Vida longa a Denis Villeneuve! O cineasta franco-canadense conquistou o coração dos cinéfilos e em pouco tempo se posicionou no topo da cadeia alimentar de Hollywood, misturando dramas reflexivos e filosóficos de arte (vide Incêndios e O Homem Duplicado), thrillers de conteúdo pra lá de nervosos (Os Suspeitos e Sicário) e, claro, o gênero que tem se tornado sua especialidade: a ficção científica, na qual destacam-se suas últimas obras A Chegada e Blade Runner 2049. Seus filmes mesclam cinema autoral, elementos artísticos exuberantes com o entretenimento escapista. Podemos dizer que ele faz filmes à moda antiga – e em breve, Villeneuve lançará Duna.

E o que é Duna, você pergunta. Bem, Duna é uma história de ficção científica clássica, que chegou ao mundo na forma de um livro do autor norte-americano Frank Herbert, publicado originalmente em 1965, e ganhador de prêmios. Além da novíssima versão de Villeneuve prometida ainda para este ano, Duna foi adaptado outras vezes como minisséries em 2000 e 2003, e gerou até mesmo outros romances; mas aqui iremos nos concentrar na superprodução lançada em 1984, e dirigida por ninguém menos do que David Lynch – em sua investida mais ambiciosa no cinema.

Sabe estas obras de outras mídias tidas como inadaptáveis ao cinema. Pois bem, assim como Watchmen (de Alan Moore), por exemplo, Duna foi durante muito tempo uma destas. Seu desenvolvimento ocorreu durante seis anos, e viu diversos cineastas ligados ao projeto – mais notavelmente o chileno Alejandro Jodorowsky (Santa Sangre), dono de uma filmografia peculiar, e cujo envolvimento no projeto virou tema de um documentário premiado por festivais em 2013. Foi um dos mais notórios casos do filme que “quase foi”. Outro grande nome que por pouco não assumiu a cadeira de direção foi Ridley Scott – precisando se ausentar devido ao falecimento de seu irmão mais velho na época, e optando pelo mais acessível no momento, Blade Runner (1982).

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Assim, a direção desta ambiciosa ópera espacial terminou nas mãos de David Lynch, hoje celebrado por suas esquisitices – vide Twin Peaks -, mas na época um jovem cineasta dono de apenas dois longas em seu currículo. Bem, dois longas bem impressionantes e festejados. O primeiro, um pesadelo psicodélico em forma de filme chamado Eraserhead (1977), bem nos moldes do que viria a ser a carreira do abstrato realizador; e o segundo, O Homem Elefante (1980) que, embora faça uso de um tema de difícil digestão: a história real de um homem incrivelmente deformado, foi indicado para 8 Oscar, incluindo melhor filme, e é considerado um dos melhores de todos os tempos na opinião do grande público. Certamente foi o que conseguiu para Lynch a vaga neste novo trabalho.

Muita gente se decepciona com Duna (1984) ao perceber que ele não é um dos filhotes de Star Wars da época. Muitos, inclusive, creditam seu fracasso ao fato. Duna estreou no ano seguinte do fim da trilogia de George Lucas, com O Retorno de Jedi chegando aos cinemas em 1983. Duna também fala sobre viagens espaciais, planetas distantes habitados por seres humanoides, criaturas monstruosas e aventuras épicas. A interseção não para por aí, já que antes de Duna, David Lynch foi convidado pelo próprio Lucas para a direção de O Retorno de Jedi – ao que o cineasta deu como resposta: “Este é o seu lance, não é o meu lance”, optando por algo mais, digamos, único. Típico Lynch.

Com distribuição da Universal e roteiro do próprio diretor, o longa tem produção do icônico italiano Dino De Laurentiis e sua filha Raffaella De Laurentiis, e contou com um orçamento de US$40 milhões – um valor astronômico para o período. Comparando, O Império Contra-Ataca foi feito pela quantia de US$18 milhões em 1980, e no ano anterior, O Retorno de Jedi havia sido produzido pela soma de US$32.500 milhões. Ao revisitarmos Duna (1984), podemos notar os efeitos datados, porém, a magnitude da produção e seus cenários grandiosos permanecem indiscutíveis. O investimento nesta obra ocupou três anos da vida de David Lynch voltados somente para Duna, e sua confecção foi abrigada em seis enormes estúdios para os colossais sets.

E sim, não podemos evitar de declarar Duna (1984) como um fracasso – tanto de crítica quanto de público. É triste quando tanta dedicação não vê o retorno planejado. É claro que com o passar dos anos, o filme foi reencontrado como item cult e segue conquistando mais e mais apreciadores. No entanto, fato é que em seu lançamento nas salas de cinema, Duna viu de volta apenas US$30.9 milhões, falhando inclusive em se pagar. A obra literária “inadaptável” ao cinema se mostrou justamente isso, e cobrou um preço muito alto do dono desta imaginação audiovisual. Lynch considera Duna seu único fracasso na carreira. O diretor se recusa a falar da produção em detalhes e inclusive já declinou ofertas de reeditar o filme à sua maneira, dando aos fãs uma edição definitiva do diretor – já que muito do fracasso é credito a interferências dos executivos e produtores. Segundo Lynch, seria uma experiência insuportavelmente dolorosa revisitar esta universo. Duna “venceu” como pior filme na “premiação” Stinker Bad Movie Awards, o primo pobre do Framboesa de Ouro. Porém, foi indicado ao Oscar de melhor som.

Duna (1984) ainda é considerado um filme muito confuso, devido à sua trama complexa e excesso de personagens – mesmo contando com um tempo de exibição de 2 horas e 17 minutos. Na época de seu lançamento nos cinemas, encartes situando o espectador neste universo e seus personagens eram distribuídos para o público não ficar perdido. A narrativa até utiliza uma personagem cujo único propósito parece ser explicar este mundo para o espectador. A princesa Irulan, papel de Virginia Madsen (Candyman), pouco aparece, mas na abertura do filme é vista em close narrando o que é esta história que estamos prestes a adentrar. A personagem, ao que tudo indica, ficará de fora da nova versão em 2020. Fora isso, a trama é pura ficção científica raiz, e o filme possui ritmo lento, fazendo uso de pouca ação – no fundo está mais para Star Trek (Jornada nas Estrelas) do que para Star Wars (Guerra nas Estrelas). A melhor forma de definir Duna para os padrões atuais é como um Game of Thrones espacial. Temos os clãs (famílias) dividindo os territórios/ planetas, jogos de intrigas visando o trono, muitos “jogadores”, traições e reviravoltas.

O protagonista é Paul Atreides, vivido pelo ator fetiche de Lynch, Kyle MacLachlan, astro da série Twin Peaks. Na nova versão ele será interpretado pelo indicado ao Oscar Timothée Chalamet. Paul é o John Snow da vez, filho de um clã próspero, cujo patriarca é traído e assassinado, e que vê sua família cair em desgraça precisando se reerguer. Ele também irá se descobrir “o escolhido”, dono de poderes sobrenaturais (como a manipulação mental de outros através da voz, já que sua mãe faz parte de um covil de “bruxas”, uma espécie que treina e desenvolve tais dons), que trará equilíbrio ao universo. Aqui, tudo gira em torno de uma especiaria capaz de conceder a seus usuários inúmeras capacidades sensitivas, como também viajar pelo tempo-espaço. Este produto é produzido num planeta-deserto conhecido como Duna, onde habitam gigantescos vermes monstruosos – clara inspiração às criaturas similares da comédia Os Fantasmas se Divertem (Beetlejuice, 1988), de Tim Burton, e O Ataque dos Vermes Malditos (1990).  Assim, diversos clãs se engalfinham para dominar tal especiaria, em conflitos com fortes subtextos políticos.

Dentre as principais peças desta trama temos os pais de Paul Atreides, Duque Leto Atreides e Lady Jessica, interpretados pelo alemão Jürgen Prochnow e pela britânica Francesca Annis. Na nova versão eles ganharão as formas do guatemalteca Oscar Isaac e da inglesa Rebecca Ferguson. O principal antagonista é o repugnante Barão Vladimir Harkonnen (cuja origem do nome russo não esconde a rivalidade da Guerra Fria trazida pelo autor), líder de uma nação que cultua enfermidades, vivido por Kenneth McMillan – que além de tudo possui fortes inclinações homoeróticas implícitas. No remake, ele terá as formas do sueco Stellan Skarsgard. O antagonista possui dois sobrinhos, funcionando como seus capangas: o grandalhão ‘A Fera’ Rabban (Paul L. Smith no antigo e Dave Bautista no novo) e a psicótico Feyd (Sting no antigo e ainda sem intérprete divulgado no novo – quem sabe o personagem tenha sido eliminado).

Finalizando os jogadores principais, temos o líder do povo rebelde em Duna, Stilgar (Everett McGill no original e Javier Bardem no remake), sua filha e interesse amoroso do protagonista Paul, Chani (Sean Young no original e Zendaya no remake), o homem de confiança do clã Atreides na linha de frente Duncan Idaho (Richard Jordan no original e Jason Momoa no remake) e Gurney Halleck, o mestre das armas no exército de Atraides (papel de Patrick Stewart no original e Josh Brolin no remake).

Com a proximidade da reimaginação de Duna pelas mãos de Denis Villeneuve, prometido para dezembro – se o corona vírus deixar – esta é a época ideal, aproveitando o isolamento social, para dar mais uma chance a este cult da década de 1980. Porém, é necessário ir de mente aberta, absorvendo todas as qualidades que um cineasta como David Lynch tem a oferecer numa empreitada destas. Corroborando com o argumento, a sorte sorri para os cinéfilos, já que Duna (1984) está presente no acervo da Amazon Prime Video para ser consumido de imediato. Boa viagem.

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