Se você, telespectador, achava que a Jessica Jones estava ferrada na primeira temporada, multiplique isto por dez e aí sim você saberá o que é estar ferrada. A segunda temporada da série criada por Melissa Rosenberg (Dexter), adaptada dos quadrinhos de Brian Michael Bendis e Michael Gaydos, continua as coisas de onde foram deixadas. Desta vez, Jessica (Krysten Ritter), ao lado de Trish (Rachael Taylor), que ganha cada vez mais o papel de sidekick, buscam respostas no passado para entender o que deu origem aos poderes da protagonista.

Com a mesma narrativa densa da temporada anterior, Jessica Jones constrói mais um slow burn, ou seja, que leva um tempo para se desenvolver, mantendo a originalidade do primeiro ano. A história apresentada possui um mistério próprio e se torna cada vez mais difícil identificar quem, de fato, é o verdadeiro vilão da vez, já que parece colocar o público diante de uma verdadeira conspiração.
Com o termo passado em enfoque, Rosenberg centraliza todos os personagens numa luta e/ou busca com/por situações que aconteceram em outrora. É aquela velha história de quando o passado bate à porta e você fecha, ou deixa ele entrar e caminha para um ciclo vicioso. Jessica parece cada vez mais entrosada nesta situação e se a mesma já tinha problemas de raiva anteriormente, agora então, parece que tudo está se agravando e caminhando para acabar com integridade e saúde mental da mesma.

Do outro lado, Trish Walker, além de cada vez mais adentrar neste submundo de vigilantes ao querer ajudar a irmã adotiva custe o que custar, precisa encarar dilemas próprios que podem ou não levá-la novamente a um estado delicado. As coisas também não estão fáceis para Hogarth (Carrie-Anne Moss) que se descobre perdendo o controle e precisando recorrer a ajuda da detetive particular. O único, ainda que bizarramente, são da história toda é Malcolm (Eka Darville) que ganha um papel de maior destaque e consegue penetrar as paredes instaladas por Jessica e se tornar um amigo/subordinado necessário. E também se torna o alívio cômico da vez nos diálogos entre ele e a dona do Alias Investigations.

Os três primeiros episódios tem um ritmo mais lento do que a temporada anterior, contudo, a premissa de Jessica Jones sempre foi trabalhar a história no próprio tempo, sem necessidade de apressar as coisas. É interessante que após a apresentação da suposta vilã da temporada que, por sinal, tem uma construção intrigante e um contraste espetacular com a personagem de Ritter, a narrativa parece ganhar vida própria e manter o telespectador num transe que mais parece que os episódios têm poucos minutos invés de quase uma hora.
É fundamental relatar que o cerco está cada vez mais se fechando para Jessica e Trish e em cinco capítulos a sensação passada ao público é a de que o poço, em que as mesmas se encontram, não tem fundo e está chegando o momento em que já era para a vigilante e a apresentadora do Trish Talk. Preparem-se para encarar uma batalha entre ter esperança, e perdê-la, de que as coisas irão melhorar e ambas saírão sãs deste beco sem saída.

A direção da série continua mantendo o olhar peculiar da primeira temporada, as cores permanecem fazendo o trabalho fantástico de permitir ao telespectador identificar os personagens que estão em foco em determinadas cenas e a trilha sonora permanece a maravilhosidade já vista nos trailers. Importante salientar que temas polêmicos atuais estão sendo mostrados e debatidos na série ao longo dos episódios. Se no primeiro ano a produção tratou de abusos de poder, estupro, machismo, entre outros, desta vez ela vem ainda mais incisiva em trabalhar os abusos sofridos por mulheres seja em locais de trabalho, no dia a dia e dentro de relacionamentos com amantes, pais, amigos, etc.
Jessica Jones continua honrando o selo MAX das HQs e traz uma segunda temporada chamativa, intrigante, ácida e até mesmo polêmica. Que venha o desenrolar de toda esta confusão em que a nossa detetive favorita se encontra e que ela consiga sair pelo menos com alguma sanidade disso tudo.


Ao longo das últimas semanas, What If…? vem reimaginando momentos chave do Universo Cinematográfico Marvel. Alguns bem melhores que outros, mas todos compartilhando de um único elo: O Vigia (Jeffrey Wright). Conforme os novos episódios são lançados, a presença do cabeçudo de toga vem aumentando. Seja aparecendo mais nas paisagens, observando, ou efetivamente fazendo reflexões para com o público, o personagem está sendo mais mostrado.
O comportamento dos vigias é simples: observar sem interferir. Nos quadrinhos, diz-se que os vigias já interferiram, há muito tempo, quando tentaram compartilhar seu conhecimento e tecnologia com civilizações menos avançadas no universo. Porém, as consequências foram desastrosas, o que rendeu esse mantra para a espécie deles de não intervir, só olhar e checar. No entanto, essa crescente de aparições do Vigia dá a entender que ele poderá ter um papel importante no desfecho dessa primeira temporada, talvez até quebrando a regra primordial de sua espécie.
Fora a questão do Vigia, o sexto episódio é voltado para mostrar como Erik Killmonger (Michael B. Jordan) é um personagem incrível e que, até o momento, com sua suposta morte, foi subutilizado como vilão de uma única produção. Talvez o capítulo de roteiro mais elaborado, ele mistura as tramas de Homem de Ferro (2008) com Pantera Negra (2018) para mostrar uma história de xadrez empresarial que resulta em uma guerra de proporções globais, que provavelmente definirá o século XXI.
Depois de salvar Tony Stark do atentado no Afeganistão, Killmonger vira chefe de segurança das Indústrias Stark e revela todos os planos de homicídio que Obadiah Stane tinha para Tony, fazendo com que o playboy não apenas sobrevivesse, mas também não passasse pelos pontos de reflexão que o transformaram no Homem de Ferro. Sem os traumas, Tony foca em produzir armas e fica praticamente agindo como um vilão.
Sim, sem os eventos na caverna, Tony Stark vira uma versão glamurosa de Justin Hammer, chegando até a reproduzir falar do personagem. E é nesse ponto que o episódio vacila. Parece que toda vez que a Marvel tem a chance de vilanizar a figura de Tony no MCU, ela dá um jeito de redimi-lo ou matá-lo antes de explorar o que seria um dos melhores personagens possíveis desse universo, um Tony Stark do mal. Tudo bem que ele foi a figura central da empresa nos cinemas, mas o herói não voltará mais, e a graça de ter versões alternativas é trabalhar todas as possibilidades. Parece que falta essa coragem.
Já Killmonger segue como um dos maiores estrategistas desse universo, mexendo diretamente com os exércitos dos EUA e de Wakanda para conseguir implementar seu plano de vingança contra a opressão negra sofrida ao redor do mundo. Ele causa umas das maiores guerras de todos os tempos trabalhando como infiltrado e reivindicando seu direito ao trono wakandano, mesmo que isso signifique acabar com todos que entrem em seu caminho. Não importa a versão, Erik é um personagem fantástico que merecia demais ganhar uma segunda chance nos cinemas, mesmo que fosse novamente como vilão.
Sobre o episódio em si, ele segue com um problema crônico dessa série que é o ritmo. Ele é muito apressado em certos pontos e se estende um pouco demais em outros que não acrescentam tanto ao desenvolvimento dele. Só que, como a trama é bem elaborada, acaba prendendo um pouco mais o espectador, que segue na expectativa de ver se vão mostrar o final dessa guerra em algum outro capítulo ou se vão ter que aceitar mais um episódio com final em aberto que jamais terá seu fim mostrado.
Os novos episódios de What If…? estreiam toda quarta no Disney+.


































