Hoje, dia 2 de agosto, no mesmo dia que nossos queridos colegas do CinePOP Rafa Gomes e Pedro Sobreiro fazem aniversário, os cinéfilos têm outro motivo para celebrar. Nascia também, algumas primaveras antes Wesley Earl Craven, um nome que viria a marcar para sempre a indústria do cinema, em especial o cinema de gênero (o terror no caso), sendo considerado um verdadeiro mestre em sua arte. É claro que falamos do saudoso Wes Craven, que completaria 82 anos hoje. O cineasta nos deixou em 2015, aos 76 anos de idade.

Além de muitos filmes queridos pelos fãs, que marcarão para sempre a sétima arte – como A Hora do Pesadelo (1984) e Pânico (1996), Craven também era roteirista, produtor e ator – tendo aparecido em alguns de seus filmes vivendo personagens importantes e até topado a brincadeira de aparecer nos filmes de colegas. Craven começou a carreira no início da década de 70 e acumulou 36 créditos como diretor, entre curtas, longas, filmes para a TV e séries de TV.

Como forma de comemorar o aniversário desta verdadeira lenda da sétima arte, topamos uma empreitada muito desafiadora. Iremos ranquear TODOS os filmes do diretor Wes Craven. Mas antes algumas regras. Aqui iremos contar apenas os filmes que dirigiu, os que produziu somente ficarão de fora. Além disso, também não contaremos com seus filmes produzidos diretamente para a TV (embora existam alguns), por serem produções mais obscuras, fugindo do conhecimento de muitos, inclusive de críticos. Apesar disso, na lista teremos nossa cota de produções desconhecidas do cineasta. Confira abaixo e comente quais seus favoritos. Ah sim, lembrando que a ordem é sempre do pior para o melhor.

20) Quadrilha de Sádicos 2 (1984)



Todos nós conhecemos bem o termo “caça-níquel”, que se refere no cinema a produções sem vergonha cujo único propósito de existir é surfar na onda de um filme que deu certo, sem acrescentar nada em retorno. Pois bem, o primeiro Quadrilha de Sádicos (The Hills Have Eyes, 1977) foi o segundo filme de Wes Craven um de seus primeiros grandes sucessos, contando a história de uma família de canibais deformados vivendo no deserto e atacando todos que por lá aparecem. Nesta continuação, escrita e dirigida por Craven, os azarados são um grupo de motoqueiros a caminho de uma corrida. E o pior, este filme foi lançado no mesmo ano de A Hora do Pesadelo. Em 2006, o original ganhou o remake intitulado Viagem Maldita, que por sua vez ganhou uma continuação logo no ano seguinte, em 2007.

19) A Sétima Alma (2010)

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O vilão Freddy Krueger foi tanto uma benção quanto uma maldição na carreira de Wes Craven. Isso porque sua criação foi tão icônica, com o personagem virando ícone da cultura pop, que o cineasta seguiu tentando reprisar seu sucesso em novas criações. E na maioria dos casos, falando solenemente. Foi o que ocorreu aqui, com o penúltimo filme da carreira de Wes Craven. Novamente escrito e dirigido pelo cineasta, a ideia aqui era criar um filme extremamente jovem e arrojado, no clima de Pânico, mas fazendo uso de elementos sobrenaturais. A trama falava de um grupo de adolescentes, todos nascidos na mesma data em que um famoso serial killer de sua cidade finalmente foi, teoricamente, morto. Anos depois o maníaco retorna e parece possuir um estranho elo com todos eles. O visual do assassino aqui não agradou, com a aparência de um “mendigo grandalhão”.

18) Um Vampiro no Brooklyn (1995)



Confesso a vocês que tenho um prazer muito culposo neste que é uma de muitas escorregadas de Wes Craven, o qual ele lançou no ano anterior de revigorar sua carreira com Pânico. A ideia por si só, mesmo não tendo funcionado muito, é pra lá de inusitada e só por isso já merece nossa atenção. Essa foi a mistura do mestre do terror Wes Craven, com o mestre do humor Eddie Murphy. Ambos estavam saindo de sua zona de conforto para tentar algo novo em suas carreiras. Craven molhava os pés na comédia e Murphy apostava no primeiro filme de terror de sua filmografia (e único). Grande homenagem ao cinema blaxploitation, em especial Blacula – O Vampiro Negro (1972), o filme foi escrito e protagonizado por Murphy no papel de um príncipe vampiro de uma ilha do Caribe.

17) Amaldiçoados (2005)

Já esse se encontra acima de qualquer redenção. Os problemas por trás desta produção se tornaram lendários (eu mesmo escrevi uma matéria sobre isso, confira abaixo). De fato, o filme soa todo remendado e inacabado. Essa era a tão aguardada reunião de Wes Craven com o roteirista Kevin Williamson, de Pânico, que não se encontravam num filme desde Pânico 2 (1997). A ideia era fazer pelo subgênero dos lobisomens, o que eles fizeram com os filmes de serial killers. Ou seja, um filme bem espertinho, dono de diálogos rápidos, muitas referências, personagens descolados e metalinguagem. Infelizmente, devido à constante interferência do estúdio, nada disso pode ser encontrado no produto final.

Amaldiçoados | Os 15 Anos do FLOP de Wes Craven e Kevin Williamson

16) Benção Mortal (1981)

Completando 40 anos em 2021, este foi o terceiro filme da carreira de Craven, que igualmente assina o roteiro. Aqui, o plano do cineasta era mostrar amadurecimento em suas tramas, explorando um lado mais questionador e crítico. Na história, o cineasta aborda uma seita religiosa que muito lembra os Amish. Porém, eles escondem terríveis segredos. Quem viu (e se traumatizou) o recente Midsommar já entende um pouco mais a proposta dos filmes de terror religiosos. Benção Mortal marcou também por ser um dos primeiros trabalhos da carreira de uma jovem e então desconhecida Sharon Stone.

15) A Maldição de Samantha (1986)



Clássico terror da TV aberta brasileira, este filme assustou muitas crianças que cresceram no fim dos anos 80 e início dos anos 90, em sua estreia e reprises noturnas. Afinal, quem não lembra da infame cena da cabeça e da bola de basquete (hoje resultando em muitas risadas por seu teor extremamente mambembe)? Em nada o filme mete medo nos adultos, mas naquela época… . Até mesmo Craven desdenhava do filme e de sua qualidade, digamos, duvidosa – dizendo estar passando por uma fase difícil de sua vida pessoal, com um divórcio na época. Na trama, um jovem inventor cria um robozinho com inteligência artificial, ao mesmo tempo em conhece e se apaixona por sua vizinha loirinha Samantha (Kristy Swanson). A menina é vítima de abuso doméstico e termina morrendo nas mãos do pai violento, somente para ser trazida de volta pelo amigo, como uma “zumbi-robô”. Vocês precisam ver isso, é sério!

14) Shocker – 100 Mil Volts de Terror (1989)

Mais um filme que sofreu com a pressão de criar um novo Freddy Krueger. Aqui, Horace Pinker é um serial killer que é morto, mas volta na forma de uma entidade para continuar assombrando a todos. Soa familiar? Novamente escrito por Craven, as diferenças são que Horace (Mitch Pileggi) é um assassino que trabalha consertando TVs (daí sua ligação com eletricidade). Ele possui um elo psíquico inexplicável com o jovem protagonista e após ser preso e condenado à cadeira elétrica, o sujeito retorna na forma de uma entidade movida à energia elétrica. Horace, ao contrário de Freddy, não tem uma aparência monstruosa, se mantendo em sua forma humana.

13) Pânico 3 (2000)

Pânico (1996) revolucionou os filmes slasher para a década de 90 e se tornou referência para tudo o que viria depois. Mas quando chegou ao seu terceiro exemplar, já em 2000, a fórmula parecia um tanto quanto desgastada. Junte a isso a entrada de um novo roteirista e diversos problemas na produção – que resultaram no mais irregular da franquia. Mesmo assim, Pânico 3 tem seus pontos positivos, como a grande brincadeira ácida ao submundo das celebridades de Hollywood. Este terceiro filme mergulha por completo nos bastidores de uma produção cinematográfica, assim como Craven havia feito anteriormente em O Novo Pesadelo (1994).


12) O Monstro do Pântano (1982)

Você sabia que muitos anos antes da série O Monstro do Pântano (2019), o diretor Wes Craven havia adaptado o obscuro personagem da DC para os cinemas? Esse foi o quarto filme do diretor, que desta vez optava por algo diferente em sua carreira, mas ainda mantendo o clima de terror que tanto gostava. A história era a mesma e mostrava um cientista sofrendo um grave acidente no pântano e se juntando com vida vegetal do lugar. No elenco, uma das musas do terror dos anos 80, Adrianne Barbeau, ex-mulher de John Carpenter. Embora não tenha sido sucesso na época, o longa se tornou cult.

11) Aniversário Macabro (1972)

Primeiro filme da carreira de Wes Craven, The Last House on the Left (no título original) é um filme experimental, muito realista e cru. Com seu ar amador, o filme se torna quase um documentário – e suas cenas de violência explícitas contra uma jovem mulher elevaram sua polêmica causando o filme a ser banido em diversos países. Muito criticado por seu teor fortíssimo, o filme gerou rapidamente a reputação de ser uma fita proibida. Em 2009, gerou uma refilmagem mais hollywoodiana, embora ainda intensa, da qual Craven foi produtor.

10) Pânico 4 (2011)

O último filme do saudoso Wes Craven, o diretor não poderia ter se despedido de forma melhor. Embora não tenha sido um sucesso unânime em sua época de lançamento – completando dez anos em 2021 – o quarto Pânico é muito querido pelos fãs e com o passar dos anos adquiriu ainda mais entusiastas. O longo espaço de tempo entre o três e o quatro pode ter desmotivado alguns, mas foi justamente o que o filme precisava para abordar temas presentes em nossa sociedade, em especial com a modernidade e os jovens. Uma grande vantagem foi a volta de Kevin Williamson no roteiro.

09) Quadrilha de Sádicos (1977)

O segundo Quadrilha de Sádicos pode ser considerado o pior filme de Wes Craven, mas o original figura dentre os melhores de sua carreira. Um passo além do que o diretor havia criado com o cru Aniversário Macabro, Quadrilha de Sádicos não era apenas um exercício em tortura, mas sim uma obra genuinamente assustadora, que acima de tudo discutia os males causados pela radiação ao criticar os testes nucleares nos desertos americanos. Que era o motivo da criação da família mutante que ataca uma família tipicamente americana perdida no deserto.

08) A Maldição dos Mortos Vivos (1988)

Outro clássico das exibições da TV aberta brasileira, o longa é um “filme sério” de terror de Wes Craven. Justamente por isso se tornou um cult muito querido, adentrando o top 10 dos filmes preferidos do cineasta. Baseado num livro que por sua vez aborda a crença da cultura vudu africana, onde segundo relatos do passado, medicamentos e poções eram capazes de trazer os mortos de volta à vida. Vem daí a lenda dos zumbis. Aqui, o protagonista é um antropólogo renomado (Bill Pullman) que decide investigar tal cultura viajando para o local e experimentando em primeira mão toda a loucura e insanidade.

07) As Criaturas Atrás das Paredes (1991)

Mais um filme muito cultuado do diretor, este longa completa 30 anos de lançamento em 2021. Aqui, Craven decide criar seu terror social, abordando entre outras coisas a luta de classes. Justamente por isso, um remake está sendo preparado por Jordan Peele. E podemos dizer que tem tudo a ver. Escrito por Craven, a trama apresenta um bairro do gueto onde um menino negro é aliciado para o crime com a proposta de invadir uma casa vazia. No local, o menino vive um pesadelo não apenas pelos donos (um casal de psicopatas) estarem no local, mas por esconderem uma legião de crianças deformadas no porão – as tais criaturas do título.

06) Música do Coração (1999)

Por falar em filmes inusitados na filmografia de Wes Craven, o mais diferente de seu acervo sem dúvidas é este Música do Coração. O longa teria outro diretor que desistiu, e assim Craven assumiu a missão de adaptar para as telonas este roteiro. Este, no entanto, não é um terror, um suspense, ou sequer uma fantasia. Trata-se de um drama sobre professoras de música ensinando crianças pobres de uma escola. Sim, sabemos que não tem nada a ver com o diretor. Mas o que podemos dizer é que se tornou seu filme mais prestigiado, já que além do trio de protagonistas Meryl Streep, Angela Bassett e Gloria Estefan, a produção recebeu indicações ao Oscar de música e, claro, atriz para Streep.

05) Voo Noturno (2005)

Protagonizado pela talentosa Rachel McAdams em sua escalada rumo ao estrelato, este é um dos poucos trabalhos de Craven que não foram escritos pelo próprio. Em compensação, seu comando à frente do longa cria um dos filmes mais gelados de sua carreira. Um suspense de primeira, com contornos políticos e de espionagem. O que parecia ser um voo tranquilo de madrugada para a personagem de McAdams, com um homem simpático e atraente ao seu lado (Cillian Murphy), desenvolve-se para um eletrizante jogo de gato e rato, quando o sujeito se mostra um psicopata.

04) Pânico 2 (1997)

Com o item acima havíamos chegado ao top 5 do diretor. E o filme que fica em quarta posição é a primeira sequência do querido Pânico. Essa continuação segue de perto o que foi criado no primeiro filme e para muitos conseguindo expandir a mitologia e elevar a proposta a novos níveis. De fato, a brincadeira aqui gira em torno das continuações, sendo ele mesmo uma. Muitos fãs da franquia chegam inclusive ao ponto de considerar Pânico 2 um filme melhor que o original. O que podemos dizer é que Craven, Williamson, os atores e todos os envolvidos realmente estavam inspirados.

03) O Novo Pesadelo (1994)

Dez anos depois de ter revolucionado o mundo do terror com A Hora do Pesadelo, a franquia caminhava sem Wes Craven e já havia gerado mais cinco filmes até o início dos anos 90. Assim, vendo sua criação ser usada e abusada durante anos, o diretor decidiu colocar ele mesmo a mão na massa e retornar ao universo para criar algo que iria revolucionar novamente. Assim, Craven iria criar um filme de terror único, que mistura ficção e realidade, filmes e vida real, personagens e atores. Ele trazia o mundo de A Hora do Pesadelo para atormentar os atores que trabalharam no filme original. De fato, O Novo Pesadelo serviu muito de escola para o que o diretor faria em Pânico (1996).

02) Pânico (1996)

Chegando para pegar sua medalha de prata, Pânico se tornaria um verdadeiro marco não apenas do cinema adolescente slasher, mas também do terror de forma geral. Na época, o roteirista Kevin Williamson mostrava realmente conhecer os jovens, suas gírias, pensamento e a forma como agiam. Pânico marcou uma geração com seu jeito extremamente descolado e repleto de referências a obras da cultura pop em geral. Podemos agradecer bastante ao roteirista Williamson e o que ele criou em sua carreira, seja aqui em Pânico ou na série Dawson’s Creek (1998), por tudo que temos hoje em matéria de personagens espertinhos que vivem citando filmes, séries, música e tudo que faz parte de seu universo.

01) A Hora do Pesadelo (1984)

Essa é uma tarefa ingratíssima. Escolher entre Pânico e A Hora do Pesadelo. Grande parte do público mais jovem provavelmente colocaria Pânico em primeiro lugar. Sua importância revolucionária não pode ser negada. Com o filme, Craven trouxe vida de novo para tais filmes em meados dos anos 90 e teve mais controle de suas continuações. Mas A Hora do Pesadelo veio antes e se tornou um fenômeno ainda mais comentado, dominando os anos 80 e depois o mundo. Freddy Krueger se tornou ícone pop, ganhou diversas continuações, uma série de TV, álbuns de figurinha e todo tipo de merchandising. Podemos dizer que o vilão ajudou a criar o que temos hoje em matéria de produto de entretenimento. Era a época em que os filmes começaram a deixar de ser apenas filmes e se tornar eventos que dominavam outras mídias.

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