VELOZES, FURIOSOS E RIVAIS

O que constitui um bom filme? A resposta imediata seria uma boa história a ser contada, e bons personagens, e com isso digo personagens bem desenvolvidos. Em segundo viriam bons diálogos e cenas memoráveis. Rush – No Limite da Emoção, novo filme do prestigiado diretor americano Ron Howard (Uma Mente Brilhante) possui todos os itens citados acima, e mais os outros adendos de uma grande obra, como fotografia, trilha sonora, direção de arte, maquiagem, etc.. Itens esses que farão o público tirar o chapéu para um dos melhores filmes de 2013.

É muito bom para quem assiste a muitos filmes receber um presente como Rush, que reforça a nossa paixão pela sétima arte. Temos que passar por uma verdadeira provação até o fim de cada ano, precisando encarar filmes horrendos, que nos fazem questionar nosso amor pelo cinema. Mas a cada fim de ano (geralmente por volta de setembro) as preciosidades começam a aparecer. E para quem ama cinema e faz disso a sua vida, assistir a um filme como Rush é como renovar os votos de casamento.

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Garantido de indicações em época de premiações, Rush usa como pano de fundo o universo das corridas de fórmula 1, para contar a história real da rivalidade entre os pilotos Niki Lauda e James Hunt, durante a década de 1970. Mas engana-se quem pensa que Rush é só mais um filme de esporte formulaico. Assim como os grandes filmes de qualquer gênero, Rush prefere gastar seu tempo desenvolvendo seus personagens à perfeição, para que ao lado deles entremos nessa jornada, e entendamos as perspectivas dos dois.

Rush também marca as pazes do irregular Howard com o sucesso. O cineasta entrega um filme digno de seus melhores, vide Frost/Nixon e o citado Uma Mente Brilhante. Na trama, o alemão Lauda e o britânico Hunt são pilotos que escalam da depreciada fórmula 3, para a consagração máxima como corredores membros da elite, e superastros na fórmula 1. O que trazem consigo desde o início além do talento é a grande rivalidade entre eles, que com o tempo só faz aumentar.

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Suas personalidades não poderiam ser mais opostas, condizendo com todo o resto que cerca indivíduos tão diferentes e iguais ao mesmo tempo. Enquanto Hunt se aproveita da aparência, fama e sim do talento também, para viver como uma verdadeira estrela do rock; o visualmente peculiar Lauda é ambicioso o suficiente, astuto e obstinado para estar sempre a um passo na frente. A personalidade centrada de Lauda, e sua incapacidade de se divertir custavam-lhe a socialização necessária para ser mais influente, e não receber adjetivos como o de cretino.

Parte das qualidades citadas no início do texto são trazidas pelo roteirista do filme, o britânico Peter Morgan. Duas vezes indicado ao Oscar (por Frost/Nixon e A Rainha), Morgan cria tudo o que é necessário para termos um grande filme. Sua capacidade como contador de histórias, que conseguem nos envolver, é admirável. Morgan cria a ambiguidade necessária para em momento algum apontar vilões e mocinhos.

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Ele ao mesmo tempo coloca todas as cartas na mesa em relação aos dois protagonistas, para que tiremos nossas próprias conclusões. E filmes sem respostas fáceis são sempre muito mais interessantes. A rivalidade entre os protagonistas encontra também muita humanidade na maioria das cenas. Esses são seres humanos que nos conquistam duplamente pelas suas qualidades e defeitos. Rush também pode ser considerado um grande filme entretenimento, que não irá desapontar a família que quiser ir junta ao cinema (apenas com uma cena ou outra mais intensa).

A maquiagem é perfeita, em cenas que mostram o resultado de um acidente envolvendo queimaduras no hospital, são de grande agonia. Os atores igualmente merecem os louros. O espanhol fluente em alemão Daniel Brühl (Adeus, Lênin! e Bastardos Inglórios) finalmente terá seu talento reconhecido como um dos melhores jovens atores de sua geração. O ator multilíngue cria um Niki Lauda memorável e muito especial. Seu trabalho aqui é fantástico.

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E para os descrentes que achavam que Chris Hemsworth (Os Vingadores) seria para sempre apenas o Thor, uma boa notícia: existe um ator por baixo do super-herói. Rush marca o primeiro filme sério, e papel maduro do ator australiano, que esquece o trejeito do personagem nórdico da Marvel para se entregar aos vícios e inseguranças de um sujeito aparentemente imbatível na superfície. Acima de tudo Rush chega num ano de tantas cinebiografias recentes (como Jobs e Lovelace) para ensinar que um grande filme precisa sair da zona de apenas relatar os fatos, afinal cinema é magia.


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