos anos 1950, quando inventaram a televisão; depois nos anos 1980, quando inventaram o VHS; depois em 1990 quando inventaram o DVD; depois em 2010 quando veio o VOD e agora em 2020 com a pandemia. E ele nunca morreu. Aliás, os primeiros a “matar” o cinema foram os próprios Irmãos Lumiére: em 1900, cinco anos depois deles mesmos terem inventado o cinema, eles decidiram parar de filmar. Alegando que tudo o que era possível filmar já havia sido filmado. E pararam mesmo.

8) Indique um filme que você acha que muitos não viram mas é ótimo.

Roma às 11 Horas, de Giuseppe de Santis.

9) Você acha que as salas de cinema deveriam reabrir antes de termos uma vacina contra a covid-19?

Não, nunca, jamais. Nada deveria abrir antes da vacina.

 

10) Como você enxerga a qualidade do cinema brasileiro atualmente?

A qualidade eu acho ótima. Chegamos a um nível de diversidade temática e capacidade produtiva muito boa, algo impensável para quem viu o cinema brasileiro “morrer” na Era Collor, no início dos anos 1990. O problema é aquele de sempre: a distribuição. Não adianta a gente fazer quase 200 longas por ano – como de fato estamos fazendo – para essa produção ficar entalada num sistema de distribuição e exibição dominado por políticas criminosas das multinacionais. Junte-se a isso, agora, a falta de políticas públicas deste antigoverno idiota, genocida, infantilizado, estúpido, preconceituoso, incompetente e podre em que estamos vivendo.

 

11) Diga o artista brasileiro que você não perde um filme.

Atualmente, Kleber Mendonça Filho.

12) Defina cinema com uma frase:

Sonhar acordado.

13) Conte uma história inusitada que você presenciou numa sala de cinema.

Estava eu sossegadamente vendo um filme no cinema quando duas pessoas atrás de mim começaram a conversar em tom razoavelmente alto. Virei para trás e mandei o tradicional “psiiiu!”. O sujeito atrás de mim reclamou, indignado: “Psiu por que? Não tem ninguém falando na cena agora!”. Fiquei abismado com a percepção de um tipo de público que acha que, se não há diálogos em determinada cena, nada de importante está acontecendo de fato naquele momento do filme.  É a “visão telenovelística” de parte do nosso público.

14) Defina ‘Cinderela Baiana’ em poucas palavras…

A sublimação de um mito.

Crítica | ‘Uma Baleia Pode ser Dilacerada como uma Escola de Samba’ – Uma alusão ao carnaval inserida em um contexto de angústias [Mostra de Cinema de Tiradentes]

Um dos filmes mais desafiadores do cinema brasileiro lançados ainda em festivais no ano de 2025, o longa-metragem Uma Baleia Pode ser Dilacerada como uma Escola de Samba é, basicamente, uma alusão ao carnaval inserida dentro de um contexto das angústias de um protagonista que vê seu sonho não se realizar. A partir do contraponto peculiar de associar uma grande festa se abraçando a momentos tristes, acompanhamos uma história que convoca a paciência – embora até ela pode acabar.

Dividido em curtos capítulos que fazem referências diretas à maior festa popular de nosso país, por meio de uma autoapresentação de personagens, nos leva até uma história que apresenta um presidente de uma escola de samba que percebe chegar ao fim os dias de folia. Entre as memórias de um começo promissor até um presente de agonias, com a falência batendo à porta, somos guiados por personagens que circulam em torno da amargura do adeus.

Na tentativa de ser um experimento poético, o projeto dirigido por Marina Meliande e Felipe M. Bragança, esbarra em uma narrativa lenta, que insiste em construir uma atmosfera indecifrável pelo subúrbio carioca. Esse incômodo no ritmo parece ser uma proposta – um desafio ao espectador – talvez na esperança de suscitar reflexões variadas. A poesia contemplativa chega por meio de imagens e movimentos que dizem pouco sobre o que é essa história, além do óbvio, se arrastando por 70 minutos de projeção.

Do musical aos dramas de um encerramento de ciclo, o roteiro apresenta seus confrontos ao sensibilizar e sugerir, se escondendo do dinamismo – algo que a narrativa clama em alguns momentos -, mesmo com uma composição visual que estimula o olhar e chama a atenção. Nessa visão pessimista de almas solitárias perdidas no caos de uma cidade (aqui representado também pela violência), Uma Baleia Pode ser Dilacerada como uma Escola de Samba disponibiliza reflexões isoladas dentro de um mar de tristeza – do abre-alas até cruzar seus créditos finais.

10 Filmes Dirigidos por Mulheres que Estreiam em 2018!

Neste dia 8 de Março, comemora-se o Dia Internacional da Mulher.

Representatividade é a palavra de ordem. Seja racial ou de gênero. Enquanto certos conceitos soam novos para alguns, a luta pela igualdade das mulheres é antiga, assim como ideologias feministas. Quem já assistiu ao longa As Sufragistas (2015) sabe. Tudo bem, o filme não é tão bom, mas o que conta ali é a ideia.

Em Hollywood, muitas vezes reflexo para o mundo, ocorre o mesmo e após uma série de denúncias de abuso, as mulheres se veem num novo amanhecer, que pode sim ser sinal de mudança (mais uma) de uma época. O recente Globo de Ouro foi uma pequena mostra disso. Filmes protagonizados por mulheres fortes, vide Três Anúncios para um Crime, Lady Bird e Em Pedaços, levaram importantes prêmios. E Natalie Portman não perdeu a oportunidade ou a pose para alfinetar os votantes, lembrando a supremacia masculina na categoria de direção. Causou mal estar com os indicados? Sim. Serviu de alguma coisa? Com certeza! Agora temos Greta Gerwig indicada ao Oscar de diretora, a quinta mulher da história!

Pensando nisso, decidimos listar para você alguns dos principais filmes dirigidos por mulheres que serão lançados em 2018, para já ficarem de olho e aguardarem sua estreia. São diretoras veteranas, renomadas, estreantes, novatas e até mesmo atrizes e cantoras estreando a função. Sem mais delongas, vem conhecer.

Uma Dobra no Tempo

Diretora: Ava DuVernay.
Estreia: 29 de março.

Representatividade é com Ava DuVernay, diretora de Selma – Uma Luta pela Igualdade (2014) e o documentário A 13ª Emenda (2016). Aqui, ela pega sua primeira superprodução, baseada em livros de fantasia e bancada pela Disney.  Queremos vê-la indicada ao Oscar em breve.

 

You Were Never Really Here

Diretora: Lynne Ramsey.
Estreia: 6 de abril nos EUA.

Baseado no livro de Jonathan Ames, com roteiro adaptado pela própria Ramsey, o filme teve sua estreia no festival de Cannes do ano passado. A história traz Joaquin Phoenix no papel de um sujeito decidido a fazer justiça com as próprias mãos e libertar adolescentes utilizadas como escravas sexuais. Lynne Ramsey tem em Precisamos Falar Sobre o Kevin (2011) seu cartão de visitas.

A Festa

Diretora: Sally Potter.
Estreia: 16 de fevereiro nos EUA.

Potter é uma renomada diretora britânica, cuja carreira começou ainda na década de 1970. Entre seus trabalhos mais marcantes está o cult Orlando – A Mulher Imortal (1992), protagonizado por Tilda Swinton. A Festa é uma produção classuda e adulta, filmada em preto e branco, que conta com a nata do cinema inglês (e mundial) no elenco. Quem protagoniza é Kristin Scott Thomas, na pele da dona do jantar, que não sairá exatamente do jeito que ela espera.

The Nightingale

Diretora: Jennifer Kent.
Estreia: 2018

Com apenas um outro trabalho na carreira, a australiana Kent atingiu status suficiente para que fiquemos de olho nela. Isso porque em 2014 entregou um dos filmes de terror mais elogiados da década, O Babadook. Agora, quatro anos depois, a diretora retorna, e assim como em seu filme de estreia realiza a dupla jornada no roteiro e comando da obra. Dando o próximo passo na carreira, Kent sai do terror para o drama, e conta uma história de vingança envolvendo uma mulher na Tasmania de 1825.

Ophelia

Diretora: Claire McCarthy.
Estreia: 22 de janeiro (Festival de Sundance).

O projeto mais ambicioso da carreira da bela Claire McCarthy, Ophelia (ou Ofélia) é a reimaginação do clássico Hamlet, de William Shakespeare, contado pela perspectiva da mulher nesta história, justamente a personagem título. Como se não bastasse esta ousada e necessária abordagem, o filme conta ainda com ninguém menos que Daisy ‘Rey’ Ridley na pele da protagonista, e traz Naomi Watts e Clive Owen no elenco. Ansiedade define.

The Land of Steady Habits

Diretora: Nicole Holofcener.
Estreia: 2018.

Uma de minhas diretoras preferidas, Holofcener é cria e representa como ninguém o cinema independente norte-americano. A cineasta é dona de uma filmografia de obras questionadoras, vide Amigas com Dinheiro (2006), Sentimento de Culpa (2010) e À Procura do Amor (2013). Se eu fosse um produtor, bancaria um filme para a diretora anualmente.Aqui, o talentoso Ben Mendelsohn interpreta um sujeito com crise de meia idade, que decide viver de uma forma inusitada, como nunca anteriormente.

Sister

Diretora: Sia.
Estreia: 2018.

Muitos de vocês adoram a cantora Sia e suas músicas. Bem, agora muitas outras pessoas poderão conhece-la e adorá-la também – e vocês quem sabe podem amá-la ainda mais. Acontece que a misteriosa cantora que nunca mostrava a cara, dá o pulo para trás das câmeras este ano, estreando na direção de um longa, baseado em uma história da própria. Protagonizado por Kate Hudson, Sister é um drama musical, que conta a história de uma traficante de drogas sóbria (Hudson, de novo visual – cabeça raspada) e sua irmã deficiente. Curioso.

Mary Queen of Scots

Diretora: Josie Rourke.
Estreia: 2 de novembro nos EUA.

Voltando para os dramas históricos de época, este é provavelmente o melhor item da lista e o que mais desperta a curiosidade deste que vos fala. Não estranharia se nesta mesma época no ano que vem, o filme estiver entre os indicados ao Oscar 2019 – a estreia para novembro já prevê prêmios. A trama narra a tentativa de Mary Stuart, conhecida como Maria da Escócia no Brasil, de destronar sua prima, Elizabeth I, rainha da Inglaterra. O detalhe é para o elenco estelar, que traz duas indicadas deste ano ao Oscar: Margot Robbie (Eu, Tonya) como Elizabeth e Saoirse Ronan (Lady Bird) como Mary.

Galveston

Diretora: Mélanie Laurent.
Estreia: 2018.

Depois da cantora Sia, é a vez da atriz Mélanie Laurent, nossa eterna Shosanna de Bastardos Inglórios (2009), pular da frente para trás das câmeras. Não pense você, no entanto, que Laurent é estreante na função, pois a bela francesa tem outros três longas de ficção na carreira como diretora. Este, porém, promete ser seu filme mais ambicioso. Baseado no livro de Nic Pizzolatto (simplesmente o roteirista de True Detective), que também adapta a obra ao cinema, Galveston é um drama criminal de ação, que conta sobre um matador à beira da morte retornando para sua cidade natal (que dá título ao filme) para orquestrar uma vingança. No elenco, a onipresente Elle Fanning.

On the Basis of Sex

Diretora: Mimi Leder.
Estreia: 2018.

Outro filme que pode ser forte concorrente ao Oscar 2019. A diretora Mimi Leder já foi um dos nomes mais proeminentes do cinema hollywoodiano no fim da década de 1990. Saída da série sensação E.R., no Brasil conhecida como Plantão Médico, Leder comandou superproduções bem sucedidas como O Pacificador (1997), com George Clooney e Nicole Kidman, e Impacto Profundo (1998), um dos filmes sobre meteoros colidindo com a Terra daquele ano. Depois disso, retornou para a TV onde comandou séries como The Leftovers e Shameless. Este é seu novo filme em quase uma década – e estamos torcendo para que desponte. O filme traz a indicada ao Oscar Felicity Jones na pele de Ruth Bader Ginsburg, primeira mulher a ser nomeada juíza da Suprema Corte norte-americana. O filme mostrará sua luta pelo direito de igualdade. Além disso, o filme também tem a presença de Armie Hammer, um dos nomes mais mencionados neste início de ano – graças a Me Chame Pelo Seu Nome – no papel do marido da juíza.

Nos Cinemas

Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi

Diretora: Dee Rees.
Estreia: 15 de fevereiro.

Falando em representatividade, temos na lista outra diretora negra. Rees tem no currículo os filmes Pariah (2011) e Bessie (2105), com Queen Latifah. Mudbound é seu filme mais ambicioso, que emplacou na época de prêmios e saiu com 4 indicações ao Oscar (entre elas, atriz coadjuvante para Mary J. Blidge, roteiro adaptado para a própria diretora, e quebrando mais uma barreira, fotografia para Rachel Morrison, a primeira mulher da história na categoria). A trama passada no final da Segunda Guerra Mundial, fala sobre racismo na área rural do Mississipi. Esta é uma produção Netflix, mas que será lançada nos cinemas do Brasil pela Diamond Films.

Lady Bird – A Hora de Voar

Diretora: Greta Gerwig.
Estreia: 15 de fevereiro.

Este dispensa apresentações. Com elogios de sobra, Lady Bird é o filme mais bem avaliado na história do Rotten Tomatoes. Gerwig aprendeu bem a lição nos filmes em que trabalhou como atriz e agora estreia na direção solo de um longa. A história semi autobiográfica, conta a adolescência de uma menina com sonhos de ganhar o mudo e sair de Sacramento, Califórnia. Gerwig e Lady Bird foram indicadas ao Oscar e possuem chances reais de saírem vitoriosas.

NOSTALGIA Festival do Rio | Relembre os Grandes filmes que fizeram parte do evento há 10 Anos!

O Rio está em festa! Apesar de lidarmos com os problemas diários de nossa cidade, em especial a violência, precisamos celebrar a arte em momentos difíceis, pois ela salva e educa! Começou o Festival do Rio, um dos maiores eventos de cinema do Brasil, que desde 1999 recebe todo ano centenas de filmes internacionais, promove filmes nacionais em competição para prêmios e traz para a festa os artistas mais badalados do país e do resto do mundo. Em 2023 não será diferente.

O evento que teve sua pré-estreia na última quinta-feira, vai até o dia 15 de outubro, fazendo os cinéfilos, jornalistas e também o grande público percorrer a cidade atrás dos filmes – cujo acervo esse ano conta com pérolas nacionais como ‘Meu Nome é Gal’ e ‘Mussum – O Filmis’, e longas badalados internacionalmente, vide ‘Pobres Criaturas’ e ‘Segredos de um Escândalo’.

Aqui, em homenagem a esse grande encontro de fãs para celebrar a sétima arte em pleno território brasileiro, resolvemos por uma matéria diferente – mais uma vez apostando na nostalgia. Voltaremos dez anos no passado para relembrar alguns dos filmes mais marcantes que foram exibidos na edição de 2013 do Festival do Rio – que contou entre outras coisas com a vinda da jovem Dakota Fanning para promover o suspense ‘Movimentos Noturnos’. Os mais velhos certamente irão lembrar como se fosse ontem. Já os mais jovens irão conhecer um pouco mais do que era mostrado no evento na época. Confira abaixo.

Gravidade

O grande chamariz do Festival do Rio 2013 foi o badaladíssimo ‘Gravidade’, do mexicano Alfonso Cuarón. O longa aportava em terras tupiniquins após ter feito sucesso em festivais internacionais como Veneza e Toronto. Protagonizado por Sandra Bullock e George Clooney, a superprodução conta sobre dois astronautas em missão fora da Terra, quando um desastre atinge sua nave. Os dois precisam lutar por sobrevivência e encontrar uma forma de retornar ao planeta. ‘Gravidade’, é claro, marcaria presença no Oscar 2014, indicado para melhor filme, melhor atriz e outros 8 prêmios, dos quais levou 7, incluindo melhor diretor.

Blue Jasmine

Outra estrela da edição de 10 anos atrás foi ‘Blue Jasmine’, de Woody Allen, numa época pré-cancelamento do diretor (ou na qual suas polêmicas ainda eram aceitáveis). E se Sandra Bullock foi indicada pelo filme acima, ela batia de frente com o paredão chamado Cate Blanchett, que levava seu segundo Oscar (dessa vez como atriz principal) por este filme. O filme conta sobre uma socialite que perdeu tudo e precisa ir morar com a irmã como último recurso, mesmo desdenhando de seu modo de vida e escolha de relacionamentos.

Fruitvale Station – A Última Parada

Saído de Sundance e Cannes debaixo de inúmeros aplausos, o drama racial chegava ao Rio causando muita comoção. O filme apresentou ao mundo os talentos do diretor Ryan Coogler e do ator Michael B. Jordan, que cresceriam para se tornar duas potências em Hollywood – entre outras coisas, envolvidos com a franquia ‘Pantera Negra’ da Marvel. Aqui, eles contam a história do jovem negro Oscar Grant, que ao voltar de uma festa de Reveillon se envolve numa briga a bordo de um vagão do metrô nos EUA, e termina morto pela brutalidade policial. Algo que continua a ocorrer por lá, vide o caso com George Floyd em 2020 – e que os brasileiros conhecem muito bem, infelizmente.

A Grande Beleza

Agora temos uma produção de fora dos EUA na lista, com o italiano ‘A Grande Beleza’, saído diretamente de Cannes e Toronto para aportar em nossas terras no Festival do Rio. Escrito e dirigido por Paolo Sorrentino, e protagonizado por Toni Servillo, o filme é uma olhada única na vida de um jornalista boêmio da terceira idade, que prova que nunca se está velho demais para se divertir. O discurso do protagonista vai contra o que a sociedade geralmente espera do cidadão, ou seja, socialmente formar uma família. O longa chegou até o Oscar e levou o prêmio de filme estrangeiro.

Serra Pelada

Agora temos uma produção cem por cento nacional, que também causou alvoroço naquela edição, sendo um dos longas brasileiros mais disputados de dez anos atrás. Não por menos, foi o filme escolhido para encerrar o evento. Escrito e dirigido por Heitor Dhalia, um grande elenco desfila em tela para contar a história do maior garimpo a céu aberto do mundo. Durante os anos 70, tivemos uma verdadeira corrida do ouro no Brasil, com a promessa de fortuna enterrada nas terras da Serra dos Carajás, no sul do Estado do Pará. O filme possui todo um outro contexto visto hoje, numa época em que se combate de forma ferrenha esta atividade. Júlio Andrade e Juliano Cazarré protagonizam, com participações de Sophie Charlotte, Matheus Nachtergaele e um irreconhecível Wagner Moura saído de sucessos como os dois ‘Tropa de Elite’ e ‘O Homem do Futuro’.

Entre Nós

Por falar em produções nacionais de prestígio, é claro que no Festival do Rio tivemos muitas. Aqui destacamos esse ‘Entre Nós’ como um dos mais chamativos, já que foi um dos grandes papa-prêmios da edição. O filme tem roteiro e direção de Paulo Morelli, que convidou seu filho Pedro Morelli para estrear no comando de uma obra ao seu lado. Pedro viria a marcar presença no Festival do Rio e em Toronto dois anos depois com ‘Zoom’. O filme levou os prêmios de melhor roteiro e atuações para Júlio Andrade e Martha Nowill no evento. Na trama, um grupo de jovens amigos reunidos em uma casa de campo vivem relacionamentos e escrevem cartas para abrirem dali a dez anos. No elenco, Carolina Dieckmann, Caio Blat, Maria Ribeiro, Paulo Vilhena, além dos citados Andrade e Nowill.

Apenas Deus Perdoa

A primeira parceria entre o diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn e o ator Ryan Gosling rendeu o cult adorado ‘Drive’ (2011), que também fez sua estreia em terras brasileiras no Festival do Rio daquele ano. Dois anos depois, e a dupla repetia a dobradinha no mais enigmático ‘Apenas Deus Perdoa’ – sem o mesmo impacto, mas mesmo assim objeto de culto por uma parcela de cinéfilos que curtem obras mais esquisitonas. Saído do Festival da Cannes, aqui o diretor cria uma obra digna de Shakespeare, repleta de questões existenciais. Na trama passada em Bangcoc, Gosling vive Julian, um criminoso que precisa vingar a morte do irmão a pedido da mãe autoritária e chantagista – com quem tem uma relação de amor e ódio (papel de Kristin Scott Thomas). Mas para isso, ele precisará enfrentar um super policial imbatível do local.

Como Não Perder Essa Mulher

Saído dos Festivais de Sundance, Berlim e Toronto, este filme foi outra das grandes atrações do Festival do Rio de dez anos atrás. Isso porque em seu elenco traz duas das maiores estrelas de Hollywood vindas de gerações diferentes. Primeiro, por se tratar na época do novo filme da musa Scarlett Johansson, então no auge de sua popularidade. Seguindo de perto, a veterana Julianne Moore, um ano antes de ser presenteada com o Oscar de atuação. O filme marcou a estreia na direção do ator Joseph Gordon-Levitt, que também escreve e dirige, e estava com a “corda toda” na época, entregando um sucesso atrás do outro. O filme é uma sátira a um tipo de comportamento fútil masculino, no qual homens só desejam um corpo sarado e dormir com o maior número de mulheres possível, sem aspirações significativas. Brie Larson antes da fama também marca presença.

Joe

Hoje, o nome do diretor David Gordon Green é mais associado à nova trilogia de ‘Halloween’ – que dividiu a opinião dos fãs, dos críticos e do grande público de forma geral. O cineasta acaba de lançar nos cinemas o novo capítulo de franquia ‘O Exorcista’, que igualmente vem dividindo opiniões. Mas há dez anos, o nome de Green era mais associado a comédias e a dramas independentes. Na seara deste segundo, o diretor entregava o que muitos consideram um de seus melhores trabalhos e um dos filmes recentes mais interessantes da carreira do astro Nicolas Cage, que o ajudou a recuperar certo status na época. O filme saiu de Veneza e Toronto e correu para o Rio. Na trama, Cage vive um ex-condenado que conhece um menino, faz amizade com ele e tem a chance de mudar sua vida. Um belo drama.

Jovem e Bela

Mais uma produção internacional. Dessa vez paramos na França para um filme que fez sua estreia mundial em Cannes, é claro. Sua próxima parada foi Toronto e logo depois seguiu para águas cariocas no Festival do Rio. Trata-se de um drama estarrecedor do prestigiado diretor François Ozon, que como sempre também assina o roteiro. O cineasta descobria aqui a bela Marine Vacth, que interpreta Isabelle, uma jovem de classe média francesa que decide um belo dia começar a levar uma segunda vida como prostituta – encontrando homens em hotéis em segredo. Um drama impactante.

Crítica | Juventude – O belíssimo primeiro filme de ficção da história do Djibouti

As razões e as emoções do universo das incertezas. Primeiro filme de ficção da história do Djibouti (pequeno país africano de menos de um milhão de habitantes) e primeiro longa-metragem dirigido por uma mulher (Lula Ali Ismaïl) nesse país, Juventude nos mostra como um desenrolar complicado e traumático de um aborto instantâneo acaba sendo o início de uma forte amizade entre três jovens que estão no último ano do colégio e já pensam na fase seguinte de suas vidas, procurando respostas sobre onde querem esta daqui a 10 anos. Seus dramas, suas agonias, enxergamos cada detalhe em um retrato muito honesto sobre o cotidiano dessas três personagens. Estreia no Brasil nesta sexta, 11/06, direto no streaming da Supo Mungam Plus.

Na trama, conhecemos Deka (Amina Mohamed Ali), Asma (Tousmo Mouhoumed Mohamed) e Hibo (Bilan Samir Moubus) três jovens que ficam muito amigas no último ano do colégio e buscam no companheirismo de uma com a outra força e opiniões sobre acontecimentos presentes e sobre o futuro. De classes sociais completamente diferentes, vivendo na mesma cidade mas com um cotidiano nada igual, em comum, refletem sobre saírem do país onde nasceram para estudar fora.

A amizade é tão importante, precisamos sempre valorizar. São três garotas bem diferentes. Tradições, fé, cultura local contornam o cotidiano das personagens. Uma delas se relaciona com um homem casado e mais velho não sabendo qual será o próximo passo dessa relação, a outra vive conflitos dentro de casa por conta das obrigações que lhe são dadas e a mais rica delas viveu um drama recente mas parece não se importar com o futuro a princípio, pois, não consegue se enxergar longe da comodidade que lhe é dada por seus pais.

Com uma belíssima fotografia, Dhalinyaro, título do filme no original, abre espaço para conhecermos melhor esse país tão desconhecido de nós por aqui. Com os mais velhos, algumas delas aprendem sobre a história desse país e também sobre histórias de quando alguns saíram para o exterior. Em um desses diálogos, por exemplo, com um senhor mais velho, acaba sendo uma grande aula de história mundial, com relatos detalhados da ida do mesmo, em meados da década de 40, para a guerra na França.

Amizade, obstáculos, força feminina, diversas visões sobre um mesmo cotidiano rodeiam esse bonito projeto que também não deixa de ser uma homenagem da cineasta a outras milhares de histórias do seu país.

Crítica | ‘Faísca’ – Um desabafo potente que ganha forma poética [Mostra de Cinema de Tiradentes]

Por meio de imagens marcantes e de uma narração potente, o curta-metragem Faísca, selecionado para a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes é um filme que gera impacto logo nos primeiros minutos. A obra nos leva para conhecer a aldeia marrecas, ligada a um povo indígena, a partir do notório desaparecimento de animais conhecidos da região. Pelas terras avermelhadas desse lugar, a narrativa nos guia para um tour que atravessa gerações de mulheres imersas em uma cultura rica, que precisa vencer os obstáculos que se impõem.

Pelos desabafos e paralelos entre o desaparecimento de onças através de histórias familiares dessa comunidade do povo Kariri, em Quiatius, distrito de Lavras da Mangabeira, no Ceará, percorremos reflexões que envolvem ensinamentos familiares, degradação ambiental e o vínculo afetivo de pertencimento. Nessa espécie de filme-denúncia, a conexão dessas muitas realidades constrói paralelos poderosos como uma força resistente contra a ação nociva e desenfreada do homem.

O título, Faísca, ganha inúmeros significados. Atravessa os rituais dos ancestrais, a vivência na caatinga, a sabedoria transmitida de mãe para filha, os aprendizados e a validação da palavra identidade, além da força que surge para enfrentar a pressão de empreendimentos em território indígena. Dessa ideia, nasce um desabafo potente, que ganha forma poética pela condução objetiva e simbólica da narrativa.

Dirigido por Barbara Matias Kariri, Faísca já havia sido exibido no Festival de Brasília do ano passado e, nesse início de 2026 ganhou espaço na programação da Mostra Praça, em Tiradentes. Um lugar onde as mensagens da obra ganharam mais força, em um encontro coletivo sob o céu mineiro.

Crítica | 12 Heróis – Filme de guerra com Chris Hemsworth e Michael Shannon

Rambo III encontra A Hora Mais Escura

Baseado na história real dos primeiros soldados das Forças Especiais a pisarem no Afeganistão após os ataques terroristas em Nova York, nas Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001. Dezessete anos depois, num mundo totalmente diferente, com diversas outras conotações trazidas à mesa, é curioso ver como se comporta um filme como 12 Heróis.

À primeira vista tendo como único propósito de sua existência a exaltação do sentimento exacerbado de patriotismo norte-americano, 12 Heróis poderá pegar muitos de surpresa ao trabalhar estas e outras questões com bastante honestidade e, sim, por que não, humanidade.

Sim, este ainda é um filme de machões. Um filme com soldados armados até os dentes, com o único propósito de exterminar os inimigos. Dentre os quais, o protagonista vivido por Chris ‘Thor’ Hemsworth está aborrecido por não poder voltar ao combate e ver ação de perto – quem sabe pisar em alguns crânios. Bem, ironias à parte, isso é o que soldados fazem – está implícito em sua definição e compreendo que é mais do que injusto um civil como eu tentar captar tal sentimento – é impossível.

Por outro lado, encontramos o grandalhão em um momento mais tenro, ao lado da família, da esposa e filha pequena. Curiosamente, sua companheira é interpretada pela mesma da vida real, a espanhola Elsa Pataky – na primeira colaboração dos pombinhos frente às câmeras.

O lance com 12 Heróis é que, primeiro, ele se comporta no meio termo entre algo um pouco mais sério e embasado, como A Hora Mais Escura (2012), por exemplo, aonde a política de bastidores não está tão distante da realidade, sobrando alfinetadas para eles mesmos; e Rambo III (1988), no qual Stallone se uniu aos guerrilheiros do Afeganistão com objetivo de libertar o povo dos malvados soviéticos. No quesito, sobram explosões, tiros e cenas de ação a cavalo – sim, igual ao filme do cabeludo musculoso de faixa vermelha na cabeça, pouco mudou nessas décadas, já que o país é todo constituído de rochas, montanhas e cavernas. Aqui, a pirotecnia exagerada e incrível chega inclusive a cansar, com cenas repetitivas – apesar da exímia edição.

O texto dos tarimbados Ted Tally (O Silêncio dos Inocentes) e Peter Craig (Atração Perigosa) não faz por menos e se equilibra bem na tênue linha, conseguindo subverter o esperado, entregando um discurso lúcido e imparcial na medida certa. Por exemplo, um líder revolucionário (Navid Negahban), o General Dostum, é quem ciceroneia os soldados americanos para derrubar o Talibã presente na região. Ele tem outra agenda, assim como os americanos, e também o outro líder guerreiro com o qual os EUA trataram de fazer acordo caso este não dê resultado. Tais notas de esperteza no texto dão a pitada certa de cinismo, sem que se crie uma visão 100% inocente dos envolvidos.

Michael Shannon e Michael Peña completam o elenco principal e entregam sólidas performances – já esperadas. Shannon é o braço direito do líder americano (Hemsworth) e tira bastante humor de suas cenas, enquanto Peña é o truculento ranzinza que irá se modificar em seu arco. A direção é do dinamarquês Nicolai Fuglsig, um estreante (vamos colocar assim, já que só tem outro trabalho assinado na direção, e bem desconhecido) com uma mão competentíssima para as transições de humor (tensão, leveza, drama), timing cômico e, obviamente, ação.

Para termos uma ideia do que nos espera em 12 Heróis, é só lembrar dos filmes do Capitão América, da Marvel, em especial o primeiro (2011) e o segundo (2014), sobre os quais todos estavam inseguros por se tratar de um personagem que usa como uniforme a bandeira de um país que não estava em seu melhor momento de popularidade. Imagine agora. Porém, assim como a superprodução de super-herói, este drama de guerra deu um jeito de reverter o quadro, se tornando acessível e crítico o suficiente. Tudo que precisamos fazer é dar uma chance e não julgar o livro pela capa.

Em nota final, 12 Heróis é uma homenagem melhor estruturada e de resultado mais satisfatório do que, digamos, o recente novo trabalho do veterano Clint Eastwood, 15h17 – Trem para Paris, que igualmente serve de carta de amor a militares heroicos.

‘Sexta-Feira 13’ faz 43 anos | Relembre o MAIOR Slasher do Cinema…

Uma das franquias mais duradouras do cinema completa 43 anos em 2023. Lançado no dia 9 de maio de 1980 nos cinemas americanos (chegando ao Brasil em dezembro do mesmo ano), Sexta-Feira 13, um filme de história simples e direta, rendeu nada menos do que nove sequências, uma série de TV, um derivado e uma refilmagem. É claro, sem contar as inúmeras peças de marketing e produtos, como álbuns de figurinhas, camisas, bonecos, etc. .

Muito se falou numa continuação para o remake, a ideia, no entanto, não saiu do papel. Agora o plano é por um novo reboot – que possivelmente trará o jogador de basquete LeBron James à frente do projeto como produtor -, apesar de aparentemente estagnado, sem muitas novidades concretas. Uma nova série explorando o tema começou a ser filmada também, porém, prontamente cancelada antes de seu lançamento. Ou seja, a famosa data de azar no título parece ter pego a franquia.

O que importa na verdade, para todos os fãs e aficionados, é o aniversário da saga, que este ano se torna quarentona. E tudo começou aqui, com o primeiro Sexta-Feira 13. Como forma de homenagear este que se tornou o maior slasher de todos os tempos no cinema, o CinePOP traz esta nova matéria com muitas informações, comentários e diversas curiosidades interessantes que talvez muitos não saibam. Portanto, apaguem as luzes, olhem o calendário e vamos conhecer.

O Criador

O grande nome por trás da franquia é Sean S. Cunningham, o diretor e produtor que começou tudo. Cunningham tinha 39 anos quando lançou Sexta-Feira 13 nos cinemas, e já trabalhava como produtor e cineasta – na maioria, filmes de baixo orçamento que não ganharam muita notoriedade. Seu projeto mais famoso até então era Aniversário Macabro (1972), thriller intenso que virou cult, dirigido por Wes Craven (outro lendário nome do gênero), no qual trabalhou como produtor.

O desespero para conseguir sustentar a esposa e o filho tirou de Cunningham seu lado mais marqueteiro, e o sujeito só queria realizar um filme de sucesso. Esse era seu principal objetivo: pensar em um projeto unicamente por seu lado financeiro. Para isso, a primeira ideia do cineasta foi o título. Sexta-Feira 13 é impactante o suficiente. E isso era tudo o que ele tinha realmente quando criou um grande anúncio nas páginas de uma famosa revista da indústria na época, no qual mostrava a arte do título em terceira dimensão quebrando a tela de vidro – algo semelhante ao que é visto no trailer do filme. Foi assim que o cineasta ofereceu seu “filme” aos estúdios. Apesar disso, o título original pensado pelo roteirista era “A Long Night at Camp Blood” – algo como “Uma Longa Noite no Acampamento Sangrento”.

Provocados pelo título intrigante, alguns estúdios fizeram ofertas como num leilão e a Paramount acabou levando a melhor. Tudo o que a empresa estava comprando, no entanto, era um título. Com um orçamento de US$550 mil, o próximo passo era desenvolver a história.

A Ideia

Para o roteiro, Cunningham alistou o usual colaborador Victor Miller. E se o primeiro é o responsável por Sexta-Feira 13 existir, Miller é o responsável por tudo que vemos em tela. É dele a história sobre um grupo de jovens tentando reformar e reabrir um antigo acampamento de verão, mas sendo impedidos por uma presença misteriosa, que os mata um a um. Miller é muito claro (até hoje em entrevistas) sobre o pedido de seu produtor e diretor: imitar HalloweenA Noite do Terror (1978) – que havia se tornado um sucesso de bilheteria anos antes.

Miller, que não era fã de terror, foi então realizar sua pesquisa sobre filmes do gênero, em especial Halloween. A primeira coisa que notou era que precisava de uma tragédia prévia. Em Halloween, o filme abre com o menino Michael Myers matando sua irmã mais velha a facadas – depois, pulamos para o tempo presente. No roteiro de Miller, dois assassinatos ocorrem em 1958 e o acampamento Crystal Lake é fechado. Depois, ficamos sabendo que antes disso um menino chamado Jason havia se afogado no local, devido à negligência dos monitores que deveriam cuidar dele. Para quem conhece a trama, tal fato é toda a motivação do assassino.

Levando em conta que o filme tem nada menos que 43 anos, a esta altura todos devem saber seu segredo. Caso não queiram levar um spoiler, parem de ler, corram para assistir a este novo clássico e continuem este texto depois. Estão avisados.

Uma das sacadas do roteiro de Miller é usar o artifício do “whodunnit”. Isto é, todos os assassinatos são cometidos em primeira pessoa e nunca vemos o rosto do vilão – apenas vislumbres de seus pés e mãos. O filme faz questão de esconder a identidade do psicopata até seu desfecho. No entanto, o culpado não é nenhum personagem que tenha sido apresentado previamente. O assassino aqui é uma mulher – coisa rara em obras do gênero – e não apenas isso, mas é a típica e acolhedora mamãe americana, a Sra. Voorhees. A ideia de Miller era subverter o conceito da agradável mãe de família, que faz tortas de maçã e cuida do marido e dos filhos, a transformando numa psicopata sanguinária e feroz. Ela havia trabalhado no local como cozinheira, e Jason, o menino afogado, era seu filho. Agora, ela retorna para se vingar de todos que pensam em reabrir o local.

 

Maquiagem e Trilha Sonora

Apesar de algumas surpresas em sua trama e alguns diferenciais (como ter uma assassina mulher, uma senhora em busca de vingança pela morte do filho), o roteiro de Sexta-Feira 13 não é um primor, por assim dizer. Então, o longa foi vendido através de alguns outros possíveis atrativos. Um deles foi a sua maquiagem e efeitos visuais – os melhores da época no gênero. Para tanto, a produção foi atrás de Tom Savini, que havia criado tais elementos para Despertar dos Mortos, de George Romero, dois anos antes, e impressionado a equipe deste filme. E grande parte do sucesso de Sexta-Feira 13 se deve aos impressionantes efeitos sangrentos que Savini trouxe para a produção. São flechas atravessando pescoços, machadadas na cara, decapitações e todo tipo de cortes, perfurações e machucados – que chocaram e entretiveram a plateia da época, assim como um trem fantasma de parque de diversão. Ou uma montanha russa, repleta de sustos e adrenalina.

Foi inclusive devido à maquiagem de Savini que ganhamos o maior vilão que esta franquia veria: Jason. Como dito acima, a assassina aqui é a Sra. Voorhees, a mãe de Jason – o próprio aparece apenas em flashback se afogando enquanto sua mãe conta sobre sua morte acidental. Originalmente, Jason não estaria no primeiro filme, e em partes não está.

Acontece que os realizadores perceberam que precisavam de um final apoteótico, e seguiram à risca “copiando” de sucessos recentes da época. O escolhido como “inspiração” para terminar o longa foi Carrie – A Estranha (1976), que utiliza um jump scare final de uma mão saindo do túmulo – uma sequência de sonho. Em Sexta-Feira 13, foi criada a cena final em que o menino Jason pula do lago e leva Alice para o fundo. Ela acorda no hospital, mostrando que era apenas um sonho, assim como no filme citado de Brian De Palma. Para que o susto ficasse ainda mais impactante, Savini desenvolveu a maquiagem deformada para o rosto de Jason, além do lodo e das plantas, por ter ficado todo este tempo dentro do lago. Daí nascia o conceito do grande vilão dos slasher.

Quanto à música, a famosa trilha de Sexta-Feira 13, o responsável foi o compositor Harry Manfredini. Sua ideia foi usar a nervosa música apenas nos ataques do assassino. E para isso, tirou dos delírios da Sra. Voorhees a amálgama de sílabas das palavras por ela proferidas durante o filme para criar a icônica “tchi tchi tchi tcha tcha tcha”. Na verdade, ecos de sintetizadores que ressoam o “ki ki ki” da palavra kill (matar) e “ma ma ma” de mommy (mamãe). Ou seja, trechos do diálogo “mate ela mamãe”, que a vilã, no melhor estilo Norman Bates e sua mãe, profere a si mesma.

O Elenco

Para os personagens que seriam eliminados um a um, Cunningham buscava um elenco jovem e bonito. Esses eram os únicos requisitos. Nas palavras do próprio, eles precisavam parecer figurantes num comercial de Pepsi. No entanto, grande parte destes jovens eram atores de musicais da Broadway, com conhecimento do palco, mas em seu primeiro trabalho no cinema. Dentre os jovens, Kevin Bacon viria a se tornar o rosto mais conhecido – e o único que atualmente evita falar sobre sua participação no terror slasher.

Curiosamente, na época não era o nome de Kevin Bacon o planejado para chamar atenção no elenco dos jovens. Seguindo novamente de perto os planos de Halloween, que trouxe como protagonista Jamie Lee Curtis (filha dos astros Tony Curtis e Janet Leigh), os produtores de Sexta-Feira 13 escalaram Harry Crosby (filho do lendário Bing Crosby) para sua estreia no cinema, no papel do protagonista masculino Bill. A ideia era atrair o público com este chamariz. Ao contrário da protagonista de Halloween, no entanto, a carreira do filho de Crosby não decolou.

A verdadeira protagonista do filme, porém, é Alice, papel de Adrianne King. Ela é a chamada “final girl”, a heroína que sempre sobrevive ao final em todo filme de terror slasher, derrotando o vilão. Curiosamente, ela não é impulsionada desta forma durante a projeção, ganhando protagonismo meio sem querer, ao seguir vivendo enquanto seus amigos são eliminados. Ganhamos, inclusive, uma brincadeira no estilo de Psicose (1960), clássico irretocável de Hitchcock, onde o filme tenta nos vender uma falsa protagonista, que se torna a primeira vítima – aqui a caronista Annie (Robbi Morgan), a nova cozinheira que nunca chega ao acampamento.

O verdadeiro nome de peso em Sexta-Feira 13 na época, entretanto, era o da atriz Betsy Palmer, que interpreta a vilã Sra. Voorhees. Palmer, falecida em 2015 aos 88 anos, era uma atriz estabelecida da década de 1950, que havia parado de atuar. Entrando no ostracismo e precisando do dinheiro, ela aceitaria o papel mesmo tendo achado o roteiro uma boa m*rda, palavras da própria. Mal sabia ela que esta viria a se tornar sua personagem mais famosa e a que a deixaria imortalizada para sempre. Palmer tentou dar o máximo de credibilidade ao papel, atuando de forma contida e séria (dentro do possível), evitando exageros megalomaníacos – mesmo que possamos perceber claramente sua loucura no desfecho. Betsy Palmer recebeu US$1 mil por dia, e trabalhou apenas dez dias na produção.

Recepção e Legado

Sexta-Feira 13 estreou e se tornou um verdadeiro sucesso de bilheteria. Com um orçamento de US$550 mil, o terror rendeu US$40 milhões somente nos EUA. O filme virou uma febre e viveu para se tornar o mais famoso dentro do subgênero slasher – podemos até mesmo afirmar que foi o responsável por impulsioná-lo ao mainstream, e criar tendência. De repente, todo mundo queria uma fatia deste sucesso, e diversas produções no estilo eram criadas, pelos mais variados estúdios e produtoras. Até mesmo Halloween, o filme imitado, se viu correndo atrás dos louros de seu imitador – os produtores obrigaram John Carpenter a confeccionar uma sequência para surfar no sucesso de Sexta-Feira 13.

Mostrando que crítica e público nem sempre respondem a um filme da mesma forma, Sexta-Feira 13 foi massacrado pela imprensa especializada. As principais acusações eram a violência excessiva e a violência direcionada à mulher. Acusado de misoginia, o filme foi usado como exemplo no programa especial dos críticos Gene Siskel e Roger Ebert (os primeiros e mais famosos “críticos em vídeo” do mundo) sobre a violência contra jovens mulheres neste tipo de filme. Siskel foi além, chegando ao ponto de divulgar o endereço de Betsy Palmer no jornal em que escrevia (um veículo importante de Chicago), incentivando os fãs decepcionados da atriz a lhe escreverem cartas criticando sua escolha de projeto. Felizmente para Palmer, o crítico divulgou o endereço errado.

Sexta-Feira 13 é violento, assustador e sangrento. Seu único objetivo era o sucesso financeiro e isto foi atingido por seu criador Sean S. Cunningham. Mas nem mesmo ele, o roteirista Victor Miller, ou qualquer envolvido poderia prever o sucesso meteórico do filme junto aos fãs de terror e dos jovens. Para termos uma ideia, as críticas conservadoras de gente como Gene Siskel citado acima, apenas serviram para catapultar ainda mais as vendas de ingresso. É a famosa estratégia publicitária do falem mal, mas falem de mim. Seu rendimento foi tão satisfatório que a Paramount tratou de dar sinal verde instantâneo para a sequência, lançada logo no ano seguinte. E assim novas continuações foram lançadas durante praticamente todos os anos da década de 1980 – com um total de oito filmes lançados até 1989.

Ninguém imaginaria a proporção que a coisa tomaria e a dimensão desta propriedade, adorada até hoje. Cunningham construiu um mini império e os envolvidos continuam famosos e adorados. Mesmo com uma ideia simples, talvez datada hoje, mas bem executada, Sexta-Feira 13 é um pré-requisito e uma obra indispensável para todos que se dizem fãs do gênero terror no cinema.

E aí, querido cinéfilo?! – Nossa Coluna de Entrevista | Parte 37: Cristiano Requião

Nessa vida temos encontros e desencontros. A internet veio para bagunçar isso tudo e para quem é esperto conseguir se aproximar de ídolos ou apaixonados por cinema que nunca teria a chance de conhecer os pensamentos se a distância entre os dois pontos não existisse, como é agora no planeta internet. Dividir curiosidades sobre o gosto cinéfilo é um grande exercício que todos nós cinéfilos adoramos descobrir. Esse especial chega exatamente para apresentar universos diferentes do seu mas sempre com um grande amor ao cinema como o seu.

Nosso convidado de hoje é cineasta e cinéfilo! Cristiano Requião, profissional de cinema há mais de 40 anos, trabalhou em onze longas-metragens como assistente de direção e diretor de fotografia, além de realizar centenas de filmes institucionais. Durante dez anos trabalhou em um Centro Universitário nos cursos de Comunicação e Propaganda e Publicidade. Retornou ao cinema comercial em 2009 e até hoje dirigiu, roteirizou e fotografou sete curtas e os longas-metragens Outro Olhar e Morrer de Amor.

 

1) Na sua cidade, qual sua sala de cinema preferida em relação a programação? Detalhe o porquê da escolha.

Cine Joia e os cinemas do Estação em Botafogo, os dois. Saem do esquemão de filmes meramente comerciais, exibindo uma variedade maior de gêneros e estilos.

 

2) Qual o primeiro filme que você lembra de ter visto e pensado: cinema é um lugar diferente.

Fazem muitos anos… Mas eu lembro de um filme francês que marcou a minha adolescência. Chama-se Os Aventureiros, do Robert Enrico com Alain Delon e Lino Ventura. Neste filme eu decidi que queria trabalhar em cinema. Não pela narrativa, mas sim pela capacidade de um filme de gerar emoções.

 

3) Qual seu diretor favorito e seu filme favorito dele?

Jacques Audiard e o Sur mes Lèvres de 2001 com uma atriz que eu considero uma das maiores, a Emmanuelle Devos.

 

4) Qual seu filme nacional favorito e porquê?

O Bandido da Luz Vermelha do Sganzerla. Um filme feito na garra e com uma história incrível explorando, na época diversas linguagens.

 

5) O que é ser cinéfilo para você?

É quem ama e estuda cinema.

 

6) Você acredita que a maior parte dos cinemas que você conhece possuem programação feitas por pessoas que entendem de cinema?

Não posso dizer. Vejo acertos fantásticos e equívocos terríveis. Dos cinemas menores com seus donos próximos o resultado tem sido melhor.

 

7)  Algum dia as salas de cinema vão acabar?

Temo que isso ocorra, mas acredito que não. Tem filmes que são feitos e devem ser assistidos nos cinemas. Tomara que sobrem os cinemas independentes, principalmente.

 

8) Indique um filme que você acha que muitos não viram mas é ótimo.

O Roubo da Taça do Caito Ortiz. Para que as pessoas cinéfilas e não cinéfilas possam ter certeza que filmes comerciais podem ter um recheio com conteúdo, sejam divertidos e questionadores.

 

9) Você acha que as salas de cinema deveriam reabrir antes de termos uma vacina contra a covid-19?

Fosse eu um biólogo ou infectologista poderia responder.

 

10) Como você enxerga a qualidade do cinema brasileiro atualmente?

Qualidade é um termo equivocado, a meu ver. Pode significar algo bem acabado e vazio. O cinema brasileiro têm excelentes filmes num determinado formato de produção que lamentavelmente não chega a todos os realizadores.

 

11) Diga o artista brasileiro que você não perde um filme.

Com algumas decepções, Júlio Andrade.

 

12) Defina cinema com uma frase:

Uma ferramenta política com dois gumes.

 

13) Conte uma história inusitada que você presenciou numa sala de cinema:

Estreia do Pedro Mico no antigo Ricamar em Copa. Não havia público, convidados, só alguns apareceram. Para que a sessão não ficasse vazia, nós da equipe fomos a rua pedir para que as pessoas entrassem de graça. Não me lembro sequer da presença da imprensa. Público voluntário na plateia de baixo e no girau equipe e atores. Bastaram aparecer as cenas mais eróticas entre o Pelé e a Tereza Raquel para rolar uma vaia acompanhada de observações a respeito da performance em cena. Depois disso a maior parte das pessoas foi embora.

 

14) Defina ‘Cinderela Baiana’ em poucas palavras…

Uma tentativa pretensiosa de fazer cinema apostando na fama de uma atriz. Um filme risível.

 

15) Muitos diretores de cinema não são cinéfilos. Você acha que para dirigir um filme um cineasta precisa ser cinéfilo?

Eu acho que ajuda muito. O que colocamos na tela é um MMC do que vimos e vivenciamos. A gramática cinematográfica é a ferramenta. Quanto mais filmes, desde que selecionados, mais afiada fica a nossa léxica.

 

16) Qual o pior filme que você viu na vida?

Não saberia responder, porque não conseguiria também apontar o melhor.

10 séries que viraram surto coletivo no feed, família e vizinhos

Existem algumas séries que realmente fazem a cabeça de todos nós, a ponto de aguardamos ansiosamente a chegada do próximo episódio – e, depois, de novas temporadas. Essas obras geralmente geram muito burburinho nas redes sociais e também nos grupos de nossos contatos mais próximos. Para você que gosta de se jogar em uma boa história, segue abaixo uma lista poderosa de séries maravilhosas:

 

O Cavaleiro dos Sete Reinos (HBO MAX)

Ambientada 100 anos antes de tudo que acontece em Game of Thrones, este novo seriado da HBO MAX apresenta a história de Duncan, o Alto, um cavaleiro que, acaba conhecendo por acaso um futuro grande amigo — e também seu escudeiro: Egg.

 

It: Bem-Vindos a Derry (HBO MAX)

Com um episódio piloto simplesmente brilhante e surpreendente, em It: Bem-Vindos a Derry, ambientado no início da década de 1960, acompanhamos uma série de situações sinistras que ocorrem na cidade de Derry, antes dos eventos de It: A Coisa.

 

Pluribus (Apple Tv)

Nessa nova série do criador de Breaking Bad, acompanhamos uma escritora de relevante sucesso que, durante uma noite, começa a perceber algo estranho acontecendo pelo mundo e precisa se adaptar a esse novo cenário.

 

Dark (Netflix)

Quando um grupo de jovens descobre uma situação suspeita vinda dentro de uma caverna na floresta da região, um deles some, dando início a uma saga que explora os sentimentos de perda ao limite, passando também pelo inusitado caso do tempo, fator importante e que vamos descobrimento melhor ao longo dos intensos 26 episódios, divididos em três temporadas absolutamente arrepiantes.

 

Dexter: Ressurreição (Paramount Plus)

Depois de sobreviver milagrosamente a um tiro dado pelo próprio filho na jornada anterior, Dexter (Michael C.Hall) parte rumo a uma nova Iorque que ele não conhece em busca de reestabelecer os laços com seu único herdeiro, Harrison (Jack Alcott). Nesse lugar, cheio de caminhos e reflexões, acaba batendo de frente com um clube de serial killers – um prato cheio pra quem gosta de fazer justiça com as próprias mãos.

 

Stranger Things (Netflix)

Submetida a experimentos por um cientista que a roubou de sua mãe, Eleven tem super poderes e pode controlar objetos com a mente. Ao longo das temporadas de Stranger Things vamos conhecendo melhor sua trajetória no passado, já rumando para um presente onde seus amigos precisarão de seus poderes para vencer o mal.

 

Adolescência (Netflix)

Minissérie visceral de quatro episódios que chegou na Netflix no início de 2025 nos apresenta um caso chocante de um menino de 13 anos acusado de matar uma outra jovem.

 

Fallout (Prime Video)

Na trama, bem à frente no futuro, conhecemos a Terra dizimada por ações nucleares. Para proteger alguns, os Estados Unidos junto a um grupo de empresas, principalmente a Vault- Tec , resolve criar refúgios subterrâneos. Assim, 200 anos depois do caos começar, conhecemos a jovem Lucy (Ella Purnell) que, após o lugar onde nasceu e foi criada ser atacado, resolve ir atrás dele e desbravar a superfície, um lugar onde nunca havia ido. A cada caminhada, uma nova descoberta. Assim, seu destino se cruza com Maximus (Aaron Moten), um sobrevivente de um dos ataques nucleares mais impactantes e o enigmático necrótico Cooper (Walton Goggins), esse último com um passado com vivas memórias do início do fim.

 

Paradise (Disney Plus)

Tudo ia bem numa comunidade perfeita de algumas milhares de pessoas, até que um dia o presidente Cal (James Marsden) é brutalmente assinado no seu quarto. Logo, Xavier (Sterling K. Brown), o responsável chefe por sua segurança, começa a juntar as peças desse quebra-cabeça que nos leva até a exposição de fatos surpreendentes que vão de encontro aos interesses de Sinatra (Julianne Nicholson), uma influente nas relações políticas. Se você acha que a trama se prende a isso, não ande por esse caminho. Ao final do primeiro episódio, entendemos um pouco do que é aquele lugar.

 

Ruptura (Apple Tv Plus)

Mark (Adam Scott) é funcionário de uma misteriosa empresa chamada Lumen e acaba de ser colocado como líder de uma equipe de funcionários que aceitou ser submetidos a uma situação onde suas memórias foram divididas entre o seu trabalho e sua vida fora dele. Basicamente, quando eles estão no trabalho, não lembram de nada do mundo fora dali; e quando estão em suas respectivas casas, não lembram de nada do trabalho. Até que um dia um ex-colega deles de trabalho, que conseguiu sair dessa situação, acaba fazendo contato com o Mark de fora do trabalho. A partir disso, o drama vira um misterioso labirinto de descobertas convergindo das duas realidades.

 

Crítica | Jogador Nº 1 – O retorno do melhor de Spielberg

A Fantástica Fábrica de Videogames

Jogador Nº 1 é diferente de tudo que você já viu. Bem, ou quase. É um filme revolucionário em seu conceito e efeitos (visuais estes comparáveis com a comoção de Avatar – de James Cameron), mas nem tanto em sua estrutura. O filme marca também a volta do diretor Steven Spielberg ao cinema que ajudou a criar – e quando digo sua volta a este tipo de filme, quero dizer o mesmo tipo de vigor que possuía nas décadas de 1970, 1990 e principalmente na de 1980 – quando se consolidou como um dos maiores nomes da indústria.

Para você, geração milênio, que não sentiu na pele o poder de Spielberg, não cresceu com esta atmosfera e apenas propaga conceitos errôneos sobre o cineasta – reflexo de certa burocracia pertinente a seus últimos trabalhos (digamos no fim da década passada e desta), é a chance de se redimir. Portanto, corra aos cinemas a partir deste fim de semana, deixe o cinema de Spielberg se assentar em toda sua magnitude e procure compreender um pouco a capacidade do diretor (que pouquíssimos possuem) de literalmente nos transportar para um mundo mágico, de fantasia, no qual conseguimos acreditar por duas horas no impossível.

Depois de certo hiato, Spielberg aparece disposto a se reinventar, e mostrar que ainda pulsa vontade em suas veias. Com The Post – A Guerra Secreta, e agora este Jogador Nº 1, o ícone demonstra um favorável ano de 2018 e faz crescer nossas expectativas para novos projetos, como há muito não sentíamos. Seu novo trabalho, voltado ao entretenimento, é tudo isso que você ouve falar por aí e talvez um pouco mais.

Na trama baseada no livro de Ernest Cline, o futuro não é nada promissor. Como diz uma rápida narração inicial, o ser humano desistiu de tentar resolver os problemas do mundo, e apenas sobrevive. A divisão de classes sociais continua gritante, e é neste cenário que conhecemos nosso protagonista Wade (Tye Sheridan), um jovem residente de uma favela do futuro, na qual trailers são empilhados como prédios precários. Logo na cena inicial, Spileberg se exibe, ao arquitetar um plano sequência que exala a direção de arte, o cenário, enquanto nosso herói desce de sua casa no alto da pilha e vemos seus vizinhos e outros moradores em suas casas desempenhando inúmeras tarefas. Todas, é claro, relacionadas ao tema do filme.

Neste cenário duro e caótico – que em partes se assemelha ao arquitetado por Neill Blomkamp em Elysium (2013) – o mundo está interligado por uma espécie de supergame/realidade virtual/rede social conhecida como OASIS. Tal conceito é revolucionário e até mesmo difícil de ser explicado. Basicamente é um mundo virtual onde muitos vão para escapar de suas realidades sofridas, outros partem atrás de sucesso financeiro, por exemplo, já que suas conquistas por lá refletem no mundo real. E aí adentramos dois outros quesitos, mas vale dizer que o longa funciona muito bem por conta própria e que seu insight em tal universo é tão forte e bem desenvolvido que pode ser dito ser sua melhor qualidade. Mais uma vez uso a comparação com Avatar (2009), no sentido de detalhadamente explorar cada quesito de um admirável mundo novo, sem que sobre muitas pontas soltas.

Agora vamos aos itens mencionados acima. O primeiro é o fator A Fantástica Fábrica de Chocolate (1971). É impossível deixar de notar semelhanças no argumento de Cline em relação à obra clássica de Roald Dahl. Assim como o excêntrico Willy Wonka, o criador do OASIS, Halliday (Mark Rylance), deixa pistas em seus jogos, os famosos easter eggs (ou ovos de Páscoa) – que coincidem perfeitamente com o feriado de lançamento do filme – e que bem poderiam ser o bilhete dourado nos chocolates da fábrica Wonka – para um felizardo que irá ganhar fortuna com seu legado.

O segundo fator é a orgia 80´s na qual se traduz Jogador Nº 1. Esse filme foi feito para mim e todos os meus iguais. Mais do que fã de quadrinhos, mais do que qualquer outra determinação nerd, me considero um aficionado por tudo 80´s, seja as músicas, séries, filmes e todo e qualquer item da cultura pop da época. E o filme transpira isso em cada centímetro de sua tela. Cultura 80´s em sua mais magnânima forma. É quase uma festa ploc em versão cinematográfica. Acredite. E são inúmeras as referências, ao ponto de ser impossível captar todas até mesmo numa terceira vez assistindo ao filme, para se ter uma ideia. Este fator, no entanto, se encaixa mais como a cereja no bolo. É o momento mágico de Spielberg nos pegando reféns pela nostalgia. Mexendo com nossos sentimentos juvenis, e nos fazendo voltar a ser criança. Existe toda uma sequência na qual os personagens literalmente adentram um clássico do cinema de terror que é de tirar o fôlego. É impressionante e extasiante.

As cenas de ação acertam porque Spielberg sabe determinar as regras, debate-las na mesa e depois entrega-las. Não as vai inventando ou modificando conforme passa o tempo. E esse é o segredo do sucesso de Jogador Nº 1, que consegue constantemente nos surpreender e se superar a cada nova cena. Mesmo para os não iniciados no universo dos videogames de última geração, como este cinéfilo que vos fala, os momentos voltados a eles são especiais. O que é a sequência da corrida!? Posso dizer que há muito tempo um filme não conseguia me imergir em seu universo, ao ponto de esquecer estar assistindo a um filme e colar os olhos na tela, tamanha a interatividade e conexão. E dizer isso hoje em dia, é dizer muito, já que vivemos numa era na qual a cada fim de semana produções recheadas de efeitos visuais (a maioria sem alma) lotam as salas de cinema.

Jogador Nº 1 tem um pouco de tudo para agradar a todos. Também fala sério e se apropria do cerne da ficção científica, ou seja, falar do hoje através dos olhos do futuro. Imaginar os avanços e o caminho para onde iremos em breve. Aqui, o mundo virtual interligado, que distancia as pessoas no mundo real. Falando assim parece mensagem datada, o resultado, no entanto, se mostra mais urgente e necessário de que nunca, revelando um Spielberg antenado com a geração atual e longe de obsoleto. É como se através de uma máquina do tempo, o diretor em sua fase dos 80´s ou 90´s fosse transportado para a época atual com aquela mentalidade, mas com os recursos de hoje. Jogador Nº 1 é o filme que o jovem Spielberg faria, sem qualquer contaminação do Spielberg septuagenário. É o casamento perfeito entre nostalgia e modernidade. E o desejo é apenas de que este grande mestre permaneça jovem para nos presentear com cápsulas do tempo em nossos corações como esta.

Lembra? 11 Filmes dos Anos 90 que FLOPARAM e foram detonados pelo público…

Esse ano, uma nova leva de grandes filmes do cinema adicionam mais uma década a suas trajetórias comemorando 30 anos de suas estreias. Produções famosas e ainda muito queridas do grande público, consideradas atemporais e imortais. Filmes como Cães de AluguelOs ImperdoáveisAladdinEsqueceram de Mim 2Batman – O RetornoPerfume de MulherO Guarda-CostasQuestão de Honra, Instinto Selvagem e Drácula de Bram Stoker. Isso, é claro, só para citar os principais. Mas a verdade é que em um ano, onde mais de uma centena de produções são lançadas, os que ficam verdadeiramente para a eternidade são apenas um punhado.

Os cinéfilos podem até se aprofundar um pouco mais (afinal assistir a filmes é o resumo de suas vidas), porém, em relação ao grande público nem tudo fica memorável. Afinal, quantos já ouviram falar ou lembram de filmes como Meu Primo VinnyO Sucesso a Qualquer PreçoHomens Brancos Não Sabem EnterrarO Homem da CalifórniaLua de Fel e O Jogador – todos filmes lançados no mesmo ano citado e relevantes na época, mas que terminaram caindo no esquecimento.

A verdade é que mesmo com todo elogio possível da crítica, ou desprezo, é o público quem dita o que fará sucesso, o que será esquecido e, variando as gerações, o que será redescoberto. Assim, nesta nova matéria dupla, a proposta é justamente averiguar quais dentre os clássicos do cinema que completam 30 anos em 2022, o grande público abraçou de vez e quais ele decidiu execrar. Começaremos com a parte de baixo da lista, com os clássicos mais detonados pelos fãs. Confira.

Leia também: Os Clássicos do Cinema que Completam 40 anos em 2022 – Mais DETONADOS pelo Público

11. Cemitério Maldito 2

O primeiro Cemitério Maldito (1989) marcou uma geração de fãs de terror, mesmo sem ser considerado uma das melhores adaptações de um livro do mestre Stephen King. Mesmo assim, grande parte do público segue preferindo esta primeira versão à sua refilmagem, lançada 30 anos depois. Pior que ambas as versões, na opinião dos fãs, só mesmo essa continuação do original, tirada não sei de onde. A verdade é que King jamais escreveu uma sequência para seu livro, e a Paramount visando capitalizar em cima do sucesso do longa de 89, tirou da cartola uma continuação que nada tinha a ver com o autor. Quem impulsiona o projeto protagonizando é Edward Furlong que, então um menino, havia saído no ano anterior do fenômeno O Exterminador do Futuro 2.

10. Querida Estiquei o Bebê

Por falar em Disney, nem sempre o estúdio do Mickey acerta. Ou erra querendo continuar uma história que não necessitava. É o caso com esta sequência do adorado Querida, Encolhi as Crianças (1989). O filme original capturou a imaginação de todas as crianças da época, seja pelo uso de efeitos visuais impressionantes para o período, seja pela história criativa de um pai inventor que termina acidentalmente diminuindo a um tamanho menor que o de uma formiga os próprios filhos e os filhos do vizinho. Três anos depois, o estúdio quis tirar mais dinheiro dessa possibilidade, criando uma história que fala sobre o aumento descomunal de tamanho do novo bebê da família agora. Não teve a mesma pegada ou carisma do original, terminando esquecido por metade dos fãs, e odiado pela outra metade. Em breve, um novo episódio desta franquia sairá do forno, com Josh Gad protagonizando.

09. Cool World: Mundo Proibido

Após o sucesso do fenomenal Uma Cilada para Roger Rabbit (1988), um verdadeiro marco não apenas nos efeitos visuais, como também de acordos entre estúdios, a Paramount Pictures (ela de novo) almejava replicar o feito da Disney em sua própria casa. Para isso, o estúdio resolveu apostar numa produção que igualmente mesclasse animação com o live-action de atores reais. Gabriel Byrne protagonizaria como um chargista que se apaixona por sua própria criação, um pecado em forma de mulher, nas formas de Kim Basginer. E a trama contaria até mesmo como um “policial humano colocando os desenhos na linha”, vivido por um Brad Pitt em início de carreira. Na empreitada servindo a animação e comandando a obra, o especialista Ralph Bakshi – criador do Gato Fritz -, com seu estilo subversivo. O resultado é uma bagunça afetuosa.

08. O Cão de Guarda

O astro Jack Nicholson é um dos maiores nomes de Hollywood, e um dos intérpretes mais celebrados da história do cinema. O ator carrega verdadeiros clássicos irretocáveis e muito adorados em sua filmografia, obras como Chinatown, Um Estranho no Ninho e O Iluminado, por exemplo. Mas quando falamos da parte do fundo do poço em sua carreira, muitos irão citar, sem titubear, um filme que o ator lançou há exatos 30 anos no passado. Falamos de O Cão de Guarda (Man Trouble), no qual ele vive um trambiqueiro treinador de cães de guarda, iniciando um relacionamento conturbado com sua mais nova cliente, papel de Ellen Barkin.

07. Corpo em Evidência

Madonna é definitivamente uma das maiores cantoras pop que já passaram por esse nosso planeta. Mas se na música, ela é uma verdadeira primeira-dama, no cinema as coisas são um pouco diferentes para a carreira da moça (agora senhora). Muitos artistas da música resolvem arriscar e investir também na carreira de atores. E foi exatamente o que fez a material girl, que inclusive já arriscou na direção de longas. E se na década de 80, ela basicamente reprisou nas telonas seu jeitinho amalucado de modelo da MTV, na década seguinte Madonna ousava ainda mais. Primeiro, com o documentário sem papas na língua ou pudor, Na Cama com Madonna (1991), e há 30 anos, ela estrelava seu próprio thriller erótico. Muitos não conseguiram evitar as comparações com Instinto Selvagem, e bem, é exatamente isso que Corpo em Evidência é: um clone barato e sem vergonha do filme de Sharon Stone.

06. Cristóvão Colombo: A Aventura do Descobrimento

Sabe aqueles filmes épicos que se tornam atemporais, representando um feito histórico impressionante, realizado pelo homem. Pois bem, esse era o plano para este longa aventureiro sobre o explorador que dá nome ao filme. Mas o resultado não foi bem o planejado. Com distribuição da Warner, história de Mario Puzo (O Poderoso Chefão), direção de John Glen (dos últimos filmes de Roger Moore como 007 e os dois com Timothy Dalton) e gente graúda como Marlon Brando no elenco, o objetivo era transformar Cristóvão Colombo numa obra inesquecível, cujo prestígio chegaria diretamente nas premiações do cinema e no Oscar. Bem, tudo o que o projeto conseguiu foi chegar rapidinho no Framboesa de Ouro – sem conseguir ser levado a sério pelos críticos, terminou rapidamente esquecido, caindo na obscuridade.

05. Pare! Senão Mamãe Atira

Provando que o grande público não pode ser enganado, e sabe reconhecer a qualidade – ou a falta dela -, este veículo para o astro Sylvester Stallone é considerado o ponto baixo definitivo em sua carreira. E é o próprio quem afirma isto. E olha que por mais que adoremos o ator, sabemos que ele tem alguns fiascos em seu repertório. Stallone não tem pudores de revelar em entrevistas que foi trapaceado a fazer o longa, tudo porque seu maior rival da época, Arnold Schwarzenegger, mandou espalhar um boato que estava louco para protagonizar o filme, e que caso Stallone não fizesse, ele pegaria a vaga. Achando que estava roubando o doce da boca do austríaco, Sly foi com sede ao pote. Mas quem riu por último foi o ex-Governator. A trama é basicamente o tira durão (Sly) precisando lidar com sua mãe intrometida e amalucada (Estelle Getty).

04. Crimes de Amor

Suspense de quinta categoria, este Crimes de Amor tinha como meta capitalizar em cima de figura sádica do ator Patrick Bergin, conquistada no ano anterior graças ao sucesso Dormindo com o Inimigo – com Julia Roberts. Aqui, o ator interpreta outro tipo de sádico psicótico, que não inferniza apenas a vida de sua esposa, mas sim a de várias mulheres. No filme, ele vive um predador sexual, que se protege devido a diversas brechas na lei em casos assim – ainda mais naquela época. Em seu encalço está uma promotora interpretada por Sean Young (de Blade Runner e Sem Saída). O filme foi massacrado, mas os anúncios enalteciam a fama que ambos os atores possuíam… no mercado de vídeo da época! – o que não deixa de ser curioso.

03. Criaturas 4

O primeiro Criaturas (1986) chegou pegando clara carona no sucesso absurdo que Gremlins havia feito dois anos antes. Ambos os filmes contavam com criaturinhas que à primeira vista são engraçadinhas e aparentam ser inofensivas. Mas basta uma segunda olhada para perceber se tratar de seres extremamente mortíferos. Esses aqui vindos diretamente do espaço. O primeiro longa era uma ficção com clima totalmente B, que não se levava muito a sério. A primeira continuação foi lançada ainda na década de 1980. No terceiro filme, tínhamos ninguém menos que um jovem Leonardo DiCaprio protagonizando, no longa lançado em 1991. Nesse quarto, a trama era movida inteiramente para o espaço, e a produção marcava um dos primeiros trabalhos de destaque da atriz Angela Bassett.

02. Confusão em Dobro

Nos anos 80 e 90, fortões como Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger reinaram no cinema de ação. Abaixo deles, outros nomes bastante lembrados pelos fãs, como Jean-Claude Van Damme, Steven Seagal, Dolph Lundgren e Chuck Norris, por exemplo. Temos ainda a lista do fundo do poço, de atores que foram varridos para debaixo do tapete com os anos, vide Michael Dudikoff e Brian Bosworth. Mas sempre existe algo que se encontra abaixo do fundo do poço. E este é o caso com os gêmeos grandalhões Peter Paul e David Paul, que estrelaram filmes como Os Bárbaros (1987), Pense Grande (1989) e Duas Babás Nada Perfeitas (1994). Nesta tosqueira, a dupla vive policiais tentando desmantelar uma quadrilha de tráfico de diamantes.

01. Águia de Aço III: Ases do Céu

O primeiro Águia de Aço (1986) ficou eternizado como cópia mais ilustre do sucesso Top Gun – embora tenha sido lançado antes, se encaixando mais como filme “gêmeo” do longa de Tom Cruise. Mas se Top Gun ganhou continuação apenas esse ano, Águia de Aço saiu na frente e lançou sua primeira continuação ainda na década de 80 (em 1988). Há 30 anos estreava o terceiro filme – que só não é considerado pior do que o quarto da franquia, que ainda viria em 1995. Todos fazendo uso do protagonismo do vencedor do Oscar Louis Gossett Jr. Neste terceiro longa, a proposta era por uma personagem principal feminina, a que o personagem de Gossett apadrinharia desta vez. E ela era interpretada pela musculosa Rachel McLish.

Crítica | Migliaccio, o Brasileiro em Cena – Documentário sobre um dos grandes artistas brasileiros

O homem que sempre sonhou em ser John Wayne. Dono de interpretações inesquecíveis como Seu Chalita e Xerife, que percorreu o início do Cinema Novo (movimento nas décadas de 60 e 70 em nosso cinema revelando pela arte as desigualdades e questões sociais da sociedade brasileira), um dos filhos de uma família de onze irmãos, o ator, produtor, diretor e roteirista Flávio Migliaccio foi um dos grandes nomes da Tv, do Teatro e do Cinema no Brasil. Co-Produzido por Globo Filmes, GloboNews e Canal Brasil em Migliaccio, o Brasileiro em Cena acompanhamos algumas de suas histórias e partes de seu caminho, do seu início vindo de uma família humilde até virar um dos rostos mais conhecidos pelo seu trabalho. Dirigido pelo trio: Alexandre RochaMarcelo Pedrazzi e João Mariano (Tuco).

Com estreia marcada para o dia 8 de julho nos cinemas brasileiros, o documentário busca de maneira mais profunda possível passar o modo de pensar e histórias da carreira de um artista muito criativo que conquistou o Brasil contando histórias próximas da realidade de muitos. Sempre em busca da importância de se comunicar com seu público através de sua arte, Flávio Migliaccio, um ótimo contador de histórias, através de entrevistas em algumas fases de sua vida, vamos começando a entender essa personalidade do universo das artes do Brasil.

Seu primeiro emprego foi de engraxate, mas seu pai queria mesmo que ele fosse barbeiro. A descoberta do teatro profissional, do descobrir a vida através daquela realidade veio nos tempos de Teatro Arena em São Paulo. A partir daí, nunca mais pensou em ter outra profissão na vida, conheceu nomes importantes para a cena teatral e do cinema como Leon Hirszman Gianfrancesco Guarnieri. No cinema, seu primeiro trabalho foi Cinco Vezes Favela (1962), onde inclusive escreveu um dos episódios, foi assistente de direção e fez um dos papéis no curta dirigido por Marcos Farias. Havia um paralelo entre todos os rumos de seu trabalho e o Cinema Novo assim embarcando de corpo e alma no mundo mágico do cinema.

Em papos descontraídos, Migliaccio, o Brasileiro em Cena daria até um filme mais amplo, muitas histórias devem ter ficado pelo caminho. Sabemos mais sobre bastidores de filmes do artista, de teatros, sobre os lados da fama, sua visão sobre a arte e seu poder, da própria história brasileira como o incêndio no prédio da UNE nos anos 60 durante a Ditadura Militar. O artista nos deixou em maio do ano de 2020 e estará para sempre na história do teatro, tv e cinema do Brasil.

Crítica | ‘Dupla Perigosa’ – Um competente filme de ação tragicômico

Ultimamente – leia-se os últimos anos – tem sido difícil a vida de quem ama bons filmes de ação, frequentemente se decepcionando com o ‘mais do mesmo’ presente na maioria dos lançamentos do gênero. Talvez por isso, quando uma obra busca um mínimo que seja de risco, já ganha nossa atenção. Isso acontece com Dupla Perigosa, novo lançamento do Prime Video.

Cheio daquelas ‘mentirinhas’ que todo mundo que ama o entretenimento pipoca gosta, mesmo com muitos exageros, o filme protagonizado pelos mundialmente conhecidos Dave Bautista e Jason Momoa, busca romper algumas camadas dentro de uma dinâmica familiar marcada por um passado conflituoso e o distanciamento. O projeto é dirigido pelo porto riquinho Angel Manuel Soto (Besouro Azul) com roteiro assinado por Jonathan Tropper, cocriador das ótimas séries Banshee e Seus Amigos e Vizinhos.

James (Dave Bautista) é um oficial da marinha norte-americana, pai carinhoso e marido dedicado, que vive seus dias com a família no Havaí, onde nasceu e foi criado. Sua rotina de paz e tranquilidade muda completamente quando seu pai, um detetive experiente, morre atropelado – em circunstâncias suspeitas. A partir daí, volta à sua vida seu irmão Jonny (Jason Momoa), um policial suspenso, sem rumo, e quase perdendo sua namorada brasileira, Valentina (Morena Baccarin). Assim, esses dois irmãos completamente diferentes precisam encontrar soluções para toda uma conspiração que se forma ao redor deles.

Em meio a cenas de ação bem executadas – e desenfreadas -, há algumas pausas para o drama familiar. Mesmo adotando um decepcionante leque de exageros quando pensamos em conveniências de roteiro, a narrativa revela um equilíbrio que faz as pouco mais de duas horas de projeção passarem rápido, com certa atenção do público. Há também algumas surpreendentes referências, como em uma cena onde percebemos uma homenagem ao clássico sul-coreano Oldboy – numa sequência de ‘um contra muitos’ em um corredor apertado, com machadinha e tudo.

Passando por uma investigação conturbada, que envolve até membros da Yakuza, milionários encrenqueiros e corrupção política, caminhamos pela violência de forma direta, com o equilíbrio de tensão com humor  – com direito a braço arrancado e muito mais -, ao mesmo tempo que abre, aos poucos, espaço para reflexões sobre laços afetivos fragilizados, que precisam abruptamente lidar com traumas, heranças emocionais e resoluções de conflitos.

Com um sugestivo espaço para continuação apresentado em seu desfecho, Dupla Perigosa busca se justificar como o início de uma franquia, com dois fortes nomes como protagonistas, que parecem ter muito mais a entregar.