Ao longo de sua extensa carreira, Madonna se mostrou uma artista extremamente versátil e sempre atenta àquilo que insurgia no cenário mainstream e àquilo que se escondia nas sombras. Com pontuais erros desde sua ascensão ao estrelato em 1983, a rainha do pop remodelou-se não para seguir os padrões exigidos pela indústria do entretenimento, mas sim para desafiar a si mesma a buscar amadurecimentos necessários para não cair na mesmice. Não é surpresa que, depois de Like a Prayer, um dos álbuns mais importantes de todos os tempos, ela tenha alcançado um novo pico de superação com Ray of Light em 1998. A partir daí, certas colaborações pareceram falhar ou não explorar todo o potencial já apresentado pela artista, principalmente quando pensamos em American Life (uma desengonçada obra que diz menos do que pretende).

Dois anos mais tarde, Madonna fez o que ninguém esperava: retornou à forma. Com diversos veículos falando sobre o fim da veia artística da popstar, o público começava a duvidar de que a performer conseguiria resgatar as raízes que a colocaram no topo do mundo – mas foi exatamente o que ela fez. Em 2005, a cantora e compositora mergulhou de cabeça na nostalgia oitentista de seus primeiros anos com Confessions on a Dance Floor, seu CD mais bem produzido depois de Ray of Light. Aliando-se a Stuart Price (um conhecido nome da música contemporânea que, em 2020, trabalhou com Dua Lipa em uma das obras-primas do ano) e chamando novamente as ousadas mãos de Mirwais Ahmadzaï, as doze longas faixas se comprimem em um set dançante, vibrante, colorido e incansável que reitera o status imbatível de uma das mulheres mais poderosas de todos os tempos.


Como se não bastasse, a artista mantém sua humildade estilística ao trazer para cada track uma homenagem a seus ídolos – e também para resgatar certos aspectos que deixara no século passado. ‘Confessions’ é uma ode ao narcótico saudosismo das pistas de dança dos anos 1970 e 1980, incorporando elementos do disco, do dance e do new wave para um universo ao mesmo tempo ácido e envolvente, além de entregar algumas das melhores canções da década passada. O resultado acrescentou mais capítulos ao legado de Madonna e a colocou no centro dos holofotes, concedendo-lhe mais duas estatuetas e mais de dez milhões de cópias vendidas – e, levando em conta que números realmente não importam, o sucesso inesperado de seu décimo álbum de estúdio atravessa as gerações e permanece impactando a esfera musical até os dias de hoje.

Essa anacrônica joia abre do melhor jeito possível: “Hung Up” puxa os elementos do eurodance ao pegar samples da icônica banda sueca ABBA, falando de um amor incondicional que é movido por cada detalhe e cada camada cautelosamente pensada – oscilando desde o abafado baixo à conivência convidativa dos sintetizadores que impedem a faixa de se render à datação. Logo de cara, nota-se que a parceria entre Price e Madonna é exuberante e prolífica e que as inflexões imprimidas passam longe de transbordar ou de se reciclarem: a dupla parte numa jornada que vai para além da mera mercadologia, por mais que se assemelhe a tal; na verdade, o conceito comercial não pode ser desassociado, seja pela métrica dos versos, seja pelas progressões das músicas. No final das contas, isso não importa: queremos mais e mais, e poderíamos ficar ouvindo o álbum por horas a fio sem perceber.

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A performer tem um apreço inegável pelo nu-disco e pelo house, o que explica a atmosfera um tanto quanto dark de certas incursões. Temos o onirismo construtivo de “Get Together”, o minimalismo punk sintético de “Future Lovers” e as preferências orientais para a composição da desperdiçada “Isaac”, facilmente um dos vários pontos altos do álbum. São tantas as variedades de instrumentalizações e de sonoridades que se ramificam pelas faixas, que Madonna poderia facilmente se perder no tocante à produção; mas, como ela já nos provou diversas vezes, ela sabe como destinar cada nicho estético para seu momento de glória, deixando claro que nada passará batido e que, eventualmente, seus fãs terão uma experiência sensorial cativante o bastante.

A cantora parece não ter percepção dos cataclismas que cria – e é isso que revela a genialidade da obra. Em “Let It Will Be”, Madonna se volta para o épico orquestral ao deixar violinos e violoncelos guiarem um prólogo evocativo e analítico para uma derradeira rendição ao synth-dance; “Jump”, apesar da superficialidade lírica, ofusca os deslizes com impetuosidade apaixonante e um frenesi imagético que destrói os limites da música e cria uma narrativa sinestésica de tirar o fôlego; até mesmo a linearidade de “Future Lovers” e “Forbidden Love” é deixada de lado quando confrontada com uma arquitetura tão admiravelmente bem pensada. Ademais, a performer não deixa de seguir as tendências do dance trazidas por Kylie Minogue no início do século, como as progressões de Fever (2001) e de Light Years (2000).


Confessions on a Dance Floor é a prova que Madonna tem energia de sobre para se reinventar e se revolucionar em detrimento do que os outros dias. Ao lado de Like a Prayer e Ray of Light, a rainha do pop se mantém revitalizada pela terceira década seguida e, em um infeliz prospecto, entrega ao público sua última grande epopeia na música.

Nota por faixa:

  • Hung Up – 5/5
  • Get Together – 5/5
  • Sorry – 5/5
  • Future Lovers – 4/5
  • I Love New York – 4/5
  • Let It Will Be – 5/5
  • Forbidden Love – 4/5
  • Jump – 4,5/5
  • How High – 5/5
  • Isaac – 5/5
  • Push – 3,5/5
  • Like It or Not – 4/5
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